Tudo o Que Sempre Quis || Cap.1 || Pt.1


«Forte é aquele que não desiste dos seus sonhos,
Mesmo com tantas dificuldades no caminho.»

Salvador caminhava de um lado para o outro com as mãos enfiadas nos bolsos dos jeans puídos, e a cada autocarro que chegava, o seu coração contraía-se num nó bem apertado.
- Helena! – Chamou, ao ver a rapariga loura descer do autocarro.
- Mano! – Exclamou, feliz, pondo os braços em redor do pescoço dele.
- Oh minha pequenina. Deixa-me olhar bem para ti. – Pediu, afastando-a – Estás mais crescida desde a última vez que te vi.
Voltou a abraçá-la demoradamente, levantando-lhe os pés do chão.
- Mano põe-me no chão. – Pediu – Estão todos a olhar para nós.
- Ai sim? E daí? – Perguntou, perscrutando-a com o olhar – Tenho a irmã mais linda do mundo! – Gritou propositadamente, para que todos o ouvissem.
- Salvador deixa-te disso! – Repreendeu, enquanto os olhares curiosos se afastavam, confusos e intrigados.
Salvador sorriu-lhe. Havia momentos que não precisavam de palavras, apenas um olhar, um sorriso e entre eles raramente era preciso mais do que isso para saberem se o outro estava bem e o que estaria a pensar.
- Não venhas com esse sorriso charmoso que comigo já não funciona. – Brincou, com as faces ainda rosadas de vergonha.
- Ora bolas! Terei de pensar num outro truque, então. – Respondeu, fingindo preocupação. – Gaita! O que trazes dentro desta mochila? Tijolos? Ou é só chumbo? – Questionou, pegando na bagagem dela.

Helena inclinou a cabeça e fez beicinho.
- Nada demais. Apenas coisas indispensáveis para uma rapariga de férias. – Declarou, pondo a mão no braço do irmão.
- Está bem. Está bem. Eu carrego. – Respondeu, cedendo.
- É para isso que serve os irmãos, sobretudo os irmãos mais velhos e fortes.
Salvador ergueu as sobrancelhas como quem diz «com essa não me convences
De facto – pensava Helena – o irmão estava também mais crescido e robusto. O seu metro e setenta e muitos assentavam que nem uma luva com aquele cabelo castanho curto e despenteado, mas sobretudo com aqueles olhos verdes que seriam para sempre um mistério para ela. Ora eram tão brilhantes como dois faróis, ora eram escuros, frios e até sombrios. Salvador era um poço de segredos, mas era o seu irmão, o seu querido irmãozinho que cuidava dela quando criança. Aquele que a protegia quando estava por perto e a repreendia mesmo quando estava ausente, como era o caso ultimamente. Era o género de irmão de que ela tinha orgulho de se gabar junto das amigas da faculdade até as deixar a salivar, encantadas.
            Na verdade, Helena questionava o porquê de Salvador continuar solteiro. Alto, robusto, de tez morena e olhos verdes, e aquela barba de três dias que só lhe dava pontos extras perante as raparigas, ele era um regalo para os olhos de qualquer pessoa do sexo feminino com dois dedos de testa.
- O que foi? – Perguntou ele.
- O quê?
- Estavas a sorrir, sabe-se lá para o quê.
- Nada. Hmm. Não foi nada. – Respondeu, baixou o olhar com um sorriso tímido. – Está bem. Estava a pensar com os meus botões se por acaso não tens por aqui uma namorada.
Salvador estacou e fitou a irmã, olhos nos olhos para depois os desviar para o vazio, sem saber o que lhe responder.
- Sabes como é mana. Histórias antigas. – Respondeu, com um encolher de ombros, retomando o caminho na tentativa de fazer com que aquele assunto morresse por ali, mas Helena era persistente e não desistia até saber o que queria.
- Pensei que estivesses a seguir em frente.
- E estou. Vim para cá para isso, só ainda não segui em frente nesse aspeto da minha vida. Para ser sincero, não tenho pensado nisso.
- Salvador…
- Chegámos! – Anunciou, interrompendo-a.
Helena entendeu que aquela era a forma do irmão fugir do que o atormentava. Ela sabia a resposta mesmo sem que ele a deixasse formular a pergunta. Ainda estava apaixonado por Mónica, era um facto.
- Bom, pelo menos é uma casa no chão, digamos. Não tem rodas e tem quatro paredes. – Disse ela, um tanto encantada com a fachada do bloco de apartamentos.
            Era simples, sem grande alarido. Situado numa pequena rua pacata, o estilo do irmão, sem dúvida. Bem, pelo menos era melhor que uma carrinha «pão-de-forma» azul e branca que tinha sido o lar dele nos últimos tempos. Ali, ela sabia que Salvador estaria…mais seguro.
- Estás a ver aquele terraço lá mesmo no topo? – Apontou – É o meu terraço. – Declarou, com o peito a inchar de orgulho.
Helena percorreu o edifício desde o rés-do-chão ao último andar. – Vives no quinto andar? – Perguntou, contando as colunas de janelas.
- Sim, sim. É um sótão. Ou seja, era um sótão que foi reaproveitado para uma espécie de estúdio. É engraçado, tipo… uma casinha de bonecas com o teto inclinado e tudo.
- Hmm. Presumo que tenha elevador, certo? – Questionou, já com a sua mente a tratar de imaginar que o irmão jamais na sua vida se lembraria de ir morar para um quinto andar se não existisse um elevador. Certo? Ele não teria feito isso. Pois não? Jamais. Só de pensar quantos degraus teria de subir até chegar lá a cima as suas pernas começaram a doer e os joelhos a ceder vigorosamente.

- Anda daí maninha! – Desafiou, esfregando as mãos uma na outra, sinal que Helena interpretou como traquinice. Conhecia-o demasiado bem para saber que Salvador estava a preparar alguma, e naquele caso, estava prestes a arrastar a irmã escada acima até ao quinto andar. Ah, como ela desejou apertar-lhe os garganetos


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5 comentários :

  1. Adorei, simplesmente fantástico :)


    R : Não precisas de agradecer, lembrei-me logo de ti, depois diz o que disseram.

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  2. Gostei muito deste bocadinho. (: Deixou-me com curiosidade para ler mais!

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  3. r: acho que o verão, cada vez é menos verão (se é que me entendes)

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  4. Não resisti, por isso vou seguir
    seu blog. Adoro o espírito que
    você demonstra nele. Será que se
    gostar do meu você vai me seguir
    também?

    Um beijo.



    .

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