Tudo o Que Sempre Quis || Cap.13 || Pt.2

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Dias depois, a normalidade lutava por se instalar nas suas vidas. Lucas e Mafalda regressaram a casa depois de anunciarem o bebé que esperavam. Não era a melhor altura mas não podiam esconder mais tempo. Para todos eles, foi a melhor notícia que podiam ter recebido. Helena regressou à faculdade acompanhada por Martim que decidira passar uns tempos com ela. Margarida e Alzira retomaram as suas vidas a custo, e Salvador regressou também a casa.
Estava tão triste e tão desesperado que nem se lembrou de ir buscar Rocky ao apartamento da Dª Rosário.
Em toda a noite, Salvador não conseguiu dormir mais que um par de minutos. O despertador pousado na mesa de cabeceira mostrava que pouco faltava para as seis horas da manhaã. Frustrado, empurrou os cobertores para trás e sentou-se na cama. As pálperas pesavam-lhe uma tonelada, mas por mais cansado que se sentisse não conseguia dormir desde que tivera conhecimento do falecimento do avô.
Vestiu umas calças de fato de treino cinzentas e uma camisola azul escura por cima da t-shirt, decidido a pegar na prancha e ver o que o mar lhe reservara para aquele dia. A sua alma estava de luto, mas em silêncio, prometeu ao avô que não iria ser uma sombra negra, continuando assim a vestir-se com as cores de sempre. No seu íntimo, sabia que era o que o avô queria para ele. Encheu um copo de leite, deitou duas colheres de chocolate lá para dentro e bebeu de forma automática. A sua mente estava longe, muito longe e quando deu por si, fitava os azulejos da parede da cozinha. Sacudiu a cabeça na tentativa de afastar aqueles pensamentos, lavou o copo e pegou na prancha disposta num canto, onde sempre fora o seu lugar desde que ali vivia.
De repente, sentiu-se impelido em procurar o papel que encontrara quando entrou pela primeira vez naquele apartamento. Revirou as gavetas da cozinha até o encontrar no meio das contas da electricidade e afins.
- Bem vindo ao lar, surfista! – Leu uma vez mais.

Voltou a colocar o papel amarelado no mesmo sítio e saiu porta fora de prancha debaixo do braço e a mente cheia de coisas que queria deixar dentro de água.  Assim que chegou ao areal, instintivamente, procurou Sara com o olhar, talvez a encontrasse por ali e pudessem surfar os dois como nos velhos tempos. Só quando não a encontrou em parte alguma, é que percebeu a falta que ela lhe fazia. Quem sabe, talvez mais tarde pudessem conversar.
Trocou a roupa pelo fato de neopreme e dedicou-se ao aquecimento por breves minutos. O mar estava convidativo, perigoso mas não tanto assim. Mas, e daí? Ele gostava de perigo, gostava de desafiar cada onda que conseguisse. Quem era ele para ter dado uma descompustura a Sara quando a resgatou do mar naquele evento de surf a alguns meses atrás? Ele próprio gostava de se arriscar de vez em quando, podia ter limites mas não naquele dia. Não, naquele dia iria passar para lá da sua linha invisível. Precisava de sentir alguma coisa, a mais pequena coisa que fosse. Salvador precisava disso, mais do que nunca.
Correu para o mar e Deus o ajudasse.
Durante algum tempo permaneceu sentado na prancha com os pés a baloiçar dentro de água ao ritmo das ondas. Estava tão desesperado e sufocado pela dor que não pensou em surfar. Não pensou no irmão, na irmã, na mãe nem em Sara. Não pensou na vida que ali tinha construído nem nos planos que traçara para o futuro. Não pensou em nada. Apenas na tristeza que carregava dentro de si. Deixou-se levar pela escuridão. Soltou a prancha do tornozelo e deixou que a maré o levasse.
Talvez pudesse acabar com o sofrimento que a perda do avô lhe deixara cravado como um espinho. As ondas empurravam-no cada vez mais para o fundo mas ele não se importou. Não lutou para respirar.Não lutou por si próprio. Deixou-se guiar por uma mão invisível através de um túnel, de repente uma luz branca quase o cegou e viu o avô do outro lado. Mas António não se mostrava satisfeito por o ver e,à medida que Salvador se sentia mais próximo do avô, este empurrava-o para trás.
- O teu lugar não é aqui. Não ainda. – António voltou a empurrá-lo, deixando-o confuso.
- Mas eu sinto tanto a tua falta avô. – Dizia ele.
- Eu sei. Mas esta não é a tua hora. Tens ainda muito a fazer. Há pessoas que precisam de ti, mais do que possas imaginar.
Salvador pestanejou e viu uma sombra ao lado de António, não o reconheceu de início mas tinha a certeza que se tratava de alguém que lhe era familiar.
- Tens muito ainda para resolver- – Continuou António, deixando-o cada vez mais confuso. Que raio estava a acontecer? António não estava morto? Então porque estava a falar com ele? Porque é que o estava a ver? Estaria a sonhar? Mas… tinha ido surfar, logo não podia estar a sonhar a menos que…
- Sabes que estou aqui contigo. Não tenhas medo. – Quase podia sentir a mão do avô a deslizar-lhe pelo rosto e de repente uma força o puxou para trás, afastando-o da luz branca. 
Num segundo tudo desapareceu, a  imagem do avô acompanhado por alguém que ele não tivera tempo de reconhecer desvaneceu-se e a primeira coisa que viu quando abriu os olhos foi Sara a lutar por ele, com ele.
- Já está a respirar. – Informou ela a alguém.– Salvador? Salvador, estás a ouvir?
Atrás de Sara, um rapaz alto com pinta de surfista, sorria para ele, satisfeito. Agora ele podia reconhecê-lo. Simão. O seu primeiro companheiro de Surf. Aquele lhe lhe dera algumas dicas para as suas manobras mais ousadas e lhe ensinara grande parte do que ele sabia acerca do mar.
- Bem vindo ao Lar, surfista!
Salvador sorriu de volta, atordoado.
– Salvador, está tudo bem. Tenta respirar devagar. Já te vão levar ao hospital. – Informou a rapariga.
- Simão? – Murmurou, olhando sobre o ombro de Sara.

- Quem? – Sara olhou para trás mas não viu ninguém. 
                                  

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