Tudo o Que Sempre Quis || Cap.10 || Pt.1


«Nunca serás bom o suficiente para todos,
Mas serás sempre perfeito
Para aquela pessoa que te merece.»

Helena caminhava desvairada em direção às piscinas onde Salvador estava de serviço naquela tarde como nadador salvador.
Onde seria que o irmão tinha a cabeça? Mónica? Sara? Entre elas as duas onde estava a dúvida qual seria a melhor para ele? Ele ia ouvir das boas, ai se ia.
Caminhava a toda a velocidade como se fugisse de sabe-se lá do quê. Quando lhe pusesse as mãos em cima nem sabia o que lhe faria.
- Ei! – Saudou Martim, saído do seu treino de natação.
- Agora não, Martim. – Resmungou, sem sequer olhar para ele.
- Ui! O que virá aí. – Murmurou.

Não esperou para saber e foi atrás dela. Estava curioso, embora palpitasse que Salvador estaria metido num sarilho, e que grande sarilho. Passara uma semana desde que se declara a Helena e nesse espaço de tempo não houve sinais do mau feitio da namorada. Mau feitio não, personalidade, como ela lhe dizia.
Salvador encontrava-se sentado numa cadeira de plástico branca de onde vigiava a piscina, ao notar Helena vir na sua direção completamente vestida, com as bainhas das calças dobradas e de chinelos a uma velocidade louca, por instinto levantou-se e começou a afastar-se. Manter uma distância segura seria o melhor.
- Olá mana. Por aqui? – Tentou soar natural, enquanto dava meia dúzia de passos para trás.
- Estúpido! – Gritou-lhe, ferrando-lhe os punhos no peito. – Onde é que tinhas a cabeça?
- Mas o que foi? Para de me bater se faz favor.
Para sua sorte a aula ainda não tinha começado, pelo que dentro da piscina só duas pessoas assistiam à cena, boquiabertos.
- Aquele já era. – Comentaram entre si.
Fora de água, Helena investia toda a sua força no peito do irmão.
- Meu grande otário!
Martim apareceu na hora H mas nem isso a acalmou. Na verdade, depois da conversa com Sara, o que a acalmaria?
- Amor, para com isso. Ainda se magoam os dois. – Martim tentou dar-lhe a volta docemente mas qual quê.
- Sai daqui que isto não é contigo. – Helena espetou o dedo indicador na sua direção em jeito de aviso.
Salvador cada vez percebia menos o que se estava a passar e mostrar-se de desentendido só irritou ainda mais a irmã.
- Salvador Miguel és tão estúpido ao ponto de te esqueceres do que fizeste à Sara?
Não teve tempo de responder, pois foi empurrado para dentro da piscina. Soube bem a Helena. Atirar o irmão à água soube-lhe muito bem mesmo.
- Que te deu? – Gritou ele dentro de água, a perder a paciência.
- Helena, para com isso! – Martim tentava acalmar os ânimos mas acabou também dentro de água.
- Ver se refrescas as ideias Salvador. E tu – apontou o dedo a Martim – aprende a não te meteres no meu caminho quando o assunto não é contigo.
Com isto virou as costas aos dois rapazes dentro de água.
Salvador não precisou de muito tempo para perceber tudo o que acabara de acontecer. Precipitou-se a sair da piscina e a correr atrás da irmã para esclarecer tudo.
Sempre avisara os miúdos para não correrem em volta da piscina e agora era ele quem quebrava todas as regras e por pouco não voltava a cair à água após escorregar.
- Mana, ouve-me! – Quase lhe implorou.
Helena encarou-o. Era divertido ver o irmão todo ensopado, era quase ridículo, admitiu para si própria mas ele estava a precisar. Aproximou-se dele o suficiente para ele a temer novamente.
- A Mónica, Salvador? Enrolaste-te com a Mónica? - Baixou o tom de voz, o que o intimidou ainda mais.
- Não foi nada disso! – Declarou, convicto. – Mas como é que tu sabes dessa história? Foste tu? – Interrogou Martim que entretanto chegara perto deles. – Contaste-lhe o que se passou na garagem com a Mónica?
- O quê? Eu não contei nada a ninguém, estás parvo? – Martim quase que se sentia ofendido pela desconfiança do melhor amigo.
- Ah! Tu sabias disto tudo e nunca me disseste nada? – Os olhos de Helena voltaram a deitar faíscas por todo o lado.
- Se ele não te contou como é que sabes?- Salvador começava a não perceber nada daquela história, se só Martim sabia o ocorrido.

Helena respirou fundo várias vezes antes de lhe responder. Valeria a pena chatear-se com Martim por uma coisa que nem dizia respeito a ambos? Seria um assunto a ser pensado e discutido depois.
- Foi a Sara. – Murmurou, encarando o irmão – Ela viu a Mónica a sair da garagem a compor as roupas. Não é preciso ser muito esperto para juntar dois mais dois.
- Mas… A Sara está cá?
Martim ia abrir a boca mas acabou por se conter ao ver o olhar furtivo que Helena lhe lançara.
- Sim. Ou estava. Não sei. Pelo menos há pouco estava. – Decidiu explicar tudo ao ver a expressão confusa estampada no rosto do irmão. – Encontrei-a por acaso e acabámos a conversar. Foi quando ela me disse que regressou no dia que apanhou a outra a sair da tua garagem. Imagina com que cara fiquei ao ouvir isto. Só me apetecia bater-te! – Exclamou, levantando a mão, ameaçadoramente.
Salvador levou as mãos ao rosto – Estraguei tudo.
- Estragas-te mesmo. E para quê? Por um bom bocado? Valeu a pena? – Helena continuava implacável. Podia não conhecer Sara muito bem, nem tão pouco saber o porquê das idas e vindas dela na vida do irmão mas sabia que aqueles dois se amavam. Até um cego poderia ver isso.
- Não estragas-te nada puto! – Gritou Martim, não se contendo mais a ficar calado. – Não fizeram nada Helena. Ela quis e tentou mas o teu irmão mandou-a dar uma curva.
Agora era ela quem estava confusa e sem saber o que pensar, quanto mais dizer.
- É verdade mana. O que aconteceu foi que beijámo-nos. Ela queria mais mas eu mandei-a embora antes que me entalasse ainda mais. Não te vou mentir e dizer que não me senti atraído por ela por instantes, porque senti. Mas… Lembrei-me da Sara.
Dito isto, afastou-se lentamente para os balneários, cabisbaixo.
Sara andava por ali, como ainda não dera de caras com ela? Não sabia ele que por diversas vezes quase estiveram lado a lado sem que nenhum deles soubesse. Como iria sair daquela embrulhada? Uma coisa era o que ele dizia, outra era Sara acreditar nisso. Afinal, ela vira o que vira, ainda que o significado por detrás disso fosse outro. Ela vira Mónica sair da sua garagem a compor as roupas. Ele vira Mónica sair da sua garagem a insultá-lo e a desejar-lhe tudo de mal do mundo.
- O que ainda estás aqui a fazer? – Martim entrou no balneário. – Não devias estar a procurar Sara por tudo o que é canto? Vá pá sai daqui. Eu cubro-te neste turno. – Ao notar o silêncio do amigo, insistiu – Ama-la? A Sara. Ama-la?
- É preciso perguntares?
- Então estás à espera do quê? Se não lhe explicares como tudo aconteceu vais ficar o resto da vida à espera que ela venha ter contigo. Fizeste asneira, ou pelo menos ela assim pensa, por isso vai tu atrás dela. Vai com tudo!
Ainda assim, pareceu não o convencer.
- Olha eu e a tua irmã. Alguma vez achas que ela pensou que teríamos futuro? Ou tu achavas? Nem eu pensava que sim mas vê no que deu. Amo a tua irmã mais do que tudo na minha vida. Sai daqui, vá!
Salvador depressa trocou de roupa. – Obrigado puto.
- Ei! Tens umas peças a mais que eu possa vestir? – Gritou-lhe, quando ele já estava de saída.
- No meu armário! – Respondeu Salvador, batendo com a porta.

Do outro lado, Helena escutava a conversa e não podia deixar de corar ao ouvir o que Martim dissera. Amava-a. Já lhe dissera inúmeras vezes mas nunca o tinha escutado a admitir a outra pessoa.

Amava-o pelo que ele era, e pelo que a fazia ser quando estava com ele. Martim conhecia-a bem demais para se zangar com ele por ter segredos com o irmão. Eram dois rapazes, e isso bastava. Aqueles dois andavam sempre de mãos dadas com os sarilhos.

                                       ⚓

Share This Article:

CONVERSATION

4 comentários :