Tudo o Que Sempre Quis || Cap.12 || Pt.3

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Lucas tinha esperado tanto tempo por aquela notícia que agora não sabia como a digerir. Queria ligar ao irmão, à irmã, à mãe e aos avós. Talvez pudesse até partilhar no Facebook. Mas não o fez, havia alguém que tinha de saber primeiro que todos eles. Mafalda merecia isso e muito mais. Voltou a entrar no hospital, quase se esquecera da sessão com o psicólogo. Saber que poderia ser o pai que o seu filho merecia, deu-lhe uma nova esperança. Uma nova fé. Uma nova perspetiva de futuro. Sabia o que queria. Céus, Lucas sabia realmente o que queria.
Ao chegar ao gabinete bateu à porta.
-Sim? – Ouviu a voz do Dr. Torres do lado de lá.
- Posso, doutor?
- Claro. Pensei que não viesse hoje. – Carlos Torres era um homem alto já perto dos quarenta anos e com pouco cabelo para se ver.

Lucas assentiu. Ficou de pé, perto da porta, não sabendo bem se queria ou não ter aquela conversa quando tinha uma vida para começar.
Trocou o peso do corpo de uma perna para a outra, enfiou as mãos nos bolsos das calças e deu dois passos, recuando de seguida.

- Sabe, doutor? Não sei o que estou a fazer aqui. – Confessou, com um leve sorriso de triunfo.
- Não se quer sentar para conversarmos sobre isso? – Sugeriu o médico, encaminhando-se para o «sofá de terapia».
Lucas voltou a sorrir e sacudiu a cabeça negativamente.
- Agradeço-lhe por tudo doutor. – Estendeu-lhe a mão – Mas creio que posso dispensar as suas sessões. – Encolheu os ombros. – Estou curado. Estou bem. Vou ser pai. Não vejo necessidade em continuarmos com isso.
Carlos Torres observou-o por um minuto. – Não se está a precipitar? Quero dizer, ainda bem que está curado e se sente bem…mas, e a nível psicológico?
Lucas mexeu-se.
- Estou bem Dr., acredite. – O psicólogo não pareceu muito confiante. – Fazemos assim, se eu achar necessidade disso volto cá. Tem a minha palavra.
- A terapia é voluntária, se diz que se sente bem acredito em si. – Carlos voltou a sentar-se na sua poltrona e pegou num bloco de notas, rabiscando qualquer coisa. – Espero não o voltar a ver, se isso significar que está bem.
- Obrigado doutor.
Lucas encaminhava-se em passos largos para a porta do gabinete quando o médico o deteve.
- Onde vai Lucas?
- Vou tratar de convencer a minha namorada a casar comigo. – Desta vez o seu sorriso era tão largo que quase não lhe cabia no rosto.
O psicólogo esticou um papel na direção d rapaz.
- Espero ser convidado. – Recostou-se na poltrona e cruzou os braços em frente ao peito.

Lucas voltou os calcanhares e saiu do gabinete sem demora.
Alguns pisos acima encontrou Mafalda com uma pilha de formulários à frente. Num dos bolsos a caixinha de veludo vermelho quase lhe queimava, no outro bolso o pequeno papel que o psicólogo lhe entregara e ele nem se dera ao trabalho de ler. Retirou ambos, sem desviar os olhos de Mafalda que permanecia de costas para ele. Estava tão perfeita com a sua bata de enfermeira e aqueles apetrechos que já faziam parte dela. Mas que importava isso? Sempre a achara perfeita desde o dia que a vira pela primeira vez na escola. Baixou o rosto, sorrindo para si mesmo. Mas bolas, mais perfeita ficava com aquela barriga proeminente a espreitar por entre a bata branca imaculada. Era ela. Tinha sido sempre ela. Seria sempre ela.
Segurou a pequena caixa entre os dedos, desdobrando o dito papel. «Quando começas a ter fé, o impossível começa a acontecer.»
Ergueu o rosto e viu Mafalda de perfil, a sorrir com um grupo de colegas. Ela tivera fé nele desde o dia que o encontrara nas urgências, agora era a sua vez de ter fé em si próprio.
- Desculpe… posso roubar- lhe uma rosa? – Um homem já idoso carregava um enorme ramo de rosas que deveriam ser para a sua esposa.
O homem mirou-o de alto a baixo desconfiado, mas quando Lucas lhe mostrou a caixa de veludo vermelho até lhe ofereceu o ramo completo.
Lucas recusou educadamente.
- Creio que só preciso de uma. Terei o resto da vida para encher a casa de ramos de flores de toda a espécie. – Murmurou, chamando a atenção para Mafalda.
- Acho bem que o faças rapaz. Deve ser uma bela rapariga. – Declarou, estendendo-lhe uma rosa vermelha.
- Obrigado e…as melhoras.

Esperava que Mafalda não o tivesse visto entretanto e tal como suspeitara, regressara aos formulários, remexendo numa madeixa de cabelo de vez em quando. Era um hábito que tinha quando se concentrava.
Lucas encostou-lhe o botão de rosa ao nariz, sobressaltando-a.
- Lucas. – Os seus olhos brilhavam, agradecida pela surpresa. Mal ela sabia o que a esperava.
- Decidi fazer-te uma visitinha. – Beijou-lhe os lábios suavemente. – Melhor, decidi fazer-vos uma visitinha. – Colocou a mão livre na barriga da namorada, enquanto escondia a outra atrás das costas.
Trocaram um longo e silencioso olhar. Aquele olhar que diz tudo mesmo sem palavras algumas. Ele olhou para o chão e voltou a olhá-la nos olhos. Nem sequer sabia como fazer o que estava prestes a fazer.
Pegou-lhe na mão. – Queria que fosse diferente, que fosse num sítio romântico, talvez à beira-mar ou num jantar à luz das velas. – Calou-se por instantes, procurando as melhores palavras – Podia esperar até à noite, sim, mas para ser sincero não podia esperar mais. – Soltou uma gargalhada.- Nem sabes o quanto quero isto, o quanto tenho adiado por nunca ser a altura certa.
- Lucas, o que…
O rapaz pousou-lhe um dedo sobre os lábios, em jeito de a calar. Agora era a sua vez de falar e sabia Deus o quanto ele esperara por aquilo. Colocou o joelho no chão e abriu caixa que escondeu durante meses. Do interior uma pequena pedra brilhou, finalmente livre de brilhar para o mundo. Mafalda levou as mãos à boca para abafar um «Oh» que lhe ficou preso na garganta.
- Sim! Sim! Sim! – Exclamava ela, sem lhe dar hipótese de dizer o que fosse.
- Sim o quê? Isto não é para ti, é para aquela senhora que está ali a olhar para mim e a pensar que devo estar louco.
Só faltou a rapariga roubar-lhe o anel das mãos e colocá-lo ela mesma. Mas Lucas impediu-a.
- Tens sempre uma palavra a dizer. Tens sempre tudo na ponta da língua e agora, que finalmente arranjei coragem nem me deixas pedir-te em casamento decentemente? – Disse, trocista. O seu sorriso irradiava felicidade.
Mafalda esticou a mão esquerda, abanando o dedo em jeito de «dá cá isso» e calou-se, fingindo-se amuada.
Lucas fez-lhe a vontade, mas não deu o discurso por terminado.
- Quando soube que estavas grávida, tive tanto medo que não pudesse ser o pai que o nosso filho merece. Tive medo de não poder ser o marido que precisas. O homem que precisas. Mas nunca tive realmente medo de te perder. Sabia que o que tínhamos era forte e capaz. Sempre acreditei em nós, não tem sido fácil. Nunca será fácil mas e daí?
Não a querendo ver corar ainda mais diante da equipa médica que, sem se aperceberem, se juntaram ao redor deles, Lucas selou o momento com um beijo doce e apaixonado.
- Mais uma coisa, aceitas casar comigo?
Mafalda abraçou-o com toda a força que tinha enquanto ele a levantava do chão. Ouviu-se “vivas” e palmas. Só faltava mesmo uma chuva de pétalas de rosa.
- Não poderia ser de outra forma. – Murmurou ela, mordiscando-lhe a orelha. – Foi incrível. Foste perfeito. No sítio certo, no momento certo.
Lucas pousou um braço nos seus ombros.
- Num hospital? Com uma rosa emprestada? Por amor de Deus. – Abanou a cabeça, sorrindo para si próprio.
- Fez sentido, para mim. – Entrelaçou os dedos nos dele e encostou a cabeça ao seu ombro. – Posso adivinhar que está tudo bem contigo e presumo que tenhas mandado o Dr. Torres bugiar.

Incrível. Mafalda sempre lhe soubera ler os pensamentos.
- Foi mais ou menos isso.

Lucas beijou-lhe o alto da cabeça enquanto caminhavam lado a lado pelo corredor.

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