Tudo o Que Sempre Quis || Cap.2 || Pt.3

                                      ⚓


     Naquela manhã, Sara madrugara. Desistiu de andar às voltas na cama quando olhou de relance para o despertador que anunciava as sete horas. O dia começara a despontar lentamente. Mais uma noite daquelas – pensava – em que não conseguia dormir devido às insónias.
Sem demoras, atirou o fato de surf para dentro de uma mochila juntamente com todo o material que necessitava. Vestiu uma roupa desportiva e confortável, sem esquecer a sua camisola preferida rosa choque da marca roxy. Estava fresco, a temperatura começara a descer e a última coisa que ela queria era adoecer nos próximos dias, contudo, ignorando a aragem fresca, caminhou em direção à praia com a prancha dentro do saco prateado, debaixo do braço. Os seus olhos de cor clara ainda se apresentavam ensonados mas a sua mente estava cheia. A abarrotar de pensamentos que ela queria afastar.
    As ruas estavam desertas, apenas um madrugador aqui e ali. Em comparação com os meses de Verão em que àquela hora as ruas já estavam repletas de vendedores, turistas e aromas… naquele dia era um verdadeiro deserto.
Os primeiros raios de sol refletiam-se na água à medida que ela caminhava pelo areal. Vislumbrou alguém na água, outro surfista, em cima da prancha com os pés mergulhados na água à espera de uma onda. Ela adorava fazer o mesmo, apenas ficar sentada na prancha, no meio daquele todo azul… por vezes, quando se encontrava sozinha, aproveitava aquela paz para colocar a mente em ordem. Contudo, naquele dia não estava ali para isso. Precisava de esvaziar a cabeça, descarregar energias e carregar as baterias com energia positiva.
    Pousou a prancha na areia, tirou a mochila das costas e descalçou-se. A areia fria debaixo dos seus pés fez-lhe cócegas, levando-a a mexer os dedos. Despiu-se, ficando em bikini e vestiu o seu fato neopreme preto com desenhos cor-de-rosa. Fora presente de alguém – relembrou – que queria esquecer. Subiu o fecho e começou os exercícios de aquecimento, de olhos postos no surfista dentro de água, sem notar que ele também a observava.
     Correu em direção à água fria sem abrandar o ritmo. Uma onda se formou mas o surfista não se mexeu para a apanhar. Não estava ali para fazer inimigos dentro de água mas também não era um osso fácil de roer e ela sabia-o. Gostava de dar o seu melhor, se os outros tivessem pedalada para a acompanhar, ótimo, caso contrário ficariam a ver navios.
Era um rapaz – constatou ao aproximar-se mais – acenou-lhe com a cabeça em jeito de saudação. Ele retribuiu. Por de trás dele uma onda estava a formar-se e Sara não perdeu tempo. Colocou-se em posição antes do seu novo colega e remou, remou, remou até ser a altura ideal para se colocar de pé sobre a prancha. Deslizou pela água como se fosse tudo tão…simples, quase podia adivinhar os olhos do surfista, cravados nas suas costas.
     Sara desafiou-o. Gostava disso. De desafiar, nomeadamente quando não haveria rancor nisso da parte dos outros. Competiram amigavelmente, ver quem roubava as ondas de quem. Ela sentia-se cansada mas não iria desistir e dar esse doce prazer ao rapaz, mas ele saiu da água após cavalgar uma belíssima onda que agora teria sido ela a deixar escapar, distraída enquanto o observava de relance.
Ele desistira, pensou, triunfante. Aproveitou a deixa e saiu também da água.
Era mais alto do que ela pudera observar antes. O fato neopreme preto apenas com as letras brancas permitiu-lhe um leve vislumbre do seu corpo. Tinha as costas um pouco largas, não em demasia, que acompanhavam as pernas esbeltas, típicas de quem pratica muito desporto. Tentou não olhar para o traseiro, mas não conseguiu evitar, apenas para satisfazer a curiosidade.

     - Então? Não me digas que estás a desistir – disse.
Quando ele se virou o quadro ficou completo. A água salgada escorria-lhe pelo rosto, o seu cabelo escuro curto, apenas com alguns centímetros, prolongava-se pela barba de três dias. Como ela apreciava rapazes com aquela barba rasteira, só lhes dava pinta.
Quando o olhou nos olhos e viu o sorriso dele, largo e brilhante, quase se desequilibrou. Aqueles olhos verdes cintilavam de tal maneira que ao início ela não conseguiu distinguir bem a sua cor.
     - Nada disso. Está na minha hora, tenho de ir trabalhar.- Esclareceu.
Sara não notou qualquer rancor na voz dele, porque na verdade não existia. Competiram os dois dentro de água como dois velhos amigos, sem discussão nem problemas. Ela acenou em jeito de compreensão, enterrando a prancha na areia ao lado da dele. A sua era colorida, em contrapartida a dele era branca com um desenho de um esqueleto surfista – cheio de estilo, por sinal - em vários tons de azul.
     - Mas tenciono resolver isto na próxima vez. Quero desforra. – Disse ele, abrindo o fecho do fato.
     - Estás a convidar-me para surfar contigo? – Questionou, despreocupada.
     - Hmm. Talvez. A menos que apareças por acaso, como hoje. – Respondeu, sem rodeios.
     - Fico à espera. – Disse ela, atando o cabelo alourado num rabo-de-cavalo.
Após uns instantes de silêncio, ele falou por fim:
     - És boa nisto…no surf.- Admitiu.
     - Comecei há poucos meses. Mas obrigado, também não és nada mau. Fizeste um tubo excelente, pensava que ias ter ao outro lado da praia.
Mais de perto, pôde observar o tronco dele. Não apresentava músculos em demasia apenas o suficiente para pôr qualquer rapariga a suspirar.
     - Tenho mesmo de ir. – Anunciou – Não me quero atrasar.
     - Não tem problema. Vou andar por cá uns dias, talvez ainda leves outra abada na dita desforra, se apareceres. – Respondeu, desafiando-o.
     - Podes crer que apareço. – Disse, pegando na prancha e na mochila. – A propósito…Salvador.
     - Sara. – Respondeu, dando a conhecer o seu nome.
     - Até breve. – Disse, sorrindo.

     Ele não notara os olhos dela, cravados nas suas costas enquanto se afastava pelo areal. Observou-o chegar à marginal e a desaparecer por uma ruela enquanto o seu coração permanecia num reboliço. Aquele era o tipo de rapaz que lhe dava cabo do sistema. Nunca se sentira atraída por quem quer que fosse que desconhecia, mas aquela peça… deixou-a a suspirar. Só o afastou dos seus pensamentos quando viu chegar um grupo de rapazes também surfistas, mas ao contrário de Salvador, aquela meia dúzia de rapazes não eram coisa boa, e ela sabia-o só de olhar para eles. Passaram por ela enquanto trocava o fato pela sua roupa confortável e mais quente.
     - Belas ondas. – Comentou um deles.
     - Bela praia. – Acrescentou outro.
     - Belas pernas. - Disse o mais alto.

     Sara ignorou – sabia Deus o quanto ela desprezava pessoas assim - quando o quarto rapaz tencionava acrescentar mais alguma coisa ela antecipou-se com um manguito na direção deles. Arrumou as suas coisas e caminhou pela areia sem perder a postura, deixando-os a olhar para as suas costas. Mas ela sabia que não era para as costas que eles iriam olhar.
Aquele tipo de rapaz trazia-lhe tantas memórias, memórias essas que ela tanto se esforçava para as manter bem enterradas dentro de si, no fundo, bem lá no fundo.
     Afastando as lágrimas que teimavam em rolar-lhe pelo rosto com a mão livre, sorriu ao lembrar-se de Salvador. Enquanto ele despertava o melhor de si, aqueles abutres só lhe traziam à tona o seu pior.

                                          

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4 comentários :

  1. Adorei, a sério! Adorei!! Ansiosa pelo próximo capítulo!
    r: Muito obrigada querida! :D

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  2. A Sara tem aí uma história bem vincada! Estou mesmo a adorar o desenrolar da história :)

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  3. Completamente viciada hehe quero mais *_*

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