Tudo o Que Sempre Quis || Cap.10 || Pt.3

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     Helena estava de partida, de regresso às aulas da faculdade, o que não fora fácil para o irmão mas nada podia fazer. Ela própria adiara a viagem o máximo que podia, o que incluíra faltar a algumas aulas. Salvador continuava reticente, ainda não se habituara à vida da sua irmãzinha na faculdade e tudo o que isso implicava incluindo praxes e festas. Helena garantiu ao irmão que iria ter cuidado e juízo. Mas ainda que confiasse nela, o seu coração de irmão mais velho continuava bem apertado num nó que não se iria desfazer nos próximos dias.
Desde criança, que tinha uma ótima relação com os irmãos, tirando algumas birras de miúdos e amuos, está claro. Se para alguns era um alívio ver os irmãos pelas costas, para Salvador era uma angústia, sabia Deus como ele se tinha aguentado todo aquele tempo sem os seus, sem saber notícias nomeadamente de Lucas que se isolara do mundo.
Lucas. Essa seria uma outra história para mais tarde.
- Faz boa viagem mana e tem juízo! – Avisou, pousando-lhe um beijo na testa.
- Sim mano, já sei essa missa de trás para a frente!- Resmungou, divertida e um tanto emocionada. Também para ela era difícil despedir-se do irmão, ainda mais depois do que passaram durante aquelas semanas que mais pareciam meses.
           - O Lucas deve ir visitar-te um fim-de-semana destes com a Mafalda. – Informou, enfiando as mãos nos bolsos das calças.
Helena olhou em redor e suspirou quando o autocarro chegou.
            - O Martim não vem? – Quis ele saber, desconfiado.
            - Não sei. Para ser sincera, digamos que ontem tivemos um pequeno desentendimento. Ele sabia que eu tinha de voltar para a faculdade, não sei o que lhe deu ontem. – Confessou, com as lágrimas presas por um fio.
Salvador, nada disse. Se o amigo não se atrevesse a aparecer nos próximos minutos teria de lhe dar uma boa explicação. Ainda agora começara a namorar com Helena e já lhe estava a dar dores de cabeça? Teria de vestir a pele do irmão mau, estava mesmo a ver-se.
Estava aborrecido com Martim, e na verdade não estava com a menor paciência para os dilemas do amigo mas se fosse mesmo preciso, teria de recorrer a um par de tabefes. Contudo, suspirou quando por detrás da irmã, Martim dirigia-se a eles numa correria doida.
- Parece que desta já se safou. – Murmurou entre dentes, aliviado por não ser uma opção atirar o amigo ao mar.

Quando o viu chegar, Helena correu para ele, saltando-lhe para o colo. Quem ficou mais surpreendido pela sua atitude arrojada e espontânea não se sabe se foi Martim ou Salvador que se sentiu a corar violentamente.
- Bem vou andando. Já vi que estou a mais. – Salvador tentava em vão chamar a atenção da irmã que demorou a lembrar-se que ele ainda ali estava. – Vá maninha, faz boa viagem e avisa quando chegares. – Abraçou-a uma vez mais, murmurando: resolve as coisas com ele, sim?
- Fica descansado mano. – Apertou os braços em volta do pescoço dele. – Resolve também as tuas coisas, Salvador. Mereces de uma vez por todas estar em paz contigo e com o que te rodeia, só assim poderás saborear o dia-a-dia.
Dito isto, Helena afastou-se do irmão, enviando-lhe um beijo através do vento com as lágrimas a teimarem a cair. Segurou-as mais um pouco, apenas o suficiente até subir no autocarro após despedir-se de Martim com a promessa que não o esqueceria. Por seu lado, ele prometeu-lhe com todas as letras que a amava e jamais, por um segundo que fosse, pensaria noutra que não fosse ela.
 Estavam juntos ainda que distantes. Em breve chegariam as férias do Verão, e claro, havia os fins-de-semana em que poderia visitá-la. Tinham forma de estar em contacto diariamente, e ele assegurou-a que não seria muito insistente, sabendo que ela precisava de estudar e tudo mais.
- Eu amo-te. Quer queiras ou não, eu amo-te! – Confessara-lhe ele, com os lábios perto dos dela. – Eu espero por ti.
Helena acreditou na promessa que Martim lhe fizera, pois, conhecia-o de uma forma que poucos conheciam. Conseguira entrar no seu mundo que ele tanto fazia questão de proteger, tal como ela protegia o seu e ele quebrara o muro de uma vez só. Era incrível a história de ambos. Helena recordou os tempos em que o achava uma figura, um mulherengo convencido e o quanto enganada estava. Tudo não passava de um disfarce para esconder o verdadeiro Martim. O Martim doce, mas que fora magoado. O Martim que por fora era a segurança em pessoa e no seu íntimo tinha dúvidas, receios e sobretudo, não se achava o melhor para ninguém. Tentava sempre fazer mais e melhor, contudo, com ela não precisava de ser nada mais do que ele próprio. 
Confiava nela tal como ela confiava nele.
Da janela do autocarro, acenou-lhe pela última vez enquanto Salvador já ia longe. As lágrimas começaram então a cair livremente pelas faces.
Ao longe, avistou o mar, uma vastidão acinzentada e desejou com todas as forças que o irmão encontrasse o seu caminho.
Salvador tinha ido ao inferno por ela. Era um segredo que pertencia a ambos, mas só ela poderia carregar aquela enorme culpa, e não ele, que tudo fizera para a proteger. E faria de novo uma e outra vez.


                             

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