Tudo o Que Sempre Quis || Cap.14 || Pt.1


«Nunca é tarde para recomeços.
Pior que errar é nem sequer tentar.»

Confusão; era a palavra que melhor descreveria a mente dele. Ainda não conseguira assimilar tudo o que acabara de acontecer enquanto era levado na ambulância para o hospital mais próximo. Pelo canto do olho podia ver Sara com aquela expressão de medo estampada no rosto. Tentava evitar cruzar o olhar com o dela, tinha um leve pressentimento do que fizera e não estava tão pouco preparado para a descompustura que ela lhe preparava mentalmente.  Não fora isso mesmo que ele fizera quando resgastou Sara do mar quase sem vida? Ela pensara em desistir, e agora ele próprio tentara acabar com tudo aquilo da forma mais fácil. De forma cobarde. Como se não existisse motivos para continuar a carregar aquele sufoco todos os dias. Mas ao recuperar a consciência viu-a junto de si e soube porque razão o avô não o recebera naquele sonho que ele julgara sonhar enquanto se deixava levar pela maré.
Ainda existia esperança para ele. Ainda existia uma razão para continuar, e essa mesma razão estava ali, apenas separada dele pelo jovem de farda branca que deduziu ser do INEM.
Quantos mais motivos iria encontrar para não olhar Sara nos olhos? Fora fraco? Sim. Cobarde? Sim. Estúpido? Céus, sim! Mas iria esconder-se novamente na sua concha?Não!
- Sara. – Murmurou, retirando a máscara de oxigénio quando entrou nas Urgências do Hospital.
Sara segurou-lhe a mão entre as suas e pousou-lhe um suave beijo na testa.
- Está tudo bem querido. Está tudo bem. – Afagou-lhe o cabelo agora mais crescido do que quando o conheceu e viu-o desaparecer pelo hospital dentro.
Se Salvador estava confuso, Sara nem sequer fazia ideia do que acabara de acontecer na praia, não sabia como digerir tudo aquilo. Queria tanto conversar com ele, tentar perceber o que lhe passara pela cabeça – embora ela já tivesse a resposta – , queria ter a certeza que Salvador estava bem. Sara ainda tremia como varas verdes, mal se aguentava nas pernas e por isso desistiu de andar em círculos na sala de espera,sentando-se. Mas sentar-se não fez os nervos desaparecer, pelo contrário. Estava assustada, não sabia como lidar com Salvador naquele estado. Que poderia ela fazer afinal?  Talvez não bastasse porem a conversa em dia. Não. Ele precisava de uma espécie de terapia de choque, algo que lhe mostrasse que ainda tinha muito pelo que viver e lutar.
Ponderou ligar a Helena mas soube de imediato que isso só iria piorar as coisas. Era óbvio que assim que soubesse que o irmão mais velho teria tentado acabar com a vida, chegaria ali numa questão de horas. Iria preocupá-la e sabia Deus os nervos, a angústia que aquela miúda já carregava. Posto isto, Lucas estava também fora de questão. Não sabia como estaria ele a lidar com toda a situação da morte do avô e seria melhor não se intrometer. Já bastava tudo o que aquele pobre rapaz passara.  Chegou à conclusão que não aviasaria ninguém da família de Salvador, a menos claro, que houvesse complicações ou ele assim o quisesse.
Esperou durante algumas horas que alguém a viesse informar sobre o estado do surfista e quando já estava prestes a saltar da cadeira e atirar-se aos garganetos do primeiro médico que lhe aparecesse à frente, uma mulher baixa, rechochuda nos seus 40 e muitos anos chamou o seu nome.
- Sara Martins?! – Chamou, varrendo a sala de espera com aquele par de olhos minúsculos.
Sara levantou-se num salto como se a cadeira tivesse uma mola.
- Sim?
- Veio com o Salvador Corte-Real?
- Sim. Isso. -  Enrolou os braços em volta do tronco, abraçando-se a si mesma. – Ele…
- O Salvador está bem. – Informou, fazendo sinal para que Sara a seguisse. – Penso que foi uma questão de sorte. Um minuto a mais dentro de água, um minuto a menos de socorro… Teria feito toda a diferença, se me entende. – Continuou, enquanto caminhavam lado a lado pelo corredor.
- Não sei que lhe diga. Nem sei o que aconteceu realmente. – Suspirou. – Dei com a prancha dele à deriva e tentei encontrá-lo. – Olhou em redor. – O Salvador perdeu o avô a algumas semanas, na verdade, tem passado por um Inferno desde a algum tempo. Nem supus que pudesse ter batido com a cabeça ou um acidente qualquer. Ele soltou a braçadeira do tornozelo.
A médica assentiu.
- O hospital dispõe de um acompanhamento por parte de um psicólogo, mas duvido que ele aceite. São raros os casos que aceitam de livre vontade mas pelo menos uma consulta de avaliação ele terá de fazer. Faz parte do regulamento. – Ao chegarem ao quarto onde Salvador estava, apertou o braço de Sara em gesto de força e deixou-a sozinha.
Hesitou por um minuto antes de transpor a porta para o interior. Através do vidro viu Salvador, estava acordado mas o seu olhar pareceu-lhe distante. Se ele precisava de “terapia de choque” iria tê-la.
- Estas férias são para durar muito? – Pigarreou, tentando soar natural.
E pela primeira vez em muito tempo, Salvador sorriu.
- Espero que não. Ouvi dizer que a comida por aqui ainda é pior que uma certa lasanha que comi a algum tempo. – Falava pausadamente, como se estivesse cansado, mas tinha melhor aspecto do que quando Sara o salvara.
A rapariga fingiu uma expressão de choque e deu-lhe um abanão nos pés cobertos pelo cobertor imaculadamente branco.
- Estás…bem? – Quis saber.
- Sinceramente? Tenho quase a certeza que fui atroperado por uma data de comboios uns a seguir aos outros. Tenho umas costelas doridas e um joelho que parece ser do tamanho de uma abóbora… sabes o que é uma abóbora? – Brincou ele.
- Podes vir do campo mas na cidade também sabem o que é uma batata, uma couve e uma abóbora. – Sorriu, sentando-se ao lado dele na cama.
Salvador olhou em redor. – Achas que aqui sabem o que for que não seja peixe? Afinal, estamos numa vila à beira-mar. – Semicerrou os olhos.
- Neste momento estás mais longe da vila do que pensas. Digamos que o hospital “mais próximo” não é tão perto assim. – Fez uma pausa. – Magoei-te não foi?
Salvador demorou a responder.
- O joelho? Provavelmente. Desde a alguns anos que não estava a cem por cento. Deve ter sido um mau jeito mas passa. – A custo, segurou-lhe uma das mãos na sua. – As costelas? Sim. Magoaste-me a sério mas salvaste-me a vida. Que importa? Irão ficar no sítio.
Ele dissera que ela lhe salvara a vida num tom de agradecimento. Como se fosse isso que ele queria.
- Era o que querias realmente, Salvador? Ser salvo? – Acabou a frase e deixou-se inundar pelo silêncio.
Nem pensou duas vezes antes de responder.
- A algumas semanas? Não, não queria. Hoje? Sim, queria. – Pausa. – Era o que eu precisava, mesmo sem saber.    
Precisava que por uma vez na vida, me salvassem, mostrassem que não sou totalmente um caso perdido.
Sara esperou que as palavras certas chegassem. Afastou a mão da dele e simplesmente pediu-lhe:
- Conta-me.
Não era preciso dizer muito mais, ele sabia ao que ela se referia. Não hesitou nem tentou desviar o assunto. Sara colocara as cartas em cima da mesa. Que jogo iria ele jogar?
- Estava na praia a ver-te surfar quando a minha mãe me ligou a contar que ele…o meu avô… tinha…falecido – Fechou os olhos com força e reprimiu a dor. Teria de aprender a falar sobre o assunto mais tarde ou mais cedo. – Sabíamos que estava doente a algum tempo. Não era a primeira vez que tinha tido um tumor e, embora os médicos não nos dessem muita esperança, sempre quisemos acreditar que iria ficar bem outra vez. Quis acreditar nisso. Que um dia aquela…coisa… iria desaparecer e deixá-lo em paz. Mas este foi mais forte que o primeiro, infiltrou-se em sítios onde não podiam fazer nada. – Pausa. – Fez tratamentos mas seria uma questão de tempo. Anos. Meses. Talvez semanas. A última vez que o vi não estava bem mas aguentava-se. Estava tão embrenhado nos meus problemas que nem sequer dei por ele estar a piorar a cada dia. Acho que apenas vemos o que queremos ver. – Fez uma nova pausa para recuprar o fôlego e deixar Sara digerir tudo o que acabava de ouvir. – Quando eu soube… senti-me culpado sabes?
- Mas que culpa tinhas? Era uma doença. Que podias ter feito?  - A sua voz não mostrava nada mais que compreensão. Ela própria carregava um fardo em cima dos ombros e ninguém tinha morrido.
- Não o fui ver, percebes? Andei a adiar voltar a casa nem que fosse apenas um fim-de-semana. Estava tão dedicado em arranjar tudo e mais alguma coisa para manter a cabeça ocupada que nem fui visitar a minha família. Era como se um muro gigantesco se tivesse erguido entre nós depois do que aconteceu com o Hugo. E agora? Nem muro, nem avô. Nada.
- Não digas isso. – Aproximou-se dele, obrigando-o a olhá-la nos olhos. – Tens mais do que julgas.  Escuta o que eu digo.
- Até hoje de manhã eu não pensava assim. Não durmo à não sei quantas noites, quanto tempo um humano consegue manter-se são sem dormir decentemente? – Esfregou os olhos, dando mostras de cansaço prolongado. – Não estou maluco, credo…
- Ninguém disse que estás doido Salvador. Mas aviso-te que a médica que está a acompanhar-te vai colocar-te numa sessão de avaliação com o psicólogo do hospital. Diz ser parte do regulamento. – Deu-lhe um abanão quando o viu preparar-se para protestar. – Aí sim serias doido varrido se recusasses ajuda de alguém que te pode ajudar realmente.
- Deitar-me num sofá e falar sobre a minha vida com um desconhecido? Prefiro falar contigo, por exemplo.  – Sorriu.
- Tudo bem. Podes conversar comigo seja a que horas for…depois de o psicólogo te avaliar e deixar bem assente que não tens bichinhos suicídas aí dentro. – Sorriu e beliscou-lhe a bochecha.
Salvador suspirou, contrafeito. Mas que podia fazer? Sara era mais teimosa que Helena. Ora no que ele se tinha metido.
- Sabes que não és a minha irmã não sabes?
- Sei. E consigo ser bem pior que ela, acredita. Por exemplo, não lhe liguei a dizer que o seu querido irmão mais velho estava no hospital por se armar em Deus do Mar. Isto quer dizer que posso atezanar-te o juízo sozinha.
Ele semicerrou os olhos desconfiado mas acabou por sorrir uma vez mais.
- Sabes que a única qualidade que tens, excepto seres surfista é esse par de pernas? – Começou a corar ao ouvir-se a si próprio. Nunca fora tão arrojado com Sara. Nem mesmo quando após surfarem juntos ela ficara em bikini a uma curta distância. – E esses olhos que me querem fuzilar neste exato momento – desfez o sorriso e com a mão, percorreu o seu rosto, deslizando o dedo pelos seus lábios. – E esse sorriso lindo que ilumina a vila inteira.
Sara sentiu as bochechas a arder e as lágrimas a toldarem-lhe a visão. Quanto valeria o que acabara de ouvir? Salvador estava a jogar o seu jogo, era a sua vez de jogar. Brindou-o com um sorriso envergonhado e aproximou-se dele. Quando os lábios de ambos se tocaram, tão suavemente e em simultâneo tão famintos, uma nova chama se acendeu e desta vez nem um nem outro estaria disposto a deixá-la extinguir-se.
- Podes ter este sorriso, estes olhos, estas pernas e tudo o que quiseres pelo resto da vida se te portares bem.- Disse ela, esfregando o nariz no dele.
- Posso mesmo? – Quis saber.
Ela assentiu.
-Podes. Mas antes, tenho algumas coisas para contar.
Estava a um passo de lhe confessar tudo, mesmo tudo, desde o porquê da vinda dela para a pequena vila à beira mar, quando a médica entrou no quarto acompanhada por um jovem alto e bem parecido que ela deduzira ser o psicólogo.

- Mais tarde. – Sussurrou, dando-lhe um beijo suave nos lábios.

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