Tudo o Que Sempre Quis || Cap.3 || Pt.1



«Só não deixes a maré te levar»


     - Nunca comi uma pizza tão boa. – Confessou Helena, satisfeita.
     - Eu bem disse que valeria a pena a batalha com as escadas. – Respondeu, sorrindo.
     - Fala-me do Martim – pediu ela, colocando a mão sobre o braço do irmão enquanto caminhavam pela marginal.
Salvador ergueu as sobrancelhas.
     - Vá lá maninho – Insistiu – Apenas fiquei curiosa, mais nada. Não os imaginava como amigos da forma inseparável como parecem.
     - Não somos inseparáveis. Ele vive na casa dele e eu na minha. E também dispenso a companhia dele para outras coisas… - respondeu, trocista.
     - Sim, sim. Blá blá blá. – Contrariada Helena sacudiu o braço do irmão.
     - Muito bem. O que queres saber?
    - Qualquer coisa que me possas contar.
Salvador olhou para os pés.
     - O que conheces-te dele hoje não foi nada. Quando o conheci estava um farrapo. Nunca pensei que entrasse na linha como entrou. Se eu não estivesse lá, não acreditava na pessoa que era e no que é agora. Vi o pior dele. Talvez da forma como ninguém viu, ou pelo menos ninguém que se importava com ele o suficiente para se fazer ouvir. – Começou, medindo as palavras.
Helena ficou intrigada.
     - Há certos aspetos que não te vou contar mana, cabe a ele dar a conhecer ou não isso aos outros. Nestes meses nunca quebrei a promessa que lhe fiz e não será agora que o farei. – Confessou – Espero que compreendas.- Pediu.
     - Há coisas que devem ficar no passado, não é? – Respondeu, quase em murmúrio.
Salvador parou. Afastou a mão da irmã do seu braço e, com as mãos nos bolsos do seu casaco de cabedal castanho, fixou o horizonte.
     - O Martim não é má pessoa – disse, olhando-a nos olhos repletos de curiosidade – Pelo menos não agora. Mudou bastante, andámos ao murro várias vezes até o conseguir pôr nos eixos e juro-te que nunca pensei conseguir chamá-lo à razão. Demorou tempo e ainda andamos a trabalhar nisso mas… é um gajo bestial. Como ele era antes, tenho a certeza que nunca nos tornaríamos amigos mas acho que foi isso que nos juntou. Se eu o achasse um caso realmente perdido não perdia tempo com ele mas não foi esse o caso. Olhei para ele e vi o Lucas, sabes? Queria que alguém tivesse feito por ele o que fiz pelo Martim. Tu ainda eras uma miudita e não te lembras, mas na altura fiz tudo, tudo mesmo para pôr o Lucas na ordem mas não consegui. Ele não aceitava que o chamassem à razão. O que ele fazia é que estava certo e não permitia que o contrariassem. O Martim deixou-me ajudá-lo. Não foi fácil, não mesmo, mas teve força de vontade para o fazer.
     - O Lucas não era um caso perdido. – Respondeu ela, magoada.
     -Não, não era. Era demasiado rebelde e teimoso e eu ainda novo demais para o obrigar a abrir os olhos. Se fosse hoje, não o teria deixado chegar ao ponto que chegou. Foi preciso ir parar ao hospital para acordar para a vida.
     - Salvaste-o na mesma. – Constatou com os olhos marejados de lágrimas.
Salvador abanou a cabeça.
     - Chamar uma ambulância para levar o meu irmão quase morto para o hospital não é ajuda suficiente. Devia ter feito mais. Devia ter voltado atrás para o ajudar. – Confessou, envergonhado – Fui fraco, entrei em pânico e não sabia o que fazer. – Admitiu. - O Martim… não sei. Talvez tenha sido a forma de redimir os erros que cometi.
Helena sentou-se no muro perto do areal e Salvador imitou-a, pegando-lhe na mão.
     - Eu não era o que sou hoje. O Lucas também não, nem mesmo tu, mana. A nossa vida mudou e obrigou-nos a mudar. A mim tornou-me mais forte, o bastante para proteger o que me pertence e os que me rodeiam. Ao Lucas trouxe-o de volta da escuridão…quanto a ti, posso dizer que te tornou mais forte também, contudo um tanto fria, distante e desconfiada.
Helena não respondeu.
    - Arrependo-me de não o ter ajudado mais, mais cedo. Mas não posso voltar atrás, só posso melhorar para que não volte a acontecer.
    - Eu sei e não te culpo mano mas nunca te achei fraco. Nunca! - Admitiu ela, soltando as lágrimas até então retidas.
   - Bom, voltando ao Martim, é bom rapaz acima de tudo. É trabalhador. Só ainda não entrou nos eixos com as miúdas mas isso já não está ao meu alcance, a não ser que isso te implique pelo meio, aí sim sou capaz de o pôr nos trilhos ao toque de murro e chapada. – Disse, sorrindo.
    - Só tu para me fazeres rir numa altura destas.
    - Também tive, em tempos, uma pessoa que me fazia rir quando era tudo menos o que eu queria.
    - Hmm? Quem? – Quis saber Helena já recomposta.
    - Chamava-se Sara. Conhecia-a há dois meses e foram os melhores tempos que tive desde que cheguei aqui. – Confessou, com um brilho nos olhos, recordando a surfista.
Helena ficou com todos os sentidos alerta. Afinal sempre houvera alguém na vida do irmão. Mas seria ela capaz de o fazer esquecer Mónica de vez?
    - Depois do sermão que te dei há bocado só agora é que me dizes uma coisa dessas?! – Disse ela, surpresa.
    - Não foi bem assim. Conhecia-a um dia que acordei bastante cedo, não conseguia dormir e vim para a praia surfar. Algum tempo depois vi-a chegar… bem, acabámos por nos divertir bastante dentro de água. Também é surfista. E das boas, devo dizer. Nunca vi uma miúda surfar daquela maneira.- Respondeu, enquanto observava o vaivém das ondas a uma certa distância.
            Helena permaneceu em silêncio, à espera que o irmão continuasse.
    - Custa-me admitir que me deu uma valente coça naquele dia – sorriu, relembrando o momento - mas desafiei-a para a desforra.
    - E então? Não me digas que perdes-te outra vez!?
    - Hmm…Posso dizer que ficámos empatados. – Declarou.
Ao ver que Salvador não lhe ia contar mais nada protestou.
    - E? Só me contas isso? Por amor de Deus Salvador não me dês um ataque de coração.
    - Não há muito mais a contar. É uma miúda espetacular, surfámos várias vezes, conversávamos… nada de mais. Não sei dela desde então. Nunca mais a vi pela praia, embora tenha voltado quase todos os dias bem cedo – ela adorava surfar logo pela manhã - Esclareceu. - Foi tudo tão rápido, eu também andava a trabalhar e basicamente só nos via-mos dentro de água.
E não, não tenho o número dela – apressou-se a dizer, adivinhando que seria a próxima coisa a sair da boca da irmã.
    Helena encostou a cabeça ao ombro do irmão, com a sua curiosidade satisfeita por agora.
    - Como foi?
    - O quê? – Questionou Salvador.
    - Estar com alguém que não fosse a Mónica. Pensar em alguém que não fosse ela. Como foi conhecer a Sara? – Quis saber, com um sorriso doce.
Salvador fez uma pausa. Fixou o horizonte por cima das ondas que tanto lhe recordavam os momentos passados com Sara. Quando por fim respondeu, não conseguiu esconder um sorriso tímido nem o brilho nos seus olhos verdes.
    - Foi a melhor coisa que me aconteceu por aqui. A Sara tornou-me uma pessoa melhor, embora ainda que por pouco tempo que estivemos juntos.
Sentira a falta dela desde então. Não tinha notícias suas desde o dia em que não aparecera na praia como de costume. Não voltou a ter notícias dela desde aquele dia. Gostaria de saber se ela estava bem, de voltar a vê-la, conversar com ela.

    Sara era o melhor de si. Com ela, Salvador estava livre dos fantasmas que o atormentavam constantemente. Sem se aperceber, quase conseguira esquecer Mónica de vez.


                                         ⚓

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4 comentários :

  1. Gostei imenso de ler. Li num ápice e fiquei com vontade de ler mais e mais...

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  2. Desta é que não estava à espera! Então deixou de saber da Sara? :o excelente reviravolta. Continua!

    r: Lamento :/

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