Tudo o Que Sempre Quis || Cap.1 || Pt.2

                                       

     - Então? Pensei que te tivesses atirado pelas escadas. – Disse Salvador, trocista.
     - Ah Ah Ah. – Respondeu, irónica – Ocorreu-me, mas cheguei à conclusão que nesse caso já não poderia vingar-me. – Helena chegava ao topo das escadas, ao último dos malditos degraus, do maldito bloco de apartamentos, onde o maldito do seu irmão decidiu ir morar. – A pão-de-forma afinal não era assim tão má, pensando melhor.
     - Vá! Anda lá. Estamos quase – anunciou. Abriu a porta do apartamento revelando mais uma dúzia de degraus que ela teria de subir.
     - Salvador! Vou dar cabo de ti! – Gritou Helena, enquanto corria escada a cima atrás dele.
Ao entrar no apartamento em si, estava pronta para voltar a protestar e insultar novamente o irmão quando o queixo lhe caiu. Não conseguiu pronunciar nada mais que um simples «Oh».
Salvador estava tranquilamente instalado no sofá a observar a expressão de deleite estampada no rosto da irmã.
     - Estavas a dizer que aquela carrinha era melhor?! – No seu rosto bailava um sorriso triunfante, orgulhoso até. Sabia bem que a irmã estava completamente desconcertada com aquela revelação de ele ter uma casa, no verdadeiro sentido da palavra.
     - Oh! – Foi tudo o que ela conseguiu articular mais uma vez. – Não! Que horror! É claro que isto é muito melhor que aquela geringonça velha.- Abriu os braços como se quisesse abraçar todo o espaço que a envolvia. - É linda, mano! – Exclamou, encantada.
            Nada de luxos, de bugigangas a decorar. Era um pequeno apartamento, mas não tão pequeno. Tinha as dimensões necessárias. Um estúdio tal como ele dissera. Achou engraçado ao confirmar que o teto era de facto inclinado. Sorriu, ao imaginar onde o irmão teria ido desencantar aquele espaço tão…acolhedor e simultaneamente tão parecido com ele.
Estava arrumado – observou – e limpo. Apesar de a decoração ter sido obra do irmão - típico rapaz solteiro na casa dos vinte anos – ele esforçara-se para transformar aquela casa num verdadeiro lar, o seu lar.
A prancha disposta ao cimo das escadas, encostada à parede revelava um gesto masculino descuidado mas raios, ficava perfeita naquele sítio.
Ali, ele sentia-se em casa – pensou Helena. Sentia que pertencia àquele lugar. Finalmente o irmão encontrara o seu rumo.
     - Hmm. Devo preocupar-me com esse teu silêncio? – Questionou, erguendo as sobrancelhas. – Vá, deixa-me mostrar-te o resto.
Helena absorveu cada canto da casa, cada detalhe, questionando-se se o irmão teria mudado alguma coisa sabendo que ela chegaria naquela manhã. Imaginava-o numa correria a arrumar, a limpar, a apanhar roupas espalhadas pelo chão, a lavar pilhas de loiça suja e a varrer sobras de refeições em cada divisão da casa. Riu-se de si mesma. Não. O seu irmão não era assim. Poderia ser descuidado como qualquer rapaz mas não viveria num local onde não existisse ordem e apresentação. Não arrumava as coisas meticulosamente mas arrumava do seu jeito onde soubesse que era ali que iria encontrar alguma coisa que precisasse. Como dizia «arrumava tudo à vista».
     - Imagino quantas festas já deste aqui. – Disse Helena, espicaçando-o.
     - Não muitas. Festas, propriamente ditas, foi apenas a da inauguração. Às vezes faço é almoços ou jantares com os meus amigos. Jogamos um pouco e tal. Essas coisas. – Respondeu, despreocupado.
A imagem do irmão sentado no terraço, de calções com os pés em cima da mesa na companhia de dois ou três amigos mais íntimos a jogar às cartas e a beber uma cerveja, assaltou-lhe a mente. Sim, esse era o seu irmão.
     - Hmm…- Resmungou Helena.
     - Hmm…- Respondeu ele.

Estavam ambos absortos nos seus pensamentos. Salvador podia adivinhar o que ia na cabeça da irmã enquanto ela percorria a sala de estar com o olhar. Tinha-se saído bem desta vez. – Concluiu, satisfeito consigo próprio.

Apenas há um ano atrás chegara àquela terra com nada mais que umas mochilas com o essencial e meia dúzia de notas na carteira. Viveu e sobreviveu durante as semanas mais frias, chuvosas e cruéis do Inverno dentro de uma carrinha pão-de-forma restaurada pelo pai anos atrás. Era movido pela esperança de algum dia, quem sabe, encontrar o seu lugar no mundo. Encontrar-se. Até então andara à deriva sem grandes ambições nem grandes propósitos. Todos os dias eram iguais, até àquele derradeiro dia. Nesse instante tudo mudou e percebeu que tinha, finalmente, encontrado o seu objetivo, a sua meta.
Desde que saíra de casa, todas as privações que ultrapassou foi a pensar nesse mesmo objetivo. Agora, um ano depois, tinha percorrido meio caminho, faltava pouco para atingir a meta que delineou.
      Nunca virou as costas aos desafios que lhe foram impostos, nunca recusou as oportunidades que foi encontrando pelo caminho. Trabalhou por turnos em cafés, bares, deu aulas de surf … o que fosse necessário. Poderia ter escolhido o caminho fácil mas não o fez e tinha orgulho disso; orgulho de um salário limpo ao invés de ter as mãos sujas com negócios obscuros.
Quando por fim o Inverno deu lugar à Primavera, inscreveu-se no curso de Nadador Salvador o que o ajudou a conseguir a vaga como Salva Vidas na praia durante a época balnear que se avizinhava. Fez bem ao ego. Passava os dias na praia, fez novas amizades com excelentes pessoas – algumas da terra, outras que se encontravam de férias – e pela primeira vez em meses, viveu de verdade. Saboreou cada minuto de cada dia. Adorava a praia. Adorava aquele emprego, o ambiente entre colegas que se revelou uma camaradagem incrível.
Quando a época balnear terminou regressou aos turnos nos bares e cafés que nunca deixara por completo durante o Verão. Não estava disposto a baixar os braços, nunca. Por isso quando se viu com um turno a menos num café, que entretanto encerrara, não entrou em pânico. Algo novo haveria de aparecer. Aparece sempre. Fecham-nos uma porta, uma janela ou duas abre-se noutro lado.
Contudo, fecharam-lhe ambas as portas. Perdeu o emprego no bar onde servia ao balcão após uma briga que implicou garrafas contra cabeças, copos partidos e algumas mesas fora do lugar. Na verdade, Salvador não se arrependia do que o fez ser despedido. Resumindo? Pôs um gajo – que insistia ferozmente com uma rapariga - nos eixos. Pode ser que tenha exagerado na quantidade de golpes desferidos contra ele. Sim, foi isso mesmo. Mas e daí? Estava a pedi-las há algum tempo. O típico cliente da casa. Aquele que é o braço direito do manda-chuva do estabelecimento.
        - Estás tão lixado, meu! – Ameaçou o outro, limpando o sangue que lhe escorria pelo canto da boca
        - Estás a ver-me preocupado?

         Quando no dia seguinte a meio da tarde recebeu um telefonema do gerente a pedir que passasse mais cedo no bar, sabia que já era. O emprego tinha ido pelo cano abaixo. Salvador sabia mesmo sem o gerente mostrar isso do outro lado do telefone. A verdade é que ele não tinha um pingo de receio por fulanos como aquele. Não se importava. Não tinha grande coisa a perder.

                                    ⚓

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4 comentários :

  1. Adoreiiiiiiiiiii *_* viciada nesta história, que venha o próximo capítulo :)

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  2. R : Sim o email é o mesmo : luaaa07@gmail.com :)

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  3. Fui ler a primeira parte para começar a acompanhar direitinho. Estou a adorar!

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