Tudo o Que Sempre Quis || Cap.10 || Pt.2

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Era incrível, Helena encontrara Sara sem querer, mas ele não a encontrava em parte alguma daquela terra minúscula. Onde mais poderia ela estar? Percorreu a praia de um lado ao outro mais de uma vez e nada. Subiu e desceu todas as ruas mas sem sinal dela. Ainda pegou na mota e conduziu até à praia do Norte, não fosse ela andar por lá a cavalgar as ondas enormes feita maluca como já tinha acontecido. Nada! Sara não estava em parte nenhuma e ele começara a desesperar. Talvez ela tivesse voltado a partir.
Pegou no telemóvel e marcou o número dela que já sabia de cor. Estava desligado, como era de esperar. Iria encontrá-la, podia não ser naquele dia nem naquela semana mas iria encontrá-la, não descansaria até falar com ela nem que tivesse de percorrer meio mundo para a encontrar.
O dia chegou ao fim, a lua apareceu alta no céu e voltou a desaparecer na manhã seguinte, sem Salvador pregar olho um minuto que fosse. Começava a sentir raiva de si mesmo, precisava de explodir e não era no surf. Nem as ondas o acalmariam como outrora. Quem queria ele enganar? Adorava surfar mas com Sara. Adorava as competições que faziam entre si. Sem ela nada daquilo tinha significado.
Pela mão do destino – talvez – vestiu uma roupa confortável e a passo de corrida dirigiu-se para o ginásio da escola secundária que estava aberto ao público durante o fim-de-semana.
Salvador sabia do que precisava mas não contava com o que lá encontrou. Vários grupos de jovens e até alguns adultos estavam dispersos ao longo do ginásio. Uns a jogar basquete, outros futebol e ainda um grupo de raparigas a jogar vólei, mas o que lhe despertou a atenção foi o saco de boxe ocupado por uma rapariga de cabelos cumpridos presos num rabo-de-cavalo.
Ela viu-o aproximar-se pelo canto do olho. Encarou-o, apanhando-o de surpresa.
- Sara. – Balbuciou ele boquiaberto. Quais as probabilidades de no dia anterior não a encontrar e agora, sem esforço algum dar de caras com ela logo ali? Engoliu em seco. Ele era a personificação das frustrações que ela descarregava no saco com toda a força que tinha.
Sara limitou-se a olhá-lo com desprezo, sem lhe dirigir uma palavra.
- Podemos conversar um minuto? – Questionou medindo as palavras.
- Não temos nada para conversar e eu não tenho um minuto. – Resmungou
- Ok. Então ouve apenas. Podes continuar o que estás a fazer na mesma.
Ela não disse nada, limitando-se a bater cada vez mais forte no saco de boxe. Salvador respirou fundo. Tinha de tentar mesmo assim.
- A minha irmã contou-me que conversaram. – Fez uma pausa, tentando captar a sua atenção. Expirou o ar retido nos pulmões. – Atirou-me à água.
Sara ficou imóvel por segundos. Sim captara a atenção dela, apeteceu-lhe rir a imaginar a cena mas manteve o ar duro.
- Não foi o que pensas Sara.
Ela limitou-se a ficar em silêncio, sem olhar para ele. Salvador segurou o saco para que este se imobilizasse.
- Estás a ouvir o que estou a dizer? Bolas Sara! – Gritou, deixando o desespero escapar.
- Sai-me da frente senão levas tu! – Ameaçou.
- Então força! Talvez eu mereça. Ainda que não tenha feito o que achas que fiz, se isso te faz sentir melhor, força. – Salvador atirou as luvas para o chão, derrotado. Se era o necessário para ela o ouvir, que assim fosse.
- Sai daqui Salvador. Não te humilhes mais.
- Não saio daqui até que me oiças. – Insistiu, barrando-lhe o caminho.
Inesperadamente, Sara desferiu-lhe um soco no estômago, fazendo-o dobrar-se ao meio mas ele não queria dar-se por vencido e agarrou-lhe os braços, obrigando-a a escutá-lo. Acabaram por cair os dois no colchão, com ele ainda a segurar-lhe os braços.
- Achas que eu quero alguma coisa com a Mónica? Naquele dia quando a viste sair da garagem, tinha-a mandado embora. Insultou-me de todas as formas possíveis, disse que eu nunca seria ninguém e saiu porta fora. – Continuou a segurá-la não fosse ela tentar escapar novamente.
Sara, finalmente, olhou-o nos olhos. Ele podia estar a ser sincero mas não iria dar o braço a torcer assim.
- Eu sei o que vi Salvador. Vi a gaja a sair de lá a compor as roupas. Vais dizer o quê? Que se despiu e mandou-se para cima de ti?
Engoliu em seco.
- Beijei-a. – Sara voltou a cara ao ouvir isto – Não querias a verdade, Sara? Sim, beijei-a. Sim, por segundo voltei a sentir-me atraído por ela porque a amei até te encontrar. Amei-a imenso durante muito tempo ainda que ela não merecesse isso. Ela queria mais e se eu fosse outro, teria também querido mais mas não o fiz. Sabes porquê? Porque eu amo-te. Posso mentir-te e dizer que não, posso dizer que as tuas idas e vindas não me afetaram. Posso dizer que não senti a tua falta e estava a lixar-me para se estavas bem ou não. Passei o inferno para resolver os assuntos da minha família e onde estavas tu? Hã? Onde estavas quando o meu mundo se virou do avesso? Onde estavas quando temi pela vida da minha mãe? Dos meus irmãos e dos meus avós? Onde estavas quando eu te ligava para te contar que o meu irmão me apareceu à porta pelo próprio pé? Sim. O meu irmão esteve à morte na altura em que eu sai de casa. Ficou com o rosto praticamente desfeito e lixado para o resto da vida. Ficou sem poder utilizar uma das pernas e por milagre, contra tudo o que todos diziam, agora apenas coxeia. Nunca estavas lá. Apareceste para me ver destruir o Hugo ao murro e depois? Julgaste-me. Sacrificaste-me até mesmo depois de saberes a verdade no tribunal. Sim, eu vi-te lá e depois? Voltas-te a desaparecer. É o que fazes de melhor não? Desapareces em vez de ficar e resolver o que há para resolver. Posso não ser ninguém, não passo de um campónio que saiu de casa quando tudo se complicou. Não valho nada. Mas não me sacrifiques por coisas que achas que fiz e não fiz.
Sara estava atónica enquanto dos olhos de Salvador saiam rios de lágrimas. Ele já não lhe segurava os braços com força, se ela quisesse poderia ter saído dali mas não o fez. Depois de ouvir o que ele dissera perdera todas as forças para se mexer. Em redor, todos comentavam o que estava a acontecer mas nem um nem outro se importou.
- Já disse o que tinha para dizer. Sabes o que se passou, agora é contigo.- Dito isto, Salvador levantou-se e virou-lhe as costas limpando o rosto.
Mesmo que não desse em nada, sentia-se mais aliviado por lhe contar tudo o que havia para contar. Estava feito. Ele tinha defeitos, todos têm. Fizera inúmeras asneiras, era um facto. Beijar Mónica fora uma delas mas servira para colocar tudo no lugar. Ao beijá-la, ainda que por instantes quase perdera o controlo por parvoíce e não por amor, soube que não a amava mais. Era Sara que ocupava o seu coração.
Pouco sabia sobre o amor, mas o que sabia era que o sentimento por Sara ultrapassava e muito o que sentira alguma vez por Mónica. Se lhe fosse possível escolher um futuro, escolheria um futuro com Sara. Um futuro para o resto da vida, rodeados de filhos e netos e nesse futuro, seria o homem que o pai não fora. Seria um bom namorado e mais tarde um bom marido, amaria Sara todos os dias da sua vida mostrando-lhe isso mesmo. Não seria daqueles homens casados com o trabalho. Seria um pai presente, levaria os filhos à praia, a passear. Ensinar-lhes-ia a surfar, a nadar, a jogar à bola e tudo o que quisessem aprender. Nunca os iria comprar com presentes porque jamais se ausentaria. Iria embalá-los à noite até adormecerem. Iria ser o pai que o seu nunca fora. Nunca os iria abandonar, nem a Sara. E quando fossem os dois velhos, já com os filhos casados, sentar-se-iam no baloiço do terraço com vista para o mar a cuidar dos netos, e mesmo quando os netos crescessem e já nada lhes restasse, partiriam os dois no silêncio da noite, calmamente, de mãos dadas, rumo à eternidade.

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