Tudo o Que Sempre Quis || Cap.12 || Pt.2

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Na sala de espera, aqueles minutos, para Lucas mais pareciam horas. Sentia as mãos suarem embora estivessem geladas como um cubo de gelo. Caminhou de um lado para o outro, percorrendo cada canto da minúscula sala repleta de cadeiras de uma cor horrível típica de hospitais e clínicas. Durante mais quanto tempo teria de esperar? Durante os exames ainda tentou que lhe dessem alguma pista do que se estava a passar mas o médico fechou-se em copas.
Era angustiante. Toda aquela espera. Todas aquelas dúvidas e receios. O que seria que o esperava do outro lado da porta? O que seria que o futuro lhe aguardava? Por um momento sentiu as lágrimas nos olhos com a ameaça de rolarem pelo rosto a qualquer instante. Recordou Mafalda naqueles primeiros dias de aulas quando ainda eram uns miúdos. Impossível esquecer aqueles tempos. Impossível não lembrar como se apaixonara por ela mesmo não sabendo nada sobre o amor. Não tinha sido fácil conquistá-la, mas ali, naquele preciso momento, teve a certeza que não poderia ter sido de outra forma. Não poderia ter sido com outro alguém.
- Lucas vamos entrar? – Uma médica simpática e sorridente encaminhou-o para dentro do gabinete.
Engoliu em seco.
Ao sentar-se, quase leu nos lábios dela que estava condenado. Uma vez mais sentiu o coração contorcer-se num nó apertado, tão apertado que por instinto levou a mão ao peito.
- Peço imensas desculpas pela demora, mas de facto hoje está tudo atrasado. – Conversava com ele como se nada se passasse, como se Lucas não esperasse uma sentença. – Antes de dar uma vista de olhos aos exames gostaria de examinar as cicatrizes e fazer mais alguns testes simples. – Outra vez aquele sorriso estúpido que para ele se poderia traduzir “estás feito num oito e não sei como te dizer isso”. Ainda que contrafeito, Lucas não se opôs.
Ela bem que falava pelos cotovelos enquanto o examinava mas ele pouco ou nada escutou.
- Ouvi dizer que vai ser pai. – Declarou ela, inesperadamente.
Aquilo funcionara como um íman que o atraiu de imediato ao mundo real.
- É verdade, sim. Dentro de cinco meses. – Falar sobre o filho que esperava só o fazia sentir-se pior, por não saber que tipo de pai iria ser. Seria o pai saudável que se desdobrava em brincadeiras com o filho ou seria o pai “inútil” que nem poderia correr ao seu lado?
- As cicatrizes estão mais que perfeitas. Fiz um belíssimo trabalho, posso dizer. – Soou um tanto convencida mas era verdade. Se não soubesse que as marcas estavam ali, Lucas quase poderia esquecer-se delas tendo em conta que mal se notavam. – Menino ou menina? – Quis saber, mudando de assunto rapidamente.
- Ainda não sabemos. Preferimos esperar até… - Fez uma pausa, sem saber como continuar.
- Pode vestir-se. - Declarou, enquanto se dirigia de novo à secretária. – É bom que pensem em saber o sexo do bebé. Vai ter de estar em forma para ter a pedalada necessária para as brincadeiras que o esperam.
Lucas permaneceu de pé, tentando descortinar o que a médica lhe acabara de dizer.
- Como assim, doutora? – A sua voz não passava de um murmúrio.
Ela voltou a sorrir-lhe, colocando as mãos sob os exames de Lucas.
- Não se quer sentar?
Ele abanou a cabeça, negativamente. – Prefiro ficar de pé, se não se importar.
Sentiu a garganta secar como um deserto. As pernas tremiam-lhe de nervosismo. Estava na hora de saber.
- Muito bem. Há pouco menti-lhe. Bom, digamos, disse uma meia mentira.
- Doutora, por favor…
Ela acedeu, compreendendo que não podia fazê-lo esperar mais.
- De facto, os resultados demoraram a chegar, mas antes de o mandar entrar, perdi um bom tempo a examinar minuciosamente os seus exames. Optei por lhe fazer mais testes para ter a certeza absoluta do que estava a ver. – Novamente uma pausa. – Lucas…
Lucas estava completamente assustado. Não sabia o que ouviria a seguir mas tinha medo. Estava tão assustado que quase não escutou o resto da frase. As mãos tremiam-lhe tanto que chegou ao ponto de as esconder dentro dos bolsos das calças.
- Lucas ouviu o que eu disse?
Ele assentiu. Agradeceu em silêncio à médica que o acompanhara desde o início, tentou normalizar os batimentos cardíacos antes que caísse no meio do chão e saiu do gabinete médico com os exames debaixo do braço. Caminhava lentamente pelos corredores, como se caminhasse a um palmo do chão.

Só quando entrou no carro e viu o crucifixo balançar no espelho retrovisor, caiu em si. Deixou que as lágrimas se soltassem de uma só vez. Deixou-as percorrer o seu rosto sem as secar. Acariciou o cruxifico branco entre os dedos e agradeceu a Deus por tudo o que lhe tinha sido dado. 

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