Tudo o Que Sempre Quis || Cap.3 || Pt.4

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- Viste aquele tubo mano? Ei que espetáculo! – Helena gritava entusiasmada enquanto, realmente via o mundo de outra perspetiva.
Com o zoom ajustado conseguia ver tudo ao pormenor, cada manobra, como se estivesse na água a dois palmos dos surfistas.
- Eu disse que ia valer a pena, não disse? – Salvador permanecia ao lado da irmã acompanhando a prova à distância.
- Bolas, nunca vi uma coisa destas assim tão de perto. – Confessou, clicando no botão para captar todos os momentos possíveis. – Acho que agora percebo um bocadinho do teu fascínio pelo surf. – Disse, afastando o olho da lente, sorrindo para o irmão.
Com as mãos nos bolsos, Salvador observava a irmã mais descontraída e completamente doida pelo que estava a ver. Já a levara a várias provas, incluindo as que ele participara, mas o zoom daquela máquina permitia ver mais de perto o que antes ela não vira.
Enquanto ela se entretinha a fotografar tudo e mais alguma coisa que acontecia dentro de água, Salvador pensava em Martim e no que ele acabara de arranjar. Uma gaita de uma confusão com Helena que ela, certamente, não esqueceria tão cedo.
Por que raio o tipo tinha de ser estúpido que nem uma porta? Ele próprio notara que a irmã o via de forma diferente de quando os apresentou, embora isso não o satisfizesse em nada. Será que o gajo não tinha olhos na cara? Ou, será que fizera de propósito? Nunca o vira agarrado a miúda nenhuma daquela maneira, antes de elas terem hipótese disso já ele as tinha enxotado para longe. Aquele Martim… vai-se lá entender o que ia naquela cabeça de vento.
- Ouviste o que disse? – Resmungou Helena, trazendo o irmão de volta dos seus pensamentos.
- Hã?
- Este grupo também é de raparigas. – Repetiu.
- Alguma de jeito aqui para o teu maninho? – Perguntou, piscando-lhe o olho.
- Bolas, não me digas. Também tu? – Refilou ela, recordando Martim.
- Então, não me querias num arranjinho antes de ires embora? Ao menos que seja com uma que valha a pena. – Respondeu, despreocupado.
Após alguns instantes de silêncio entre eles, Helena fez-se anunciar.
- Bem, está ali uma que tem jeito para isto. Deixa as outras a uma grande distância sem dúvida. – Dizia, fotografando.
- Deixa-me ver, vá. – Pediu, impaciente.
- Agora esperas. – Resmungou, fazendo a objetiva deslizar mais um pouco para fora. – Bolas! Tem cá uma pinta.
Salvador arrancou a máquina das mãos da irmã.
- Deixa-me ver, bolas! – Resmungava como uma criança embirrenta – Qual é que estavas a dizer? – Quis saber, ajustando a objetiva.
- A do fato escuro com desenhos rosa. – Respondeu, sem dar grande importância.
- O quê? – O que a irmã acabara de dizer colocou todos os seus sentidos em alerta, o coração apertado como um nó e a respiração acelerada.
- A rapariga do fato escuro com desenhos cor-de-rosa choque. Estás surdo? – Repetiu.
Salvador ajustou a objetiva várias vezes. Queria ter a completa certeza do que estava a pensar. O seu peito estava pesado, o coração batia tão depressa que se não fosse o som das ondas a abafarem-no decerto que Helena o ouviria. O grupo de surfistas femininas estavam longe, muito longe, à espera de uma onda ou evitando-as. Entre uma onda e outra vislumbrou finalmente o fato preto com desenhos cor-de-rosa aqui e ali. A prancha ainda que coberta pela água era colorida – constatou quando ela se elevou na crista de uma onda. Quase sentiu o seu corpo desfalecer. As mãos tremiam-lhe tanto que Helena viu-se obrigada a resgatar a máquina antes que caísse na areia. Salvador não disse uma única palavra. Os seus olhos estavam vidrados.
Estava pálido.
- Estás a sentir-te bem mano? – Perguntou Helena aflita. – Bolas pá! Diz alguma coisa! – Explodiu.
- Sara. – Foi tudo o que ele disse.
Com o peito a oscilar violentamente e ainda a tremer Salvador olhou para a irmã. – Sara. – Repetiu, com a respiração pesada.
            Demorou apenas alguns instantes para ela se recordar onde já tinha escutado aquele nome. Voltou a espreitar pela lente.
- Tens a certeza? – Questionou – Pode ser outra pessoa. Deve haver mais fatos iguais, não?
- É ela. Tem de ser ela! – Exclamou, confiante de si mesmo – Eu reconheceria a forma de ela surfar até no outro lado do mundo. – Admitiu, com um sorriso tão grande que lhe ia de orelha a orelha.
- Então e estás aqui a fazer o quê? Vai ter com ela quando sair da água.
Salvador respirou fundo, preparando-se para caminhar na direção dela a passos largos.
- Espera! – Gritou Helena, voltando a espreitar pela lente não fosse estar a ver mal – Salvador, espera!
Ele virou-se para trás e ela correu na sua direção.
- Salvador, ela está em sarilhos. – Anunciou, estendendo-lhe a máquina para que ele pudesse ver com os seus próprios olhos.
            Começou a descalçar os ténis.
- Estás a ver aquela barraca ali? Vai lá e diz-lhes que está uma miúda em sarilhos na água. Ela não vai conseguir sair sozinha, está a enrolar-se toda nas ondas.
- Onde é que vais? Eles não conseguem vê-la? Porque não fazem nada? – Bombardeou Helena.
- De onde eles estão só a virão se ela vier mais acima. A espuma está a escondê-la. Vai!- gritou Salvador.
Helena ficou com o coração nas mãos ao ver o irmão correr areia fora tirando o casaco pelo caminho, deixando-o caído no areal húmido.
Ele era ágil, forte. Iria ficar bem. Certo? Iriam os dois ficar bem. Iria ficar tudo bem – pensava Helena enquanto corria a pedir socorro.
Sara estava ali. Estava em perigo. Ele tinha de estar ali. Era onde tinha de estar. Fora avisado naquela manhã e agora percebera, todas as peças se encaixavam. Enquanto nadava e lutava contra as ondas enormes, o seu pensamento era apenas um, salvar Sara custasse o que custasse. Esperava que a irmã conseguisse pedir ajuda antes que fosse tarde demais. Mergulhou várias vezes na tentativa de a encontrar debaixo de água.
- Sara! Sara! – Chamava, aflito. – Sara! – Os seus gritos eram mudos, com o barulho das ondas que o arrastavam.
Entre uma onda e outra vislumbrou a prancha colorida a ser manuseada como um boneco de trapos. Reconheceria as manobras de Sara do outro lado do mundo assim como a sua prancha. Encheu o peito de ar e nadou até lhe doer todos os músculos do corpo.
Procurava-a debaixo de água, procurava-a entre as ondas com a esperança que ver um braço no ar, o que fosse. Apenas um pequeno sinal. Era tudo o que ele precisava.
Continuou a nadar, a lutar contra a corrente. Gritou o nome dela inúmeras vezes até lhe doer a garganta. O seu corpo começara a gelar mas ele não se importou. Voltou a ver a prancha mas desta vez partida ao meio. Pediu a Deus que Sara fosse esperta para tirar a braçadeira do tornozelo, caso contrário seria empurrada de encontro às rochas. Os socorristas já estavam no mar na mota de água também à procura dela, dirigindo-se até à prancha.
Ao longe Salvador pôde vislumbrar o que restava dela.
Sara soltara-se. Aquela era a sua miúda.
- Sara! – Voltou a gritar, em plenos pulmões.
A uma curta distância viu um braço erguer-se fora de água. Ao aperceber-se voltou a nadar como se a sua vida dependesse disso. A sua não, mas a de Sara dependia. Ignorou as cãibras e nadou o mais rápido que podia, lutando contra si próprio. Encheu o peito de ar e mergulhou.
Após alguns minutos que parecerem-lhe horas, trouxe-a ao de cima. Segurou-a da forma que aprendera no curso de nadadores salvadores e procurou os socorristas, fazendo-lhes sinal.
Ele próprio estava de rastos, quase sem forças.
- Sara! Sara! Estás a ouvir-me? – Gritava ele, aflito, sem resposta – Por favor, não me deixes – pediu, com as lágrimas a fundirem-se com a água salgada que lhe corria pelo rosto.
Após tantos meses ele encontrara-a. Ou melhor, ela encontrara-o, de uma forma ou de outra. Não queria perdê-la agora. Não a iria perder. Não podia.

Nos seus braços, Sara encontrava-se inconsciente e com a respiração tão fraca que ele mal a sentia.

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3 comentários :

  1. Intenso! Mal posso esperar para ler mais :o

    r: Sim, infelizmente, é verdade :/ agora está tudo bem, mas agradeço a força.

    Têm que lá ficar fechados*

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