Tudo o Que Sempre Quis || Cap.4 || Pt.2

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Estava escuro mas não senti qualquer receio. Ao longe avistei uma espécie de luz branca que me fez arder os olhos.
- Sara! Sara! – Ouvi chamar ao longe, como uma voz no fundo de um túnel.
A luz branca começava a desvanecer-se à medida que eu era puxada na direção oposta.
- Ela está a começar a respirar. - Mal abri os olhos, julguei estar a sonhar. Vi-o à minha frente com a roupa completamente ensopada e a água a escorrer-lhe pelo rosto.
- Salvador – Murmurei, ainda confusa.
- Shhhh, está tudo bem. Já passou. – Dizia ele, deslizando os dedos frios pelo meu queixo.
            Senti-me zonza e sem forças. Custava-me a falar e não era capaz de manter os olhos abertos. Sentia-me exausta.
- Não te mexas – ouvi alguém dizer quando me tentei levantar – a ambulância já está a chegar.
Tê-lo ali tão perto mais parecia um sonho, uma alucinação, o que fosse. Por instantes pensei estar no que chamam de paraíso mas quando me segurou as mãos e as levou aos seus lábios, soube que era real. Por incrível que parecesse, era tudo real… tão verdadeiro. Senti vontade de chorar e tê-lo-ia feito se me restasse forças para isso.
As vozes começaram a ser mais claras e pude ouvir alguém afastar a multidão que nos rodeava, pedindo por espaço para a ambulância.
Mesmo com as pálpebras a fraquejar reconheci um rosto por entre a multidão. Martim – recordei – um dos amigos de Salvador que conheci apressadamente meses antes. Entre ele e Salvador estava uma rapariga assustada que não conhecia. Era de estatura média, dando pela altura do peito de Salvador. Os seus cabelos alourados esvoaçavam violentamente ao ritmo do vento enquanto Salvador, enrolado num cobertor dos bombeiros, punha um braço em cima dos seus ombros.
Era de notar que existia uma relação entre eles, o que me entristeceu ainda mais ao imaginar se estariam apaixonados. De facto, existia amor.
- Eu acompanho-a. – Ouvi, enquanto era levada para dentro da ambulância.
Quando voltei a abrir os olhos, ainda a custo, lá estava ele.
- Está tudo bem. Vais ficar bem. – Declarou, colocando a mão sobre os meus cabelos.
Ainda confusa com tudo o que acontecera e a ponderar o que aquela rapariga significaria para ele, deixei-me embalar pela sua voz suave e confiante. Confiava nele. E tudo o que mais queria era poder-lhe contar tudo. Revelar-lhe porque me fora embora. Dizer-lhe as saudades que tinha dele e a falta que me fizera. Queria abraçá-lo. Que me segurasse nos seus braços fortes e me prometesse que tudo ficaria bem.
Se ao menos ele soubesse o que significava para mim.


- Ei! – Senti a ponta dos seus dedos deslizarem pelo meu rosto até à curva do pescoço. – Estás no hospital. Deves ter adormecido mas já cuidaram de ti. – Informou, sentando-se ao meu lado na cama.
Estava ainda confusa, a tentar assimilar tudo.
- Enrolaste-te numa onda durante a prova, lembras-te? – A sua voz era melodiosa, sabia tão bem ouvi-lo no silêncio assustador do quarto.
Acenei com a cabeça enquanto vagas imagens surgiam na minha mente.
- És louca, sabias? – Sorriu – Eu não me atrevia a surfar naquela água.
- Fracote. – Respondi, tentando sorrir.
- O que te passou pela cabeça Sara? – A voz dele era agora mais grave.
- Achei que estava preparada. E estava. Só perdi o foco. – A minha mão deslizou até à dele. Estava mais quente.
- Aquilo foi quase suicídio, miúda. Podes surfar bem para caraças mas não estavas preparada para enfrentar aquelas ondas. Tiveste sorte não te afogar.
Abanei a cabeça e desviei o olhar para longe do dele. Talvez isso resolvesse todos os meus problemas.
- Não estava nos planos, mas… talvez tivesse sido melhor que me deixassem lá ficar. – A esta altura o meu lábio tremia, mordi-o, tentando reprimir as lágrimas.
Não queria que me visse chorar. Não, não iria descambar à sua frente. Salvador deixou cair o queixo, em estado de choque pelo que acabara de ouvir.
- O quê? Não devo ter ouvido bem. – Dizia, confuso. – Tens noção do que acabaste de dizer? Ou melhor, vieste para a prova para morrer? É isso? – Os seus olhos eram agora escuros e duros. Faiscavam e na sua voz pude distinguir um laivo de desilusão.
- Não! Inscrevi-me na prova por muitas razões e suicidar-me não era de todo uma delas. Foi um acidente. Não me olhes assim. – Pedi, não controlando mais as lágrimas retidas.
Um longo silêncio instalou-se no quarto. Salvador permanecia de pé de costas para mim a olhar para lá da janela. Lá fora a chuva caía sem dó e o vento uivava. Senti-me encolher na cama. Fora um erro. Não o devia ter dito, está certo.
- Salvador... – Murmurei.
Rodou os calcanhares e em passos largos dirigiu-se à porta. Pensei que fosse embora, a odiar-me. Mais lágrimas caíram, desta vez não as evitei. Num gesto brusco voltou para trás, ergueu o meu rosto e esmagou os seus lábios de encontro aos meus. A sua boca era quente e macia.
Ainda atordoada com aquela reviravolta, e apanhada completamente de surpresa não consegui dizer uma única palavra quando se afastou escassos centímetros, encostando a testa na minha.
O nariz dele roçou no meu. Emoldurei o seu rosto com as minhas mãos trémulas. Visto de perto, os seus olhos eram ainda mais lindos, ainda que sombrios naquele instante. Pude distinguir todos os seus traços e sentir o seu perfume, misturado com o odor da água salgada.
- A última coisa que quero é perder-te. Ouviste? Não voltes sequer a pensar quanto mais a dizer uma coisa daquelas. – Murmurou, de olhos fechados.
- Desculpa… Não tinha intenção de… - Novamente as lágrimas rolavam desta vez com demasiada força, o que me fez soluçar. – Não imaginas a falta que me fizeste este tempo todo. – Confessei, não pensando em mais nada.
- Achas que não imagino? – Perguntou, com um leve sorriso – Foste embora sem mais nem menos. Deste comigo em doido estes meses todos sem saber se estavas bem, se tinha acontecido alguma coisa. Mal via uma miúda a surfar ficava logo doido. – Admitiu, sentindo-se envergonhado. – Mas não eras tu. Nunca eras tu.
            Voltou a sentar-se na beira da cama, segurando as minhas mãos nas suas.
- A minha irmã salvou-te. – Disse, de rompante.
- Hmm? A tua irmã? – Estava confusa. Demasiado confusa.
- Sim. Ela estava a fotografar a prova e na brincadeira eu pedi-lhe para ver se havia alguma surfista jeitosa, já que andava danadinha para me enfiar num arranjinho qualquer… bom, ao fim de um bocado disse-me que uma das surfistas tinha pinta dentro de água. Curioso, tentei roubar-lhe a máquina das mãos, quando consegui, ela descreveu-me o teu fato… imagina a minha reação. – Disse, com um sorriso verdadeiro e um brilho nos olhos.
Não respondi, limitei-me a sorrir, deixando-o continuar.
- Devo ter estado à beira de um ataque cardíaco, se tivesse um espelho podia confirmar que estava mais branco que sei lá o quê. A minha irmã pôs-se a gritar comigo, a perguntar se me estava a sentir bem e tudo o que eu dizia era «É ela.» Reconheci-te não só pelo fato mas também pelas manobras. Seria capaz de te reconhecer no outro lado do mundo. – Confessou, corando.
- Não exageres. – Respondi, envergonhada.
- Comecei a correr para ir ter contigo quando ela grita que estás em sarilhos. – A sua voz tornou-se áspera. - Eu não pensei, Sara. Descalcei-me, comecei a correr feito doido para água, deixei o casaco não sei onde e atirei-me de cabeça à primeira onda que apanhei. – Encolheu os ombros e apertou-me novamente as mãos entre as suas – Tudo o que eu pensava era que estavas ali e estavas em apuros. Não pensei sequer que também podia afogar-me. Só pensava em te encontrar, mais nada. – Os seus olhos enchiam-se de lágrimas que ele lutava para não soltar.
- Salvador… - interrompeu-me com um aceno de cabeça. Deixei-o continuar.
- Quando vi a tua prancha comecei a nadar até lá. Entretanto a minha irmã avisou os socorristas e também foram à tua procura. Não percebes Sara, se a minha irmã não tivesse a máquina nas mãos e não te tivesse visto, onde estavas, ninguém era capaz de te ver dentro de água. Entrei em pânico quando vi a prancha a ser levada direitinho às rochas, só pedia a Deus que te tivesses soltado, senão serias esmagada, literalmente. O alívio que senti quando vi que te tinhas conseguido tirar a braçadeira do tornozelo… deu-me novamente forças para continuar a nadar. Foi quando vi o teu braço surgir por cima da espuma. Mergulhei e voltei a mergulhar até te encontrar. – Fez uma pausa – Não estavas a respirar.
Durante meses só pedia cinco minutos contigo, voltar a ver-te. E naquele momento… Senti-me perdido. Nunca senti tanto medo na minha vida, pensar que podias não sobreviver. Pensando bem só houve um momento em que me senti assim. Mas, enfim. Os socorristas ajudaram-me a levar-te para a areia e confesso que quase andei à pancada com um deles que não me deixava fazer-te as compressões. – Sorriu, recordando-se – O Martim apareceu e deve-lhe ter dito que eu sabia o que estava a fazer porque nunca mais me tentaram arrastar dali para fora. Quando te senti respirar foi como se tirassem o mundo de cima das minhas costas. - És importante para mim, Sara. Eu não tinha percebido isso ainda, ou pelo menos acho que não sabia como perceber. Não te sei explicar, só te posso dizer que nem por sombras eu te posso perder. Nem quero. Significas demasiado. – Concluiu, com um sorriso inundado por lágrimas sinceras. Não eram lágrimas de tristeza mas de alívio.
Abracei-o com força. Queria dizer-lhe que jamais o abandonaria mas estaria a enganá-lo. Não lhe iria fazer promessas que não pudesse cumprir.
- Acho que, futuramente, poderei apaixonar-me por ti. – Declarei com um sorriso trocista.
Voltou a beijar os meus lábios mas desta vez suave e demoradamente.

- Estou a fazer conta com isso. – Respondeu, mordiscando-me o queixo. 

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5 comentários :

  1. Acabou tudo bem, pelo menos para já :) adorei!

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  2. Estava-me a referir a este momento, ao facto de a Sara se ter salvo e de se ter entendido com o Salvador, daí ter dito que acabou tudo bem, e não à história no seu todo!

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  3. r: Os palavrões dizem-se em todo o lado... eu estava era a falar da forma como o sotaque de cada região influência! xb

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  4. Que bom que a fotografa estava por perto... E o amor é a base que sustenta vidas... Lindo conto... Uma maravilhosa semana

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