Tudo o Que Sempre Quis || Cap.11 || Pt.2

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Martim entrou na garagem de rompante, batendo a porta atrás de si.
- Meu… aquela tipa por aqui outra vez? – Levou as mãos à cabeça, temendo que o amigo tivesse outra vez em sarilhos. – Mas tu estás doido pá? A Sara puto. A Sara! – Esfregava freneticamente os olhos com a ponta dos dedos.
- Martim acalma-te lá. – Pediu, segurando-o pelos ombros. – Não é nada disso que já estás para aí a pensar. Estás a ouvir? – Abanou-o tentando chamá-lo à razão.
- Não é nada disso? Não te vi abraçado a ela, queres ver? Se a Sara sabe estás feito num oito. Pior. Se a tua irmã sabe é bem capaz de voltar para cá na hora só para te dar nas orelhas. – Sabia bem a fera que Helena seria capaz de ser se soubesse o que ele acabara de assistir.
- Deixa estar a minha irmã quieta que ela está bem onde está. Não lhe vais contar o que seja, ouviste? Porque simplesmente não existe nada para contar.
Martim rodou os calcanhares. Andava inquieto por todos os cantos da garagem feito barata tonta, com uma mão no bolso e outra sem saber bem o que fazer com ela.
- Sabes que se ela me perguntar alguma coisa não lhe vou mentir. Sabes bem como ela é quando descobre as coisas.
- Não precisas de mentir puto. Não aconteceu nada. Cheguei aqui, a Mónica estava á minha espera. Conversámos, esclarecemos as coisas. Pediu desculpas, pedi desculpas. Despedimo-nos sem rancor. Nada mais que isso. – Esclareceu.
Martim continuava a percorrer todos os cantos da garagem.
- Qual é o teu problema? Não foste tu que abraças-te a miúda pois não? Então tem lá calma. Bolas.
- Não fui eu mas se a Sara viu? Sabes como ela é a tirar conclusões. Da minha parte, penso que não queres mais chatices com ela, certo?
Salvador suspirou, impaciente.
- Não. Não quero chatices. Agora diz-me lá se algum dia terei o que for com ela depois do que se passou. Quase dei cabo do tipo à frente dela. – Apoiou a cabeça nas mãos – Nem consigo sequer olhar para a miúda sem me lembrar daquele dia. – A sua voz não passava de um murmúrio.
Martim aproximou-se do amigo, encostou-se ao Carocha e cruzou os braços.
- Precisas de pôr isso cá para fora, por isso força. Sou todo ouvidos. – Declarou.

Que Salvador poderia dizer? Era tudo tão recente, uma ferida ainda aberta. Gostaria de lhe dizer que estava tudo bem, que estava a seguir em frente. Ele bem que tentava esquecer tudo, mas como poderia seguir em frente se ainda existia segredos? Coisas por contar. Assuntos para enterrar. Tempo a recuperar.
- Que queres que diga? – Enfiou as mãos nos bolsos. – Que estou ótimo? Não, não estou. Como posso estar bem depois de tudo, puto? Já passou, Ok, mas não posso apagar da cabeça da miúda o que ela viu. O que ela sentiu. Nem sequer posso apagar isso da minha cabeça, quanto mais. Deito-me todas as noites e revejo tudo á minha frente. E se…? Se eu tivesse…? Tudo por um erro, uma coisa estúpida.
- Salvares a tua irmã das unhas do outro gajo não foi um erro, muito menos uma coisa estúpida. Ele caiu, esborrachou os miolos no pedregulho, se fosse eu, tinha-o engolido vivo.
Salvador viu-se obrigado a soltar uma gargalhada mesmo contra a sua vontade.
- O que foi? É verdade. Não fizeste mais do que proteger a tua família de um maníaco. E sorte teve ele de ainda ter ficado a respirar.
- Não digas isso. Foi um erro. Um erro dele por tirar conclusões precipitadas e um erro meu por … olha pelo que lhe fiz.
- A próxima vez que me disseres que proteger quem amamos é um erro enfio-te nesta coisa com rodas e atiro-te de uma falésia.
Ambos sorriram, cúmplices. Estava feito. Salvador não podia mudar nada do passado, nem mudaria mesmo que pudesse. Restava-lhe apenas fazer o certo pelo presente e pelo futuro.
- A Sara um dia entenderá. Nunca digas nunca.
- Pois claro. Fala o mestre. Agora que conseguiste dar a volta á minha irmã julgas-te o rei do mundo, não?- Deu-lhe um encontrão com o ombro.
Martim suspirou – Ela faz-me bem. Faz-me feliz. – Confessou, radiante.
- Fico feliz por isso puto. – Admitiu Salvador, dando-lhe um abraço. – Nem pareces o mesmo. Estás mais…parvo. – Gozou.
Estavam prestes a lançar-se numa das suas brincadeiras de este bate àquele quando ouviram bater ao portão, sobressaltando-os.
- Se for a Mónica outra vez dou-lhe um chuto no rabo. – Murmurou Martim.
O surfista não lhe respondeu, correndo para ir ver quem seria.
- Sara? – Fala-se no Diabo e ele mostra o rabo. – Hmm. Está tudo bem? Entra.
Desconfortável e um tanto atrapalhada, a rapariga lá entrou na dita garagem que tanto ouvira falar mas que ainda não conhecia por dentro. Deslizou o olhar entre Martim e o Carocha vermelho, a peça central de tudo aquilo.
- Desculpem interromper – Disse, olhando para ambos os rapazes – Mas precisava de falar contigo, Salvador.
- Claro. – Encolheu os ombros. – Força.
- Bem, eu vou…ali. – Disse Martim, deixando-os sozinhos.
- Podes ficar, não é nada demais. – Declarou ela.
- Ok, tudo bem. Mas preciso de ir ali na mesma. Fui! – E saiu, a passos largos. Não tinha mesmo jeito para mentir.
Quando ficaram sozinhos, Sara percorreu uma vez mais o espaço, um tanto surpreendida.
- Quem diria que tinhas uma paixão por carros…antigos. – Tentava fazer conversa, sem pressa. Quanto mais rápido fosse direta ao assunto mais depressa teria de se ir embora, coisa que ela não queria lá muito.
- Tenho uma paixão por muitas coisas. – Confessou, vendo-a corar. – Tem sido difícil arranjar algumas peças mas não é impossível. Dá trabalho, lá isso dá mas vai valer a pena. – Estava orgulhoso do seu pequeno projeto e não se inibiu de lho mostrar.
- Vais pintá-lo assim? – Quis saber, pegando no esboço sobre a bancada.
- Vermelho com duas riscas brancas. – Assentiu. – Achas que será má ideia?
            Pedir-lhe opinião sobre o que fosse ligado a carros era um erro, pensou ela. Pegou na folha rabiscada e aproximou-a do carro. Comparou ambos.
- Acho que ficará bem. Original. – Declarou, segura de si mesma. – Não que eu perceba alguma coisa de carros mas acho que estas cores conjugam perfeitamente. Tem o teu estilo. – Sentiu as faces a corarem e apressou-se a desviar o olhar do dele.
Mas ele não desviou. Continuou a olhar para ela, ali tão deslocada naquele ambiente, reprimindo o enorme desejo de a abraçar e dizer-lhe que a amava mais do que a sua própria vida.
- Bem. Vim aqui para falar contigo sobre um emprego. Ainda não tens nada em vista?
Como raio ela sabia aquelas coisas? Era como se continuasse presente na vida dele.
- As piscinas tão cedo não voltam a abrir. – Enfiou as mãos nos bolsos.
- Há uma coisa que talvez queiras tentar. O meu patrão vai abrir uma segunda loja cá e precisa de um empregado a tempo inteiro. É uma loja de desporto, roupa, pranchas e essas coisas a que estás habituado a lidar. Seria bom ter alguém que estivesse dentro do assunto. Disse-lhe que tinha uma pessoa em mente mas quis falar primeiro contigo.
A ideia agradava-lhe na totalidade. Poderia ter mais contacto com o público, estaria dentro do surf e do desporto no geral. Teria um salário ao final do mês com o que podia contar.
Sorriu para consigo mesmo, e por fim sorriu para Sara.
- Quando posso ir falar com ele? – Quis saber, não tentando esconder um sorriso de esperança.
- Passa na loja ao final do dia. – Finalmente pôde fazer algo por ele. Isso confortava-a.
- Obrigado. Por vires aqui.
- Não fiz nada de mais. Nada comparado com o facto de me teres salvado a vida.

Parecia ter sido numa outra vida, o dia em que Salvador a resgatara do meio das ondas agrestes. Poderia ter aproveitado para falar com ela sobre o que acontecera naquele dia com Hugo. Poderia ter-lhe dito que a amava e queria ficar com ela. Poderia ter dito tudo e mais alguma coisa mas apenas ficou a vê-la sair em passos leves na expectativa de a voltar a ver no final do dia.
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