Tudo o Que Sempre Quis || Cap.12 || Pt.1

«A pessoa que te ama
 é a única que vai conseguir ver a dor nos teus olhos,
enquanto os outros vão acreditar no teu sorriso»

O relógio marcava as sete horas quando os raios de sol começaram a penetrar as persianas, mas já estava acordado muito antes disso. Ao seu lado dormia a pessoa que ele amava de todas as formas possíveis e imaginárias. Suavemente, com a ponta dos dedos, tirou-lhe uma madeixa de cabelo do rosto, perdendo a noção do tempo enquanto a observava a dormir.
Como teria sido para ela passar por tudo aquilo que tinham passado? Como poderia ela aceitá-lo e amá-lo daquela forma? Ela merecia melhor, era a certeza que ele tinha nas não estava disposto a abrir mão dela enquanto não lho pedisse.
Sentiu o coração apertado ao imaginar como seria se um dia a perdesse. Não duvidava do amor que ela dizia nutrir por ele, contudo, tinha momentos de insegurança. Esfregou os olhos com a ponta dos dedos, afastando aqueles pensamentos estúpidos.
A rapariga mexeu-se, deitando a cabeça sobre o peito nu dele.
- Bom dia, querido. – Murmurou, aconchegando-se nos braços dele.
- Bom dia dorminhoca. – Pousou-lhe um beijo suave nos cabelos emaranhados.
- Tiveste pesadelos outra vez? – Quis saber.
Ele assentiu.
- Não te quis acordar. Acho que já estou habituado.
Puxou-a mais mas perto de si, beijando-lhe os lábios com uma enorme ternura.
- Tenho de ir tomar banho. – Declarou ela, roubando-lhe um beijo. – Vens?
Ele sorriu. – Dá-me um minuto.
Assim que ouviu a água a correr, abriu a gaveta da mesinha de cabeceira e tirou uma pequena caixa de veludo vermelho.
Como se pedia a alguém que ficasse com ele para sempre? Voltou a colocar a pequena caixa no sítio e correu para a casa de banho.
- Amo-te. – Sussurrou a ouvido da rapariga. – Amo-vos. – Corrigiu, baixando-se para lhe beijar a barriga que começava a crescer.
- Nós também te amamos muito papá Lucas.
Como o poderia não amar? Era o homem da sua vida, o pai do seu filho. Tinha-o amado em adolescente e voltou a amá-lo quando naquele fim de tarde ele entrou pelas urgências irreconhecível. Bastou ele abrir os olhos para que ela o reconhecesse. Jamais esqueceria o olhar do seu primeiro amor, e ali estava ele, coberto de sangue, com o rosto parcialmente desfeito e sem sentir as pernas.
- Queres que te deixe no hospital? – Perguntou ele, mais tarde, enquanto enfiava a camisola.
Ela assentiu.
- Felizmente falta pouco para terminar o estágio.
- Concordo. Nos próximos tempos precisas é de descansar, linda.
- Estou curiosa, melhor, ansiosa, por saber o resultado dos teus exames. – Aproximou-se dele e abraçou-o, como quem diz “Está tudo bem”.

Lucas permaneceu em silêncio, olhando de relance para a mesa-de-cabeceira. Sabia que ela diria que sim, só queria que o momento fosse especial e parecia que nunca era o momento certo.
- Vamos aguardar, amor. – Disse por fim, apertando-a nos braços.
No fundo, também ele estava ansioso pelo que o médico lhe diria. Havia apenas duas opções; ou lhe diria que estava tudo encaminhado ou que nem por isso. Como poderia cuidar do filho que esperava se houvesse uma recaída e voltasse a ser um inútil numa cadeira de rodas? Como poderia ser pai e marido nesse estado? Jamais prenderia Mafalda a uma relação condenada com um aleijado. Era o que ele pensava ainda que para ela, fosse qual fosse o resultado, continuaria a amá-lo com todo o coração e nunca, jamais, o deixaria mesmo que ele lho pedisse. Ambos tinham travado aquela luta juntos, mesmo quando ele quisera desistir de tudo, mesmo quando lhe implorara por morrer. Mas não. Ela nunca o deixara. Lutou com ele e por ele. Não o deixou desistir nem nunca deixaria.
Observou-o pelo canto do olho. Aquele seria um dia cheio. Lucas iria ao hospital, iria à consulta semanal no psicólogo e voltaria para casa para trabalhar no projeto de construção que tinha em mãos. Enquanto isso, ela tinha mais um dia de estágio pela frente. Mal podia esperar por ser uma enfermeira certificada, mas mais ansiosa estava para que aquele dia chegasse ao fim. E sobretudo, estava ansiosa para ter o seu filhote nos braços.
Sabia estar grávida antes do Natal mas a pedido de Lucas, guardaram segredo da família dele. Se tudo corresse bem naquele dia interminável todos ficariam a saber a boa nova. Sorriu ao imaginar qual seria a reação do cunhado quando soubesse que ia ser tio.
- Terra chama Mafalda. – Brincou Lucas, despertando-a dos seus pensamentos. – Estás a rir do quê tontinha?
- Já pensas-te qual será a reação do teu irmão quando lhe dissermos que vai ser tio? – Sorriu, maliciosamente.
- Estou mais preocupado com a reação do teu pai quando souber que vai ser avô. – Fingiu uma expressão de terror.
- Não sejas piegas menino Lucas. Ele sempre gostou de ti, aliás foste o único namorado que tive de quem ele gostou. Não que eu tivesse tido muitos, atenção. – Apressou-se a corrigir, entrando no carro.
- Talvez por ter sido o único benfiquista que levaste lá a casa.
Anuiu.

- O papá é mesmo tonto não é bebé? – Falava para o filho que carregava dentro de si.

                                ⚓

Share This Article:

CONVERSATION

3 comentários :