Tudo o Que Sempre Quis || Cap.2 || Pt.1


«Não existe amor à primeira vista.
O que existe é a pessoa certa,
No momento certo.»


- Mano?! Terra chama Salvador! – Chamou Helena
- Hã? Hmm. Desculpa. Não estava cá. – Respondeu, coçando a cabeça.
- Pois, eu reparei. Estava aqui a falar sozinha, a dizer que te saíste bem por aqui.- Admitiu, enquanto se esticava no sofá azul - marinho.
- Sim. Acho que sim. Acho que foi desta.
- Vamos falar do que interessa... O que planeias cozinhar para o almoço? – Quis saber Helena, espreguiçando-se. – O que foi? Não achas que tenciono tocar com um dedo que seja num tacho pois não? Estou de férias. – Justificou-se.
- Bom, planeei levar-te a almoçar fora, talvez àquela pizzaria que te falei. Mas nem me atrevo a sugerir tal coisa que implique voltares a descer e subir escadas num futuro próximo. – Declarou, desviando-se à almofada que voava na sua direção.
- Tens razão. Não tenciono voltar a olhar para aqueles degraus tão cedo. Mostra-me o que vales no meio dos tachos, maninho.
Salvador foi para a cozinha a resmungar. Não que lhe desagradasse de todo a ideia de provar à irmã que também se saía bem na cozinha. Fora obrigado a isso se não quisesse passar fome.

- Está bem mas não voltas para casa sem irmos àquela pizzaria. Tenho lá um amigo que ias gostar de conhecer. É o teu tipo, doido por golfinhos e peixinhos. – Declarou, trocista - Bem, pensando melhor, talvez não seja boa ideia. Pode ser o tipo mais fixe que conheci por cá mas não o quero embrulhado contigo. Pois, esquece a pizza. – Concluiu, coçando o queixo.
- Nah! Agora é que quero mesmo lá ir! – Exclamou Helena, curiosa.
- Maninha, para tua informação, se ele se esticar para o teu lado nem o facto de sermos amigos me impede de o levar para alto mar e deixá-lo a boiar. – Disse, tocando o dedo no nariz dela.
- Então vamos combinar uma coisa; tu tratas dele e eu trato da próxima rapariga que se aproximar menos de três metros de ti, que achas? Hmm?
- Não me parece. - Respondeu.
- Pois, já me esquecia que as manténs à distância. – Resmungou Helena, pondo o avental.
- Pensei que não ias tocar num tacho nestas férias.
- Faz parte do plano para te pôr a falar. – Confessou. – Tens falado com ela?- Questionou, cautelosa.
- Hmm? Quem?
- Salvador, lembra-te que a mim nunca me enganas. Desembucha se faz favor que não tenho as férias todas para te aturar assim, quase um zombi. Vou obrigar-te a divertires-te, a conhecer pessoas novas, principalmente miúdas, nem que te arraste escada abaixo. Não vou voltar para casa sem conheceres alguém.
- Mana…
- Cala-te. Não há mana nem meio mana. Começo a ficar irritada seriamente contigo Salvador. A gaja é uma cabra. Ainda gostas dela, toda a gente consegue ver isso. Não tens culpa disso é verdade, mas terás culpa se continuares a arrastar-te pelos cantos. Toda a gente precisa de alguém. Não estou a falar de amigos, mas…de alguém. Alguém que cuide de ti, alguém para cuidares. Alguém que mereça a pessoa que és. – Disparou Helena. – Ela não te merece mano. Põe isso na cabeça, por favor. – Concluiu, calmamente.
            Salvador permaneceu num silêncio quase aterrador.
- Não. Não tenho falado com ela. Pelo menos nos últimos tempos. Desde que terminámos havia dias que trocava-mos e-mails. Sabes que me importo com ela, bolas! – Exclamou, vendo que a irmã preparava-se para lhe responder. – Não é fácil, sabes? Achas que não a tentei já esquecer? Não consigo.
            Abandonou a cozinha, saindo para o pequeno terraço. Helena seguiu-o instantes depois.
- Talvez ela não me mereça, mas eu também não a mereço. Nunca estive perto dela quando devia estar. – Continuou.
- Estavas a quilómetros de distância, Salvador. Sabes bem os esforços que fizeste, não comeces a culpar-te a ti mesmo porque só estás a enterrar-te ainda mais. Diz-me o que queres numa relação. – Pediu ela.
Salvador ficou confuso.
- Sim, diz-me o que procuras numa miúda, o que queres para o futuro. Sei lá, qualquer coisa. – Insistiu
- Isso vai fazer parte do teu plano maquiavélico para um arranjinho? – Quis saber, desconfiado
- Vai-te lixar Salvador! – Disse ela, rindo-se depois docemente.
Sem outra solução, decidiu satisfazer a curiosidade da irmã. Debruçou-se sobre o muro do terraço, fitando o vazio.
- Quero alguém que cuide de mim. – Admitiu, com um sorriso tímido. – Quero alguém que me ame, que eu ame. Quero… construir a minha família. – Confessou, encarando Helena que se mostrava um tanto surpresa com esta última revelação.

- Bom…Hmm. – Murmurou, sem saber o que dizer. – Ok. Não fazia ideia que já andavas a pensar em virar um homem casado com um rebanho de cachopos atrás. – Disse, trocista.
Ele sorriu.
- Mas neste momento tenho assuntos pendentes que quero resolver antes de me dedicar ao que seja.
- E a Mónica… preenche os requisitos que procuras? É ela a mulher que queres passar o resto da tua vida? – Encurralou-o.
Salvador demorou a responder e quando o fez mediu as palavras antes de as dizer.
- Ainda a amo. Sei que ninguém aceita isso, que querem que seja feliz. Mas e se eu só for feliz com ela? Por muitos defeitos que ela possa ter – eu também tenho os meus – Talvez seja mesmo ela a tal. Não sei. Ninguém sabe.
- Vocês são tão…
- Diferentes?- Salvador completou a frase da irmã.
- Sim. Diferentes. Dizem que os opostos se atraem mas há coisas nela que eu sei que não fazem o teu género, mesmo que me tentes convencer do contrário.
- Ainda assim, continuo a amá-la. – Confessou, regressando ao interior do apartamento, sem dar hipótese de a irmã protestar.
Sabia o que ela pensava. Sabia o que todos pensavam mas e daí? Era ele que sabia o que sentia, e não podia negar que ainda amava Mónica.
- Então e a pizza? Ainda está de pé? – Questionou Helena, com um sorriso divertido, seguindo-o.

O rapaz percebeu a mudança de ideias repentina da irmã que instantes antes se recusava ferozmente a encarar a escadaria.
- Tudo bem. Vou informar o Martim que o vou afogar esta tarde.
            - Hmm…Martim – murmurou Helena interessada.
- Lembra-te do que disse sobre deixá-lo em alto mar. – Resmungou Salvador, enquanto perscrutavam a pizzaria à procura de uma mesa livre.
Helena riu-se, descontraída e um tanto ansiosa por conhecer o novo amigo do irmão.
Era um espaço…original – constatou – As paredes eram revestidas a tijoleira, o que dava um toque rústico mas divertido ao espaço, conjugando com as mesas vermelhas e os bancos de pé alto. O balcão percorria o lugar de um lado ao outro e na vitrina estavam expostas algumas pizzas. Do forno saiu um aroma agradável que os deixou a salivar.
Quando Salvador fez sinal a Martim, Helena quase caía do banco.
- Como é que é puto? – Cumprimentou Martim, com uma leve pancadinha no ombro do amigo.
Salvador retribuiu.
- Vais-me dizer quem é esta beldade? – Murmurou Martim.
- É a minha irmã pá! – Exclamou ele, com um olhar ameaçador.
- Nesse caso…Bem, olá irmã do Salvador. – Saudou, um tanto constrangido, para sua surpresa.
- Helena. – Anunciou. - Devo avisar-te que o meu maninho já me informou que te deixa em alto mar se te atirares a mim. – Informou ela, ficando mais tranquila.
- Ai sim? – Questionou Martim – Deitando um olhar divertido ao amigo.
- Sabes como é. Protejo o que é meu. – Respondeu. – Traz lá mas é alguma coisa para comermos, anda! – Pediu, afastando-o da irmã.
            - Coitado! – Exclamou Helena, assim que o belo rapaz de olhos azuis e sorriso perfeitamente alinhado se afastou.
- Ele sabe que estava a brincar com ele. Mas a sério mana, pode ser muito bom rapaz e acredita que é um grande amigo e companheiro de surf mas fica longe dele. É do género de se babar para qualquer par de pernas que se mexa.
O comentário do irmão desiludiu-a um pouco. Achara Martim jeitoso - e de que maneira! – Mas também notara a forma como olhara para ela. Era um regalo para a vista, é certo, mas sabe Deus como ela detestava rapazes assim, com as raparigas todas aos pés com um estalar de dedos.
Não, não estava interessada nele. – Disse de si para si – Nunca iria estar. Raios! Lá vinha ele com aquele sorriso alinhado e branco, sem nunca desviar os olhos dos dela.
- Aqui têm. O que querem beber? – Perguntou, cordialmente.
Salvador e Helena entreolharam-se.
- Pode ser dois sumos. – Assumiu Helena, sem nunca perder a postura.
Martim afastou-se da mesa e dirigiu-se ao balcão de onde tirou as bebidas. Aquela miúda… era jeitosa como o raio mas aqueles olhos a fulminarem-no como se lhe quisessem saltar das órbitas… Decerto que o seu amigo avisara-a como ele gostava de mulheres. E daí? Não seria novidade nenhuma.
Gostava de as apreciar, passar tempo com elas, se lhe agradasse dava umas voltas, se não fizessem o seu tipo mandava-as dar uma curva gentilmente. Oh, Deus sabia como ele era perito em dispensá-las quando se tornavam demasiado chatas e melosas. Um ramo de rosas e uma caixa de bombons resolvia o assunto.
Não gostava de compromissos, mas aquela miúda estava a deixá-lo com a cabeça à roda. Jeitosa como o raio, com um belo par de pernas ainda que escondidos pelos jeans justos.
No caminho para a mesa prometeu a si mesmo não mexer com o bom senso de Salvador. Sabia que se ele se aproximasse demasiado de Helena era bem capaz de o desancar.
- Puto sabes do evento que vai haver para a semana ali na Praia do Norte? – Quis saber Martim, colocando as bebidas à frente deles. Salvador franziu a testa. – Ah! Sim. Já me lembro. Ouvi qualquer coisa sobre isso há uns dias.           
- Vais alinhar? – Perguntou.
- Nah. Posso ser um surfista do caraças – disse, inchado de orgulho pelos torneiros que vencera anteriormente – mas não me aventuro naquelas ondas. És doido se o fizeres! – Avisou, espetando o dedo indicador na direção do amigo.
- Não tenciono afogar-me - respondeu, lembrando-se do que Helena dissera – Mas estava capaz de lá ir dar uma espreitadela. Que achas? A tua irmã também pode ir connosco. Sem segundas intenções – esclareceu de imediato.
- Vou ver se tenho tempo para isso. Depois digo-te alguma coisa, tudo bem?
- Claro. – Respondeu. Dirigindo-se ao balcão para atender os clientes que chegavam.
- Hmm Hmm. Também é surfista. Onde é que foste buscar esta peça? – Quis saber Helena, desafiando o irmão.
             - Longa história. – Respondeu, suspirando.
                                    ⚓

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4 comentários :

  1. Gostei, vou tentar ler os capítulos anteriores!

    Bjxxx

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  2. Estive a ler o que já publicaste do eu livro e adorei. Está muito bem escrito, parabéns! ;)

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  3. Tenho para mim que vamos ter aqui longas peripécias :) adorei!

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