Tudo o Que Sempre Quis || Cap.11 || Pt.3

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Que raio estava ele a fazer? Onde tinha a cabeça? Quase podia ouvir todos em redor a rirem-se dele a bandeiras despregadas. Ali ia ele, rua acima com a sua melhor roupa e um ramo de flores na mão.
Talvez tivesse exagerado no perfume, ou até mesmo na roupa que escolhera. Passara mais de meia hora a vestir e despir todas as peças de roupa que tinha no roupeiro apenas para ir entregar-lhe um ramo de flores que nem sabia se ela iria gostar.
Talvez estivesse doente ou a ter uma crise qualquer mas a custo lá optou por uma camisa em tons de azul e umas calças bege. Era o estilo de roupa que gostava mas apenas usava para ocasiões especiais e raios partam se aquela não era uma ocasião especial.
Pegou no casaco e saiu. Tinha o coração aos saltos desde que Sara entrara pela garagem naquela manhã. Enquanto subia a rua ainda ponderou desistir e voltar para trás, talvez pudesse entregar o ramo de flores à Dª Rosário que certamente iria gostar.
E se ela não gostasse das flores? Indeciso entre rosas vermelhas ou de outra cor, optou pelas brancas levemente tingidas de vermelho. Coisa que ele desconhecia completamente a sua existência. Gostou delas e apressou a florista a fazer-lhe um ramo antes que pudesse mudar de ideias.
Tocou à campainha, hesitante.
- Salvador. – Murmurou Sara, surpresa. – Não estava à espera. Entra. – Acabou por dizer, atrapalhada.
- Desculpa vir sem avisar. Na verdade não sei o que me deu. – Admitiu, ficando-se pela ombreira da porta.
Sara olhou de relance para as rosas que ele trazia.
- Entra. A casa não te cai em cima. Acho eu. – Insistiu, divertida.
- São para ti. – Acabou por dizer, entregando-lhe o ramo – Não sei de quais gostas mais mas…gostei destas.
Sara pegou no ramo hesitando por um breve instante.
- Obrigado. – Murmurou. – Mas não era preciso.
- Eu sei mas apeteceu-me. Vê como um agradecimento. – Um pouco mais à vontade, percorreu o interior do apartamento dela.
- Conseguiste? – Ela referia-se à pequena entrevista de emprego em que Salvador ficara de ir no final do dia. Sabia Deus o quanto ela estava ansiosa para saber como teria sido.
Ele franziu o sobrolho.
- Vamos ver. O teu patrão pareceu interessado e ficou de me ligar. Seja como for, agradeço-te quanto mais por me teres informado.
- Espero que consigas. – Declarou, colocando o ramo numa bonita jarra.
Salvador fez uma pausa, observando-a pelo canto do olho.
- Tens uma bela casa.
- Se iria ficar por cá não podia ficar para sempre numa pensão por meia dúzia de tostões. É pequena mas serve. – Cruzou os braços em frente ao peito – Queres jantar? Ia agora mesmo comer.
- Ah, não. Deixa estar. Não quero dar trabalho.

Como julgava ele que iria sair dali assim? Ainda mais da forma como estava vestido. Mal abrira a porta já estava de queixo caído. Não que ele fosse um rapaz descuidado com a imagem mas nunca o vira dentro de uma camisa. Gostava do estilo natural dele, o estilo surfista, mas aquela sua faceta mais…madura… dava-lhe cabo dos nervos. Tinha de admitir que ele fora atencioso em lhe dar um ramo de flores, mas seria isso o suficiente para seguirem em frente? Como meia dúzia de rosas – que ela adorara, por sinal – apagaria a imagem que lhe assaltava a mente cada vez que o via na rua? A imagem do monstro em que ele se tornara em minutos. Como alguém esconderia uma raiva tão grande dentro de si? Olhou-o nos olhos e em vez do vazio que vira naquele dia, via um rapaz que vivera uma fase de sofrimento e culpa mais do que ele podia carregar. Viu o rapaz que defendeu a irmã de ser abusada. Viu o rapaz assustado que fugiu quando se viu sem um lar para onde voltar e uma família destruída. No verde imenso dos seus olhos, viu alguém que apenas protegia os que amava. Viu o menino que ele tinha sido e viu o homem que amava.
Pela boca de Helena, Sara teve conhecimento de algumas coisas que tinham acontecido mas sem pormenores. A irmã dele apenas lhe dera a chave para o entender, para compreender o porquê. Quando ele estivesse pronto, iria contar-lhe tudo mas por enquanto apenas tinha palpites do inferno que aquela família tinha passado. Por momentos esqueceu-se que ela própria tinha um rasto de dor atrás de si. Tinha fantasmas ainda por aí à solta à espera para a encontrar.
- Dar trabalho em quê? Pôr mais um prato na mesa não me vai matar. – Disse por fim, insistindo. – Desculpa. Não quis dizer…
- Eu percebi o que querias dizer. – Declarou, com um aceno.
- Escolhi as palavras erradas. – Murmurou. – Janta comigo. Por favor.
Salvador fingiu uma expressão de sacrifício. – Já que insistes.
Sara deslizou pela cozinha e tirou a loiça dos armários, enquanto Salvador despiu o casaco e pôs-se ao seu lado.
- Precisas de ajuda? – Arregaçou as mangas.
- Podes temperar a salada enquanto eu ponho a mesa.
Como era bom sentir o perfume dela ali tão perto. Uma mistura que ele não pôde adivinhar mas calculou que viesse do shampoo ou do gel de banho que ela usava no duche.
- Sara… - Começou por dizer. Era desta. Seria agora que iriam ter a temida conversa.
- Hmm? – Ela virou-se de frente para ele enquanto dobrava o guardanapo.
Salvador olhou para as rosas e perdeu a coragem. Não iria estragar a noite daquela forma.
- Tens preferência na salada? Muito sal, pouco sal. – Amaldiçoou-se entre dentes, de costas para ela.
- Tempera como costumas fazer. – Respondeu.

Sentaram-se à mesa e dividiram uma bela lasanha receita da avó de Sara. De vez em quando conversavam sobre coisas simples, ignorando o elefante gigantesco na sala.
- Como estão os teus irmãos? – Quis saber Sara
- Bem. Dentro dos possíveis. A Helena anda ocupada com a faculdade e o Lucas está a recuperar bem. – Engoliu em seco. Porque simplesmente não lhe dissera que ele estava bem e feliz com a namorada? – É capaz de aparecer por cá um dia destes, não tivemos oportunidade para uma jantarada como gostamos, com tudo o que aconteceu. – Um pedaço de lasanha arranhou-lhe a garganta. Acabaria sempre por falar do assunto quer quisesse ou não. Talvez fosse mais um indício de que devia realmente falar sobre isso para conseguir arrumar a questão.
- Gostava muito de o conhecer. – Confessou, com o garfo a meio caminho. – Quer dizer, vi-o no outro dia mas…
- Nem sequer olhas-te para ele, queres dizer. – Soltou um leve sorriso. – Tens, digamos curiosidade, em saber o quão difícil foi para ele.
- Salvador, não quis dizer isso. Gostava de o conhecer, realmente. Conheci a tua irmã, conversámos várias vezes e ao Lucas só o vi de relance. Nem sequer me lembro da cara dele como deve ser. Estava em choque.
Salvador acabou a lasanha, bebeu o resto do sumo que tinha no copo e levantou-se.
- Tenho de ir. Obrigado pelo jantar e desculpa mas tenho mesmo de ir.- Disse.
Pegou no casaco e saiu, sem que Sara pudesse dizer o que fosse.
Da janela, poderia vê-lo partir. Poderia imaginar as lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Poderia vê-lo encostar-se a um muro com a cabeça nas mãos. Poderia vê-lo soluçar como uma criança. Poderia imaginar o peso da dor que ele ainda carregava. Poderia imaginar Lucas como ele o descrevera, desfeito, sem esperança. Poderia imaginar Helena assustada, em choque. Poderia ver e imaginar o que quisesse da janela mas apenas se limitou a ficar onde estava. Como poderia Salvador um dia esquecer aquele inferno? Como poderia ela ajudá-lo com isso se nem sabia que palavras empregar perto dele?

Tudo o que dissesse leva-os àquele dia. Àquele momento. Àquele inferno. 
                                     

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