Tudo o Que Sempre Quis || Cap.11 || Pt.1


«O tempo deixa perguntas, mostra respostas,
Esclarece dúvidas, mas, acima de tudo, o tempo
Traz verdades.»

O Inverno deu lugar à Primavera, trazendo consigo dias mais longos, novos aromas e deixando para trás os dias de tempestade que por ali se fizeram sentir nas últimas semanas.
As ruas já não emanavam o cheiro característico da chuva nem as pedras da calçada estavam perigosamente escorregadias. Os casacos grossos voltaram aos armários por mais uma temporada e as botas felpudas foram trocadas pelos ténis e afins.
Apenas a um par de semanas antes, uma forte tempestade vinda sabe-se lá de onde, varrera todo o areal com as ondas furiosas arrastando areia, espuma e tudo o que encontrasse pela frente, para a marginal o que impediu o negócio de muitos comerciantes da terra, obrigando-os a entaipar janelas e fechar portas com todas as precauções na tentativa de minimizar o máximo possível os estragos que se avizinhavam. Para Salvador, a tempestade trouxera-lhe uns dias de folga forçadamente. Parte da cobertura das piscinas Municipais desabara, felizmente durante a noite, pelo que não houve estragos a nível de feridos.
Depois da tempestade veio a bonança. Era altura de fazer conta aos prejuízos e retomar a rotina com a maior normalidade que fosse possível. Menos para Salvador que ficara sem os turnos de Nadador Salvador nas piscinas enquanto estas estavam em obras. Poderia aproveitar aqueles dias de descanso mas o descanso não paga contas ao final do mês pelo que depressa percorreu as ruas de cima abaixo em busca em algo, mesmo que temporário, que o pudesse ajudar a pagar as despesas.
Desvantagem de morar sozinho e sem emprego fixo era nunca descansar realmente. Vivia em constante preocupação por saber as contas que tinha prestes a chegar, fazendo os possíveis e impossíveis para esticar o salário até ao final do mês seguinte.
Já nem sequer se recordava da última vez que cometera alguma extravagância. Sem contar com os presentes de Natal para a família, não fazia compras para si há uns bons meses, mas se tivesse comida na mesa era o que lhe bastava.
Foi com estes pensamentos a preencherem-lhe a mente que quase esbarrou com Sara. Por breves instantes não disseram nada, limitaram-se apenas a uma troca de olhares que poderia ser interpretada de diversas formas mas a verdade era uma e apenas uma. Ainda que tivessem as suas divergências e as suas mágoas, amavam-se como na primeira vez. Nos olhos dela transparecia a imagem de quando o conhecera numa manhã de Outubro na praia. Como ela gostara de surfar com ele, desafiá-lo. Parecia ter sido noutra vida.
Os olhos verdes dele transpareciam a confusão que ia dentro de si. Cada vez que olhava para Sara só uma imagem lhe invadia a mente; as suas mãos cobertas de sangue, as roupas… Hugo estendido no chão, inerte. E ela especada à porta a assistir a tudo aquilo, desiludida, confusa, sem saber o que pensar ou o que sentir.
Mesmo no abismo, pudera imaginar o que ela pensava naquele instante. Como se pudesse adivinhar. Como se pudesse ler-lhe no rosto a deceção em que ele se tornara.
- Oh…Olá. – Balbuciou Sara, por fim, quebrando o silêncio constrangedor.
Salvador mudou o peso do corpo de uma perna para a outra, inquieto.
- Bom dia. - Saudou, com um leve sorriso.

Era tão evidente o quanto aqueles dois se amavam e estavam desejosos de cair nos braços um do outro. Contudo, existia problemas a resolver, perdão a pedir entre outras coisas que nem ele nem ela queria admitir ou conversar sobre isso.
Sem mais o que saber dizer, Sara afastou-se, deixando-o passar.
- Vemo-nos por aí. – Murmurou Salvador, mexendo as mãos dentro dos bolsos das calças.

Enquanto Sara continuou a subir a rua, Salvador permaneceu onde estava, com os olhos cravados nas costas dela.
Adorava aquela rapariga mas ainda que sentisse a sua falta até lhe doer o peito, não sabia como enfrentar a culpa que sentia. Não sabia como se sentar com ela e contar-lhe toda a história. Todos os tormentos por que passara antes de a conhecer, todos os fantasmas que enfrentara enquanto ela estava ausente. Como ele adorava ser capaz de colocar em palavras tudo o que lhe ia na alma. Fora injusto com ela naquele dia no ginásio. Mesmo que houvesse uma ponta de verdade em tudo o que lhe dissera, fora injusto na forma como o dissera. Fora bruto. Estúpido.
Descarregara nela todas as frustrações retidas durante meses e meses no quais se privara de sentir fosse o que fosse. Teria de falar com ela, mais tarde ou mais cedo.
Caminhou lentamente até à garagem onde guardava o velho carocha, quando deu de caras com Mónica ao portão. Suspirou. Só lhe faltava mais esta.
- Não arranjaste já confusão que chegue por aqui da última vez? – Resmungou, impaciente. – Não me insultaste o suficiente? – Continuou, vendo que a rapariga não mostrava tenções de lhe responder. Mónica limitava-se apenas a observá-lo em silêncio. Como se procurasse ler alguma coisa nos seus olhos. - Sim eu sei que não passo de um zé-ninguém blá blá blá. Disseste isso da última vez. Agora deixa-me passar que tenho trabalho a fazer.
- Eu soube. – Declarou ela de chofre.
Salvador estacou, percebendo aonde ela queria chegar.
- Sim e daí? Sou um monstro, uma besta… aquilo que me quiseres chamar agora deixa-me entrar se faz favor.
Mónica cruzou os braços, aproximando-se dele cautelosamente.
- Como soubeste? Digo, provavelmente deve ter sido notícia algures. – Salvador baixara a guarda, cansado.
- Sim, em parte. Mas… digamos que tive um pequeno encontro com a tua irmã quando fui com a banda tocar perto da faculdade dela.

Salvador anuiu. – Houve loiça partida? – Quis saber, não se contendo.
- Ah, não. Isto – apontou para o pequeno golpe na testa, disfarçado por uma madeixa de cabelo – não foi nada. Bom, resumindo, tivemos uma longa conversa - civilizada para que saibas – e percebi que te devo um pedido de desculpas por todo aquele mal-entendido. – Salvador mostrava-se reticente – Se quiseres, falo com a tal rapariga.
- A Sara. – Disse ele, dando a conhecer o seu nome.
- Sim. A Sara.
Um longo e constrangedor silêncio instalou-se entre eles. Salvador fitava, de costas para ela, o mar que se estendia ao longe.
- Ouve, eu sei que gostas dela. A Helena fez questão de deixar isso bem assente e também sou capaz de ver isso nos teus olhos. A forma como me olhas, não é a mesma de antes. – Mónica dava mostras de começar a ficar desconfortável com o assunto. – Devo-te imensas desculpas por isto e pelo resto de quando namorávamos…
- Não te merecia. – Salvador interrompeu-a – Na altura, quando nos conhecemos, não te merecia. Nunca devia ter-te arrastado para a minha vida.
Encarou-a, olhos nos olhos, pela primeira vez naquele dia.
- Eras uma excelente rapariga, simples. Eras humilde. De alguma forma acho que fui eu que estraguei tudo. Precisavas de mim perto de ti mas eu nunca estava lá. – Suspirou. – Tínhamos vidas diferentes. Achei que poderíamos dar certo e fomos sendo arrastados. Quando dei por mim já não tínhamos retorno. Estávamos tão afastados fisicamente mas também entre nós. Aquela ligação que nos unia foi enfraquecendo.
- Não tens culpa daquilo em que me tornei, Salvador. – Declarou.
- Será que não tenho mesmo? Afastámo-nos aos poucos e quando dei por mim já não eras tu. Já não eras a mesma pessoa que conheci. Andavas constantemente em festas rodeada de rapazes, bebias até de manhã. Mudas-te.- Concluiu, apontando-lhe para as orelhas onde luziam vários brincos e piercings.
Mónica ficou sem pinga de sangue. Tudo o que estava a ouvir não deixava de ser verdade, como argumentar contra o que ele acabara de dizer se estava certo?
- Amei-te durante muito tempo, mesmo depois de saber que tinhas outra pessoa.
- Também te amei Salvador, mas perdi-me algures no caminho. Tens razão em tudo o que disseste. Mudei sim, bastante. Cresci e talvez isso foi uma das coisas que me tornou no que sou.
Salvador encostou-se ao portão ainda fechado, cruzou os braços e deixou que ela falasse.
- Quando vinha para aqui, vi-a. Vi a Sara. Pelo que percebi era a rapariga com quem estavas a falar ainda há pouco, certo? – Ele assentiu – Sabes que eu nunca seria metade da mulher que ela é, não sabes? Faz exatamente o teu tipo, e mesmo de longe topa-se o quanto gostam um do outro.
- É complicado. – Confessou Salvador, fitando os pés.
- Isso nunca te impediu de nada. Quando é complicado, descomplicas. É o que fazes. Olha à tua volta. Quando eu disse que não eras ninguém, que tinhas uma vida miserável foi apenas para te atingir. Vê bem onde chegaste, mesmo contra tudo e todos, contra todos os obstáculos que tens tido. Lutas e voltas a lutar as vezes que forem precisas porque não sabes baixar os braços. Não sabes ficar à espera que o dia de amanhã seja melhor. Se podes ter melhor hoje por que esperar pelo amanhã?
Salvador passou a mão pelo cabelo curto, refletindo no que ela dizia.
- Bem, vou deixar-te trabalhar. – Concluiu – Fico à espera de uma foto da tua geringonça quando estiver pronta. – Como ele não respondeu, continuou – Podes ser tudo o que quiseres só tens de acreditar em ti.
- Mónica… desculpa. Se houver algo que devas desculpar, peço-te desculpas. Espero que possamos seguir em frente sem remorsos.- Concluiu.

Inesperadamente, Mónica abraçou-o e mais inesperadamente ainda, Salvador correspondeu, apertando-a nos seus braços como há muito não fazia.

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CONVERSATION

5 comentários :

  1. Ohhh quero maiiis! Este final deu vontade de ler mais e mais.
    Gostei, especialmente da personagem Mónica.

    r: Ainda não querida.

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  2. r: Na lista de códigos porque no outro lado não dá. Já experimentei e não consegui.

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