Tudo o Que Sempre Quis || Cap.1 || Pt.3

                                       ⚓


     O apartamento fora um verdadeiro achado.
     Num daqueles dias que andava a preambular pelas ruas a espreitar pelas montras com as mãos enfiadas nos bolsos, cruzou-se com a Sra. Dª Rosário, uma daquelas senhoras bastante simpáticas sempre bem-dispostas faça chuva ou faça sol.
    Ao cabo de algumas semanas a morar no estacionamento a escassos metros do seu bloco de apartamentos, o inevitável aconteceu. Cruzavam-se diariamente pela manhã na padaria da esquina, ou quando Salvador terminava o seu turno na praia, faziam companhia um ao outro no caminho de regresso. Uma joia de senhora.
    - Bom dia Dª Rosário.- Saudou. – Como está?
    - Bom dia meu querido! – Retribuiu, com entusiamo. – Estás a ouvir Natália? Este é o tal rapazinho que te falei no outro dia. – Disse, voltando-se para a vizinha. – Aquele que me ajudou com a botija do gás.
    - Ah! Sim, sim já me lembro.
O rapaz sorriu atrapalhado.
    - Então, já arranjas-te alguma coisa? – Quis saber a Dª Rosário, sabendo que ele estava desempregado.
Abanou negativamente a cabeça.     
     - Ainda não. Ando a tratar disso. Na verdade vim agora mesmo das Piscinas Municipais, talvez consiga alguma coisa por lá na manutenção ou como Nadador Salvador.
     - Este rapaz. Sempre dentro de água. Qualquer dia andas engelhado. – Brincou ela
Ele soltou uma gargalhada genuína.
     - Acha? Já estou treinado para isto. Acho que pertenço a alguma família de pinguins, não há água fria que me incomode. Começo a suspeitar ter um primo qualquer perdido lá para as Antárticas. – Respondeu.
     - Como disse no outro dia vou ficar atenta pode ser que oiça dizer alguma coisa que te interesse.
     - Agradeço muito Dª Rosário.
    Ao ver que a sua vizinha Natália se embargava num novo mexerico com as pessoas que passavam, colocou a mão sobre o braço dele e sussurrou: - Vais para aqueles lados? – Questionou.
Acenou afirmativamente. – Deixe-me ajudá-la com os sacos.
     - Não gosto de saber que um rapazinho como tu anda a morar naquela coisa com rodas – disse, referindo-se à carrinha. – Não te chateeis comigo Salvador. Sabes que te dava um lugar para ficares de boa vontade se não fosses teimoso e orgulhoso. Olha que não é a qualquer um que eu ofereço um teto.
    - Dª Rosário…
    - Eu já sei o que pensas.- Interrompeu – Não te censuro por teres as tuas ideias e os teus princípios mas… não tens medo que te façam mal durante a noite?
Ele sacudiu a cabeça. – Confesso que tenho uma fera escondida debaixo da cama. Daquelas com dentes afiados. – Respondeu, divertido.
Ela percebeu a brincadeira e não pôde conter um sorriso.
    - Dª Rosário agradeço-lhe por me querer ajudar. – Confessou, dando uma leve pancadinha na mão que lhe cobria o braço. – Agradeço-lhe sinceramente, mas como mesma disse, tenho os meus princípios. Não é nada contra si, por amor de Deus – rematou, receoso que o interpretasse mal. – Não quero ficar em dívida consigo. Não gosto de ficar em dívida para com ninguém, e nunca lhe poderia pagar tamanha hospitalidade.
Nenhuma mala a abarrotar de dinheiro o poderia pagar. A senhora é uma pessoa incrível, como uma…avó.
Ela sorriu satisfeita com a última observação.
     - Meu querido. – Disse, com os olhos cor de avelã lacrimosos.
     - Tenho todo o gosto em a ajudar no que me for possível. Seja com as compras, com alguma coisa que lhe avarie em casa; qualquer coisa. Mas nunca poderia aceitar a sua oferta. Espero que não leve a mal.
Ao chegar ao apartamento da Dª Rosário, Salvador colocou os sacos de plástico sobre a bancada da cozinha.
     - Na verdade, há uma coisa que poderias fazer por mim. – Declarou ela puxando os óculos para o pescoço. – Percebes alguma coisa de obras?
Ele ergueu as sobrancelhas, desconfiado.
     - Não me faças subir estes degraus todos contigo por amor de Deus – pediu, entregando-lhe um molho de chaves – Tenho dois sótãos em obras que quando o meu marido era vivo – Deus o tenha num bom lugar – decidimos reaproveitar para dois apartamentos mais pequenos. O meu filho empreiteiro é que andou aí uns meses de volta daquilo com uns colegas, mas agora com a carga de trabalho que tem tido e os meus netinhos uns a estudar outros a trabalhar e o outro que nunca cá põe os pés, tenho tido as obras paradas. E tu sabes como sou em relação a estranhos a pisar o chão que é meu. – Continuou, sem dar qualquer hipótese de a interromper.- Por isso, se fizeres o favor de ir lá a cima ver se serias capaz de terminar o que falta… - pediu, deixando a frase por terminar.
Finalmente poderia falar. – Sim, é claro D. Rosário. Confesso que o meu conhecimento sobre construção não é grande coisa mas vou lá acima ver o que posso fazer para a ajudar.
Ao subir a imensidão de degraus – talvez uns sessenta? Talvez mais? – Percebeu o porquê de ela morar num rés-do-chão. Escolha inteligente, pensou. Com o final da época de férias, vários apartamentos estavam vagos, alguns estavam ocupados o ano inteiro, o ganha-pão da Dª Rosário.
     - Bom dia! – Disse um senhor baixo e rechonchudo ao passar por ele.
     - Bom dia – respondeu, com um sorriso.
Típico. Não se conhecia ninguém daquela terra que não dissesse alguma coisa quando se cruzavam com outra, como era o caso. Semanas depois, Salvador tornou-se vizinho do Sr. Tomás, o homem baixo e gorducho com um bigode branco enrolado nas pontas.
Quando chegou ao cimo das escadas os seus joelhos latejavam. Abriu a porta do quinto andar direito. Pouca coisa faltava terminar, constatou, este seria então o sótão mais adiantado. Uns detalhes aqui, uns acabamentos acolá e ficaria pronto. Era um espaço acolhedor, simples mas acolhedor. Era organizado em várias zonas pequenas. Dois quartos – um com vista para o estacionamento onde vislumbrou a sua velha carrinha - uma casa de banho de dimensões razoáveis, uma sala e cozinha adjacentes e uma pequena divisão de arrumações – conferiu, ao bisbilhotar por trás da porta. No terraço já se encontrava o necessário para se montar um barbecue, constatou ao averiguar as peças dispostas a um canto.
      -Tudo bem – pensou para com os seus botões. - Não será difícil.
Trancou a porta e entrou no apartamento ao lado. No chão jazia um tapete de corda, gasto com as letras sumidas que diziam «Welcome» *

       Salvador rodou os calcanhares e olhou para trás, desconfiado. Não existia qualquer tapete na porta ao lado, de onde tinha saído. Afastou o tapete com o pé, levantando-o cuidadosamente não fosse ser uma brincadeira ou algo do género. Nada. Era só um tapete velho. Um simples tapete.
Rodou a chave na fechadura e entrou. Não levava grandes expectativas em relação ao apartamento que vira anteriormente mas fora completamente apanhado de surpresa. O que um aparentava estar finalizado, o outro mostrava o contrário. Havia ainda paredes a preencher com argamassa, pavimento e azulejos a colocar, paredes por pintar. Estava completamente inacabado mas existia algo naquele espaço que o seduziu, que o fascinou desde o princípio. Como algo… mágico e sem explicação.
Em cima de uma mesa de trabalho improvisada vislumbrou um pedaço de papel acastanhado nos cantos. Por momentos sentiu-se congelar por inteiro e os pelos na nuca eriçaram-se.
       - Bem- vindo ao lar, surfista! – Dizia o papel.

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*Welcome – Bem-vindo

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