Tudo o Que Sempre Quis || Cap.3 || Pt.2

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Durante os dias que se seguiram, o tempo de Salvador fora dividido entre o emprego e a irmã que tanto adorava. Dezembro já ia a meio e em breve chegaria a época natalícia. Com a ausência do irmão durante o dia, Martim tornara-se mais presente na vida da rapariga, tornando-se até um bom amigo ainda que por vezes fosse apanhado a contemplá-la, o que a deixava furiosa e um pouco embaraçada. Ela deixara bem assente que só queria a sua amizade, embora isso não evitasse os olhares constrangidos que Martim lhe deitava.
Salvador, ainda que aceitasse a amizade entre eles, nunca deixara de estar atento, não fosse o diabo tecê-las e o tipo fazer-se à sua irmãzinha. Era bem capaz de fazer o que prometera; deixá-lo em alto mar no meio dos peixinhos. Está bem, talvez não fosse tão longe mas teria uma bela conversa, daquelas que fazem os ouvidos zumbir, com o seu bom amigo.
- Como foi hoje o teu dia mana? – Quis saber, curioso.
- O mesmo de sempre. Passei a manhã na ronha e à tarde andei a ver as lojas. – Respondeu.
Afastou os cobertores da cama do irmão e deitou-se ao lado dele como faziam em pequenos.
- O Martim foi contigo? – A pergunta queimava-lhe a garganta, não sendo capaz de a evitar.
Helena apoiou-se num cotovelo e encarou-o.
- O que te leva a dizer isso maninho? Hmm? Saímos às vezes, quando ele pode e eu estou com disposição para o aturar. – Brincou, recordando a bela peça que também adotara como amigo.
Salvador gostaria de saber mais, mas conteve-se. Se fosse interrogar Martim, apenas lhe arrancaria meias verdades mascaradas por ironia e brincadeira; da irmã pouco iria levar, restava-lhe confiar nos seus instintos. Helena sabia o que fazia, com certeza que sim. Tinha a cabeça no lugar e nem Martim poderia abalar o seu mundo. Assim ele julgara.
- Ah! Já me esquecia. Amanhã sempre estou de folga. Queres dar um salto à Praia do Norte ao tal evento que o Martim mencionou no outro dia? – Desafiou.
- Parece-me bem ter o meu maninho só para mim o dia todo. – Respondeu, fazendo beicinho.
- Vais ter de me dividir com o teu amigo Martim. – Informou, piscando-lhe o olho.
- Se tem mesmo de ser …. – Disse, como se isso a incomodasse.
            Helena gostava dele. Ainda que ela não se apercebesse, o irmão sabia-o. Ela começara a gostar de Martim mais do que um simples amigo.
- Vá, agora desaparece daqui que quero dormir. – Disse, expulsando-a da sua cama.
            Helena acedeu mas resmungou ao afastar os cobertores o suficiente para sair. Quando já estava à porta do quarto do irmão voltou atrás e destapou-o por completo quando ele já se voltava para o outro lado disposto a fechar os olhos.
- Então? – Gritou ele, surpreso.
- Isto maninho é a vingança por não me teres contado logo a cena da Sara naquele dia. – Informou, com um sorriso malicioso estampado nos lábios.
Rodou os calcanhares e dirigiu-se ao seu quarto enquanto Salvador voltava a puxar os cobertores até às orelhas. Sara – pensou – tudo se resumia a ela.
Uma vez mais o coração doeu-lhe de tamanha saudade. Como seria possível privar tão pouco tempo com alguém e sentir a sua falta daquela maneira? Ele sabia a resposta, bem no fundo do seu ser ele sabia. Apenas não queria aceitá-la. Não podia. Jamais poderia ter Sara na sua vida. Não podia. Ela estaria melhor assim, longe da vida dele. Estaria… segura. Seria realmente verdade? Ao fechar os olhos a imagem dela toldou-lhe a mente fazendo-lhe doer o peito de tal forma que quase se sentia a sufocar.
Adormeceu com Sara no seu pensamento.
Pela manhã foi desperto pelo telemóvel que tocava em cima da mesa-de-cabeceira lacada a branco que ele demorara a escolher. No visor vislumbrou o nome de Martim.
- Mas tu não dormes pá? São sete da manhã. Sete! – Grunhiu Salvador, esquecendo-se por instantes da irmã que dormia ainda no quarto adjacente ao seu.
- Mas quem é que consegue dormir quando há um evento de surf na praia ao lado? Hã? – Respondeu do outro lado.
- Só podia. Puto, a esta hora ainda as tuas amigas surfistas estão a dormir e fazem elas bem. Deixa-me dormir mais um bocado. – Resmungou, e desligou a chamada.
Martim ficara a ouvir o som da chamada a cair desejoso por pôr os pés naquele dito evento. Miúdas. Montes de miúdas dentro daqueles fatos que ele adorava. Eram perfeitos – pensava – sexy’s. Estava tão entusiasmado e ansioso que mal dormira naquela noite. Não era de todo o primeiro evento de surf a que assistia mas desde que incluísse miúdas ele estava lá batido nem que fosse de madrugada. Era das poucas coisas que o tiravam da cama antes das onze horas da manhã, sobretudo se trabalhasse na pizzaria durante grande parte da noite.

Contudo, não fora só o evento que lhe tirara o sono mas sim Helena. Aquela rapariga dava-lhe cabo do pouco juízo que ainda lhe restava. Gostava de olhar para ela ainda que discretamente. Sabia qual o seu lugar na vida dela e estava satisfeito pela amizade que começavam a construir, mas raios, ele tinha olhos na cara para alguma coisa.

No quarto ao lado, Helena acordara com a gritaria do irmão ao telemóvel. Era o Martim do outro lado da linha, presumiu. Só podia. A sua opinião sobre ele ser um mulherengo mantinha-se, embora isso por vezes a deixasse aborrecida sem ela saber bem ao certo porquê.
Quando Salvador estava ausente e  Martim saía com ela, por diversas vezes abandonara o mundo real e perdia-se no tempo a olhar - e a salivar – para as outras raparigas que passavam. Helena odiava isso nele. Pior, isso afetava-a de uma forma capaz de a deixar de mau humor o resto do dia. Como se importasse em não ser o centro das atenções dele.
Ainda iriam dar muito que falar, decerto.
Saltou da cama antes do irmão mas resolveu não o voltar a acordar, já lhe teria bastado a ave rara do amigo a buzinar-lhe os ouvidos às sete da manhã. O rapaz era madrugador por natureza mas após uns dias de trabalho sabia-lhe bem ficar no calor da sua cama mais um bocadinho, ainda mais, no dia da sua folga. Que raio pensava o Martim que era para lhe ligar àquela hora? O tipo não dormia mesmo. Estava rabugento, claro está. Com aquilo tudo já não conseguira voltar a adormecer o que o chateava ainda mais.
Contudo, por brevíssimos instantes voltou a cair no sono, apenas o suficiente para na sua cabeça aquela voz estranha voltar a ecoar. Desta vez dizia-lhe «Tens de lá estar. Tens de lá estar.» Repetia, até ele se resignar a sair da cama.

- Estar onde? – Murmurou de si para consigo, confuso.

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CONVERSATION

5 comentários :

  1. Se calhar ainda vai reencontrar a Sara no evento, daí esse «tens de lá estar». E isto já sou eu super envolvida na história a desejar ler mais :D
    A relação da Helena com o Salvador é tão gira, adoro!

    r: E o 3º tem um pormenor que não estava à espera, mas que me faz todo o sentido. Daí que ache que foi um crescendo de livro para livro :)

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  2. r: Não ia contar, não quero quero estragar a surpresa :D

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  3. Continua a publicar, estou a gostar bastante de ler!

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