Tudo o Que Sempre Quis || Cap.4 || Pt.1



«Viva o hoje, pois o ontem já se foi,
E o amanhã talvez não venha.»

Surfar pela manhã sempre me deixara mais descontraída, até mais… feliz, mas surfar ao lado de Salvador era algo diferente que nunca sentira antes.

Ele fazia-me sorrir de uma forma que já não me lembrava de sorrir, mas também era bom ouvinte. Embora nunca lhe revelasse certos aspetos da minha vida, quando eu falava, sentia que me dedicava toda a sua atenção, tal como eu bebia cada palavra que saía da sua boca. Não era só um rapaz bem-parecido, era alguém bom de se conversar durante horas a fio sem nunca se cansar, alguém que me fez sentir bem perto dele.
Por obra do acaso, encontrara-o naquela manhã de Sábado em que acordara bastante cedo devido às insónias. A partir daquele dia, àquela hora, lá estávamos nós na praia para surfarmos juntos. Nunca combinámos «amanhã à mesma hora», era como se estivéssemos destinados a encontrar-nos ali, naquele instante.
- Afinal, em que trabalhas? – Quis saber, curiosa.
- Longa história mas resumindo, ando a trabalhar em dois
Aproveitamentos de sótãos. Serão transformados em dois apartamentos mais pequenos. – Respondeu.
- Nunca diria que tinhas dedo para empreiteiro.
- Sinceramente, nem eu. Confesso que até me tenho saído bem. Dá trabalho para caraças e no final do dia mal sinto as mãos mas valerá a pena. – Ele estava seguro de si mesmo.
            Perdi-me nos seus olhos verdes ainda húmidos da água salgada.
- Vais estar por cá quanto tempo? – Perguntou ele.
- Mais alguns dias. Não sei dizer ao certo. Acho que vai depender de muita coisa. – Respondi.
Gostaria de lhe revelar tudo. De partilhar com ele o que me tirava o sono durante à noite e me atormentava durante o dia.
- És de cá? Ou estás aqui há pouco tempo?- Acabei por perguntar, apenas para quebrar o silêncio, apesar de querer conhecê-lo um pouco melhor.
- Vim para cá a alguns meses.– Respondeu, brincando com a areia. – Longa história. – Concluiu.
            Os seus olhos escureceram.
- Gosto de histórias e tenho tempo. – Respondi, com um sorriso.
- Prometo que um dia te conto. – Os seus lábios formaram um sorriso forçado.
Esse dia ainda não chegara, tal como o dia de eu lhe revelar alguns segredos que me perseguiam. Na última vez que surfámos juntos eu não sabia que não o voltaria a ver nos meses que se seguiam. Estava longe de imaginar que os meus receios me iriam encontrar naquela pequena aldeia perdida à beira-mar. Nem sequer me pude despedir, o que me custou ainda mais. Salvador era mais do que eu imaginara. Na altura não percebera mas com o passar do tempo as saudades apertaram. Ele significava algo para mim, algo que nunca tivera até então.
Na manhã seguinte ao fazer a mala apressadamente, soube que seria melhor assim. Ele estaria seguro ali, sem saber de nada. Quem não sabe, não sente. Naquele instante acreditei que seria o melhor a fazer. Partir e levar comigo tudo o que me perseguia onde eu fosse. Não o podia magoar. Jamais o faria. Fechei a porta do quarto onde ficara instalada naquela curta semana, entregando a chave na receção.
Sem olhar para trás, despedi-me silenciosamente daqueles pequenos momentos que partilhámos os dois.
- Onde pensas que vais? – Uma voz rouca atrás de mim sobressaltou-me.
Fiquei petrificada. Era tarde demais. Ele encontrara-me.
Olhei em redor na esperança de encontrar uma saída o mais rápido possível.
- Deixa-me em paz!- Pedi.
A sua mão forte apertou-me o braço com tanta força que senti os seus dedos a apertaram-me os ossos.
- Oh minha linda, isso é uma coisa que não está nos meus planos. – Rosnava ele, emanando o cheiro a álcool no hálito. – Nem tentes gritar. Parece-me que neste fim de mundo ninguém te iria ouvir mesmo.
Arrastava-me até ao seu carro quando, num momento de adrenalina, voltei-me dando-lhe uma valente joelhada onde lhe doía mais. Dobrou-se com as dores e eu aproveitei para correr o mais rápido que podia, o mais longe que podia. Entrei no autocarro que estava de partida sem sequer olhar para onde ia. Os meus joelhos latejavam, o meu coração mal me cabia dentro do peito quando me sentei num dos bancos do fundo do autocarro. Respirei fundo. Daquela vez não iria colocar aquelas mãos nojentas em cima de mim. Ganhara mais tempo, talvez pouco, mas escapara.
Com as lágrimas a correrem em força pelo meu rosto, afastava-me cada vez mais da praia. Afastava-me cada vez mais de Salvador.
No meu peito trazia uma pequena lembrança que ele me dera quando lhe confessei estar um pouco perdida na minha vida. A pequena prancha prateada com um S gravado no centro, pendia num fio.
- Irá ajudar-te a encontrar o teu caminho. – Dissera ele - Ajudou-me a mim.

Aquele amuleto era tudo o que eu tinha. Tudo o que me restava dele.

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