Tudo o Que Sempre Quis || Cap.2 || Pt.2

                                  ⚓

     - D. Rosário. – Chamou, descendo as escadas. – Acho que consigo fazer alguma coisa lá em cima.
     - Ai sim? – Respondeu, interessada.
     - Não será complicado.
            Sentiu-se impelido a recusar mas aquele pequeno estúdio completamente inacabado seduziu-o de tal maneira que quando deu por si já estava a tomar notas mentalmente do que seria preciso.
     - Reparei num tapete na entrada num dos sótãos. É seu? – Questionou, cautelosamente.
     - Tapete? – Dª Rosário ficou confusa – Não tenho ideia de que tapete seja. Normalmente são os inquilinos que colocam o que quiserem à porta e aqueles sótãos…bem, é impossível.
     - Acha que algum dos seus filhos quando lá andaram nas obras o deixou lá?
     - Porque haveriam de o fazer? Os meus filhos ainda têm o hábito de saltar por cima dos tapetes como se não existissem, não vejo porque o fariam.
     - Bom, deixe lá. Não se preocupe. Amanhã começo a trabalhar, parece-lhe bem?

     A história do tapete era absurda mas intrigante. Salvador resolveu não dar importância ao assunto e até se esqueceu do sucedido durante o resto do dia. Só o papel amarelado que trazia no bolso das calças lhe recordou aquele momento esquisito.
Nada daquilo fazia sentido. Nada mesmo. Estava curioso e intrigado. Não acreditava em destino nem nada do género, mas naquele momento, quando voltou a ler o papel amassado, sentiu um novo arrepio a percorrer-lhe a espinha. Não seria nada de especial. Talvez uma brincadeira ou uma mera coincidência absurda.
     Bem-vindo ao lar, surfista!
     Aquelas malditas palavras perseguiram-no durante o sono a noite toda. Teve inúmeros pesadelos sem pés nem cabeça e quase podia jurar que a voz que ecoava na sua cabeça não lhe era totalmente desconhecida.
      - Estou a ficar doido, só pode! – Resmungou, afastando os cobertores.

     Em pleno mês de Outubro a temperatura descera gradualmente, nomeadamente à noite, não lhe deixando outra opção senão retirar os cobertores e voltar a dar-lhes uso. Com um olho aberto e outro fechado olhou para o telemóvel e amaldiçoou o maldito papel. Eram apenas seis horas da manhã. Recusou-se a voltar a tentar adormecer, sabia que seria impossível.
Já meio desperto mas ainda um tanto rabugento decidiu aproveitar, já que madrugara, para apanhar umas ondas. Talvez fosse isso que ele precisava. Durante alguns dias não entrou na água e isso começava a afetar-lhe o sistema. Sem imaginar o que o esperava, retirou a prancha do tejadilho da carrinha, pegou na mochila e caminhou pelas ruas desertas, ainda a despertarem para o novo dia.
A areia estava húmida e fria mas nem isso o demoveu. Os primeiros raios de sol começavam a iluminar a água dando um toque de magia ao ambiente. Respirou fundo. O cheiro da água salgada fazia maravilhas.
     Batalhara tanto nos últimos meses e foi ali que fora parar. A uma terra que o acolheu, no meio de desconhecidos que o acolheram à sua maneira. Nunca haveria de esquecer aqueles meses, tal como nunca esqueceria o que o levara a sair de casa a meio da noite.
     - Meu, deixa-me em paz. – Ouviu alguém gritar perto da água.
     - Achas que brincas comigo, pá? – Gritava o outro.
Por instinto largou a prancha e a mochila no meio do areal e correu para ver o que estava a acontecer. E lá estava ele, com a cabeça de baixo de água à força toda enquanto alguém o ameaçava e o empurrava ainda mais para baixo.
     - Ei! Ainda o afogas! – Gritou Salvador, saltando para cima do estupor. Ele foi-se embora a resmungar e a soltar insultos para o tipo que ainda jazia na água a tentar equilibrar-se.
Ao aproximar-se dele sentiu o cheiro a álcool. Sábado de manhã, típico.
     - Lembra-te de me agradecer quando estiveres sóbrio, se aquele tipo não te puser as mãos em cima, entretanto. – Disse, ajudando-o a levantar-se.
Ele sorriu, com réstia de uma valente ressaca.
     - Pago-te uma pizza um dia destes. Aparece por lá. – Respondeu, apontando para a marginal onde se situava a pizzaria onde trabalhava. – Obrigado! – Agradeceu, enquanto se afastava e compunha a roupa ensopada.
     Este? Era o Martim. A personificação de sarilhos.

     Durante duas horas Salvador não saiu dentro de água. O mar estava de bom humor e contagiou-o após umas ondas perfeitas. Tinha toda a imensidão azul para si. Ou quase.
Sentado em cima da prancha com as pernas dentro de água esperava por mais uma onda, quando na areia viu surgir uma figura feminina com uma prancha debaixo do braço. Observou-a discretamente enquanto fazia os exercícios de aquecimento antes de entrar na água. O seu fato neopreme era em tons de cinza escuro, talvez preto, personalizado em tons de rosa choque aqui e ali. Mesmo distante, pôde definir a sua silhueta bem definida, alta, bem constituída, e aquele fato que tão bem lhe assentava. De facto, existia pessoas que nasciam para ser surfistas e aquela miúda era uma delas. Perdido em pensamentos deixou escapar uma bela onda enquanto admirava aquela figura feminina a entrar na água, a remar em cima da prancha na direção dele. Constrangido, desviou o olhar.
A rapariga saudou-o com um aceno de cabeça, deixando uma distância segura entre ambos. Uma onda perfeita acabara de se formar e ele estava a postos para a apanhar quando ela se antecipou. Salvador ficou perplexo. Nunca vira uma miúda a surfar daquela maneira, cheia de graciosidade, como se deslizasse por cima das ondas, dentro das ondas. Fizera um tubo estupendo. Sentiu o queixo cair-lhe, literalmente. Aquela era dura de roer – pensou – tinha estofo para aquilo, para o desafio.
Iniciaram um duelo amigável ver quem é que apanhava as ondas de quem, chegando ao ponto de já nem se importarem com quem estava vantagem ou não. O rapaz divertiu-se imenso. Já não se lembrava da última vez que se divertira a surfar, sentiu-se renascer, com as energias renovadas ao máximo. Todos os problemas, todas as preocupações desapareceram. Por instantes, era apenas ele. Novamente ele. O ele que tinha esquecido algures no passado.
Decidiu sair da água, contrariado, mas estava na hora de começar a trabalhar nas obras dos sótãos.
     - Então? Não me digas que estás a desistir. – Ouviu uma voz atrás de si.
Rodou os calcanhares, dando de caras com a rapariga que lhe acabara de dar uma valente coça dentro de água.
     - Nada disso. – Respondeu, com um sorriso aberto – Está na minha hora. Tenho de ir trabalhar.- Esclareceu.
Ela acenou em jeito de compreensão, enterrando a prancha na areia ao lado da dele.
     - Mas tenciono resolver isto na próxima vez. Quero desforra. – Disse Salvador, abrindo o fecho do fato.
    - Estás a convidar-me para surfar contigo? – Quis saber, com um sorriso despreocupado.
    - Hmm. Talvez. A menos que apareças por acaso, como hoje. – Respondeu, sem rodeios.
    - Fico à espera. – Respondeu ela, atando o cabelo alourado num rabo-de-cavalo.
Por instantes não disseram nada, absortos em pensamentos e um tanto cansados.
    - És boa nisto…no surf.- Admitiu, contemplando disfarçadamente os pingos de água salgada que lhe escorriam do cabelo, do rosto.
    - Comecei há poucos meses. Mas obrigado, também não és nada mau. Fizeste um tubo excelente, pensava que ias ter ao outro lado da praia – respondeu com uma gargalhada.
Salvador não respondeu, limitando-se a sorrir. Estava exausto. Ela levara-o ao limite.
    - Tenho mesmo de ir. – Anunciou, contrafeito – Não me quero atrasar.
    - Não tem problema. Vou andar por cá uns dias, talvez ainda leves outra coça na dita desforra, se apareceres. – Respondeu, desafiando-o.
    - Podes crer que apareço. – Respondeu, pegando nas suas coisas. – A propósito…Salvador.
    - Sara. – Respondeu, dando a conhecer o seu nome.
    - Até breve. – Disse, sorrindo.
Sentiu-se feliz. Naquele momento, Salvador sentiu-se feliz e leve, como se lhe tirassem uma tonelada de cima dos seus ombros.
    - Sara – pensou.


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4 comentários :

  1. Estou casa vez mais curiosa!

    r: Está mesmo linda *.*

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  2. Curiosa para o próximo cap :)
    Beijinhos*
    http://surpreende-mee.blogspot.pt/

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  3. Adorei, Adorei, Adorei, onde está o próximo ? hehe

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