Tudo o Que Sempre Quis || Cap.3 || Pt.3

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- Puto estou à tua espera à meia hora! – Resmungou Martim assim que avistou Salvador a caminhar na sua direção acompanhado por Helena.
- Puto, qual é a pressa? Isto ainda nem sequer começou. – Constatou, abrindo a mão na direção das bandeiras já hasteadas que anunciavam o evento.
- Uh uh! Parece que alguém acordou com os pés de fora. – Disse.
Salvador revirou os olhos, impaciente.
- Devo agradecer-te por o deixares assim?! – Disse Helena, referindo-se ao mau humor do irmão, ao chegar perto deles.
- Bom dia coisa linda! – Saudou Martim. – Parece que sim mas ele já anima quando isto começar. – Disse, piscou-lhe o olho e deu uma leve pancada no ombro do amigo que o fuzilou com os olhos.
- Vou arejar as ideias. – Disse, voltando-se para a irmã e ignorando Martim.
Ela acedeu. – Não demores senão fico eu de mau humor se o tiver de aturar o tempo todo a babar-se para as gajas.
- Ei! Até parece! – Resmungou Martim, fingindo-se ofendido.
Salvador já se afastara deles. Caminhava à beira-mar com as mãos nos bolsos do casaco. Raramente - muito raramente – ficava de mau humor mas acordar com o Martim a zumbir-lhe aos ouvidos era caso para o deixar assim rabugento.
Naquele dia Invernoso em que o mar estava mais violento que o costume, as ondas faziam ricochete nas rochas e espumavam agrestemente ensopando os mais distraídos, Sara continuava a invadir-lhe os pensamentos sem pedir permissão. Onde estaria ela? – Pensou – Se ao menos pudesse dizer-lhe o quanto sentia a sua falta… dava tudo para estar com ela nem que fosse cinco minutos. Deveria bastar para lhe dizer o que sentia naquele momento.
Já longe da barulheira que se começava a instalar no areal para dar início à prova de surf, Salvador sentou-se, cruzando as pernas. Sem dar conta disso, pegou num pequeno pedaço de madeira e começou a desenhar na areia. Sobressaltou-se quando o telemóvel tocou dentro do bolso e o nome da irmã apareceu. Estava em apuros com Martim, de certeza. Aqueles dois…. Era como o cão e o gato. Levantou-se e caminhou na direção deles antes que a irmã se atirasse ao mar para se livrar do amigo. Como ele sabia o que era aturar Martim perto de uma mão cheia de miúdas surfistas. Dava cabo do juízo de qualquer pessoa sã.
- Estava a ver que me tinhas deixado aqui com este caramelo. – Refilou Helena com as mãos na cintura.
Salvador riu-se, agora mais bem-disposto que anteriormente.
- Eu bem disse que ele arrebitava quando isto começasse. – Disse Martim, que surgiu por trás do amigo, dando-lhe um encontrão que quase o fazia desequilibrar-se.
- Estica-te para o meu lado e vais com eles para dentro de água - avisou Salvador trocista, apontando para o primeiro grupo de surfistas a postos.
            Os três contemplavam o cenário.
O céu estava nublado sem qualquer sinal de um raio de sol que quisesse penetrar as nuvens pesadas. Uma aragem gélida fazia-se sentir, levando Helena a aproximar-se mais do irmão na tentativa de aquecer.
Felizmente – pensava – o irmão não era maluco o suficiente para se aventurar em provas de surf em dias como aquele em que o mar estava feroz, quase como faminto para devorar quem mais o desafiasse. E claro, Martim… Também era bom que a estupidez dele não chegasse ao ponto de pegar na sua prancha garrida, coberta de desenhos quase abstratos, e entrar na água. Devia estar gelada e só de pensar nisso arrepiou-se ainda mais.
Gabava a coragem daquelas pessoas que se aventuravam naquelas ondas e sobretudo em águas tão frias. O ditado «quem corre por gosto, não cansa» aplicava-se a todos eles, decerto.
- Estás com frio? – Perguntou Salvador, colocando o braço por cima do ombro da irmã.
- Um bocadinho. – Admitiu.
Martim regressou dos seus pensamentos que o levavam para longe.
- Queres o meu casaco? – Ofereceu. – Estou a falar a sério. Tenho outro no carro, se quiseres este posso emprestar-te. – Disse, antecipando-se àquele olhar trocista de Helena.
Ela hesitou mas ele insistiu mesmo assim. Despiu o casaco e colocou-o sobre os ombros dela, inalando o seu perfume.
- Obrigado. – Agradeceu, sorrindo.
Ele retribuiu o sorriso e naquele instante algo se acendera entre ambos.
- Olha! Vai começar! – Gritou Martim esfregando as mãos uma na outra, fugindo do momento constrangedor.
Salvador suspirou. Em breve começaria a análise completa de cada miúda que passasse à frente do amigo.
Helena revirou os olhos. Quase mudara a sua opinião sobre Martim mas lembrou-se que ele jamais mudaria. Nunca deixaria de ser o mulherengo que era e, sem saber porquê, isso afetou-a uma vez mais.
- Olá giraço! – Ouviu-se atrás deles uma voz feminina. Logo que Martim se voltara, uma rapariga saltou para o seu pescoço deixando Helena boquiaberta.
- Quem é esta? – Perguntou ao irmão, em murmúrio.
- Quem sabe? – Respondeu. – Deve ser alguma amiga dele. – Dando ênfase à palavra amiga.
Ao notar que Martim a ignorava por completo durante longos minutos, amuou.
- Acho que vou para casa. – Declarou.
Salvador percebeu o tom de voz da irmã. – Era o que faltava. Agora que isto está a ficar interessante. – Disse, abraçando-a.
- A prova ou o teu querido amigo e a sua curte? – Quis saber, trocista. Demasiado trocista.
- Quase que diria que estás com ciúmes. – Olhou de relance para o amigo acompanhado pela rapariga que se prendera a ele como uma lapa. - Admira-me ele não a ter já enxotado. Gosta pouco de amostras de afeto em público. – Continuou.
- Deve ser sério. Não olhou para a água uma vez que fosse desde que ela chegou. Coisa que, no seu estado normal, ele não tiraria os olhos daquelas gajas dentro dos seus fatos justos. – Resmungou.
            Talvez o irmão estivesse certo quando disse que ela estava com ciúmes. Seria? Ela dizia que não, mas mostrava totalmente o oposto.
- Porque estás assim? Dizes que ele nem faz o teu tipo. Que é só um mulherengo chato até dizer chega. – Disse Salvador, juntando as peças do puzzle.
Ela encolheu os ombros e virou costas ao ver Martim abraçar novamente a rapariga.
- Talvez o meu plano fosse não me importar, mas parece que não é isso que tem acontecido. – Disse, e foi-se embora.
            Salvador não a impediu mas instantes depois correu atrás dela.
- Mana não vás. – Pediu, colocando-se à sua frente.
- Salvador… - foi tudo o que ela conseguiu dizer antes de se desfazer por completo em lágrimas.
            Apressou-se a limpar o rosto mas não foi rápida o suficiente para as esconder do irmão.
- Não posso nem quero ficar aqui a assistir àquilo – disse, apontando para Martim. Desviou-se do irmão.
- Tudo bem. Não precisas de ver – disse, mas mais tarde ela iria-lhe explicar o que acabara de acontecer, embora ele suspeitasse queria ouvir da boca da irmã – Vamos para outro lado. Vá, anda lá. Não me vais deixar aqui sozinho.       
Ela não respondeu, cruzando os braços sobre o peito.
- Anda lá! – Insistiu. – Tenho uma coisa que te vai animar. – Anunciou.
- O quê?
Ele retirou a sua máquina fotográfica, a menina dos seus olhos, dentro da bolsa.
- Queres ver o mundo de outra perspetiva? – Desafiou.
Ela sorriu.
- Vais deixar-me tocar-lhe? Com um dedo que seja? – Disse Helena, recordando-se do irmão lhe ter tirado a máquina das mãos dias antes.
- Em momentos destes recorre-se a medidas drásticas – respondeu, fingindo receio por parte da sua estimada máquina.
- Aceito com uma condição.
Salvador cerrou os olhos desconfiado com que ali vinha.
- Vais dar cabo dos ouvidos do Martim.
- Acho que posso fazer alguma coisa sobre isso. – Aceitou, colocando o braço por cima dos ombros da irmã.

Caminharam os dois pelo areal na direção oposta onde Martim permanecia com a sua amiga, sem sequer notar a ausência deles.
 O primeiro grupo acabara de sair da água, sãos e salvos após um duro duelo em águas agitadas.


 


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