Tudo o Que Sempre Quis || Cap.13 || Pt.1



«Que as suas lembranças
Não sejam o que faltou dizer.»


Quem deveria procurar quem? Quem deveria pedir desculpa? Talvez Sara, por ter tocado no seu ponto fraco. Ou talvez ele próprio, pela forma como reagira àquela situação.
Era uma das coisas com as quais ainda não aprendera a lidar. Estava tudo bem agora, mas Salvador ainda não seguira completamente em frente. Se ele era teimoso e orgulhoso para dar o braço a torcer, então Sara nem se imagina. Podia esperar que ela se designasse a aparecer, a pedir-lhe desculpa pelo que dissera, ou então podia deixar de ser um cobarde e ir atrás dela.  Não estava disposto, de forma alguma, a perdê-la uma vez mais. Que se danasse o orgulho.
Levantou-se da areia determinado em ir procurá-la mas não foi preciso ir muito além. Apenas a alguns metros de distância, viu-a a preparar-se para entrar no mar. Se ela ia surfar ele queria assistir. Observou-a discretamente enquanto se aquecia, e quando Sara entrou na água sem pensar duas vezes, Salvador sentiu um aperto no peito. Quantas saudades ele tinha de surfar ao seu lado. A forma como ela manobrava a prancha, como se flutuasse por cima das ondas com uma leveza inexplicável. Aquela miúda tinha um dom. Sem tirar os olhos dela, aproximou-se cautelosamente com a intenção de a interpelar quando saisse da água. Levasse ela o tempo que levasse, ele não se importava de ficar um dia inteiro a vê-la furar as ondas com aquela pinta.
Sara não viu, mas nos lábios do rapaz, dançava um enorme sorriso de satisfação que depressa desapareceu quando o telemóvel tocou dentro do bolso. O visor anunciava que era a sua mãe.
- Mãe! Estava a pensar em ligar-te daqui pouco. - Salvador estranhou não haver resposta do outro lado. – Mãe? Estás aí? – Mil cenários lhe passou pela mente, mas já não havia nada a temer. A mãe estava segura. Ele sabia. Já estava tudo bem, mas o passado não se esquece do dia para a noite.
- Salvador… Hmm… O avô…
Salvador tinha os ouvidos a zumbir e o coração a martelar-lhe no peito com tanta força que se sentiu zonzo.
- O avô o quê? – A sua voz soou mais áspera que o esperado. – O avô o quê? – Quase que gritava à espera que a mãe se dignasse a responder-lhe.
- Filho, o avô morreu.
Tinham-lhe tirado o chão dos pés num segundo. Não podia ser. Não queria acreditar. Era só um pesadelo. Isso mesmo. Estaria apenas a ter um daqueles pesadelos absurdos e quando acordasse estaria tudo bem. Levou a mão à cabeça. Andou em círculos à espera que aquele pesadelo terminasse para poder finalmente respirar o ar retido nos pulmões. Mas não acordou. Era real.
- Oh mãe…
Salvador não chorou. Queria fazê-lo mas não conseguiu. Estava completamente em estado de choque e a única coisa que foi capaz de fazer foi caminhar para casa a passos largos, tinha de contar a alguém. Como se ao pronunciar as palavras,alguém lhe dissesse que estava enganado, que era mentira. Encontrou a Dª Rosário em casa.
- O meu avô morreu. – Disse ele de rompante, deixando a senhora atónica e sem saber o que fazer ou dizer.
- Oh meu querido, lamento tanto… - Disse por fim. Ofereceu-lhe um abraço de consolo, mas ele rejeitou, afastando-se.
Subiu os degraus dois a dois, entrou no apartamento e atirou-se para cima da cama. Chorou até lhe doer cada pedaço de si. Chorou até não ter mais lágrimas. Como poderia ser verdade?
Não ligou ao irmão nem à irmã. Não queria dizer-lhes. Não queria que, de alguma forma, fosse real. O seu avô. O seu segundo pai. O homem que o criou juntamente com os irmãos. O homem que era um poço de paciência e ternura. Como poderia viver ele sem o seu querido avô? O seu melhor amigo e companheiro? Como poderia sequer pensar em regressar a casa dos avós e não o encontrar? Não o abraçar. Como poderia imaginá-lo…morto?
Sabia bem o quanto ele estava doente. Sabia que era uma questão de tempo, mas nunca pensou que fosse tão cedo. Nunca pensou que fosse uma questão de dias. Piorara bastante desde o Natal. Parecia ter sido à uma eternidade e não a apenas a alguns meses.
Ele sabia, mas não queria aceitar, que um dia perderia o seu companheiro para a doença.
Recordou o rosto do avô e todos os anos partilhados, acabando a chorar convulsivamente mais uma vez. Só no dia seguinte teve coragem de sair da cama, engolir qualquer coisa apressadamente e retomar o caminho para casa. O Carocha ainda não estava totalmente reparado, pelo que, se sentou na sua moto de mochila às costas e fez-se à estrada.
Seria uma longa viagem de regresso a casa.
Chegou pouco tempo antes do velório, sem saber sequer como tinha ido ali parar, tendo em conta que conduzira de forma automática a maior parte da viagem.
Era como se alguém o guiasse, sem sequer ser preciso prestar atenção às placas direcionais.
Viu Helena amparada por Martim, e viu Lucas ao lado de Mafalda. Se ele tivesse prestado atenção, teria notado a barriga saliente da cunhada, que naquele dia nada fez para esconder o filho que esperava com o irmão dele. Mas foi a mãe a primeira pessoa que ele abraçou com a pouca força que lhe restava, seguindo-se a avó incosolável.
Como seria para ela perder o companheiro de uma vida? Como seria para a mãe, perder o único homem que conhecera como um pai, que a amou mais que o próprio pai biológico? Saiu para o exterior para se juntar aos irmãos, sem nunca encarar o avô que jazia no caixão a dois passos de si. Não. Não o iria ver assim. Iria recordar-se do seu eterno amigo, tal como ele sempre fora. Alegre, cheio de energia e sorridente. Era assim que queria recordá-lo quando mais tarde contasse aos seus próprios filhos as aventuras de ambos.
Sem uma palavra, apertou os irmãos num abraço.
- Está tudo bem. – Murmurou, pousando um beijo suave nos cabelos da irmã.
Lucas tinha Mafalda. Helena tinha Martim. E ele? O que tinha? Uma paixão perdida numa vila à beira-mar. Uma pessoa pela qual não soubera lutar, custasse o que custasse. Escondia-se na sua concha e esperava dias melhores. Mas os dias bons não chegariam num tempo próximo se ele não fizesse por isso.
- Então puto? – Martim aproximou-se do amigo, colocando um braço em torno dos ombros de Salvador. – Aguentas-te?
- Dificilmente. – Foi a resposta dele.


Na verdade, Salvador estava a suportar melhor que no dia anterior. Não aceitava que o avô tivesse morrido, mas começava a acreditar nisso ao ver a multidão que fez questão de acompanhar o falecido à sua última morada. Foi no momento em que António desceu à terra, que os três irmãos desabaram completamente. Helena virou costas ao enterro e escondeu o rosto entre os irmãos. Também ela não queria ver. Nenhum deles queria. Como se o facto de não verem, tornasse tudo aquilo numa mentira. Mas continuava a ser a cruel realidade e mais do que nunca, iriam precisar uns dos outros.
António podia ter partido mas tinha deixado a certeza que jamais estaria longe de todos eles, da sua família. Iria olhar por cada um deles, todos os dias. Iria protegê-los o quanto pudesse.

Aquela familia, tinha agora mais um Anjo da Guarda. 

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4 comentários :

  1. Belíssimo texto! Muitos parabéns! É sempre difícil perder alguém!
    Obrigada por visitares o meu blog!
    beijinhos
    http://direitoporlinhastortas-id.blogspot.pt/

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