Tudo o Que Sempre Quis || Cap.14 || Pt.2

                                      ⚓
Ainda que contrafeito, Salvador aceitara ser acompanhado pelo psicólogo do hospital durante algumas semanas apenas. Sabia que Sara ficaria satisfeita com essa decisão e para mais, que mal lhe poderia fazer? Não fizera bem a Lucas ser devidamente acompanhado depois de tudo pelo que passou? Sobretudo, queria fazê-lo também por si mesmo, não querendo voltar a correr o risco de se deixar levar novamente pela dor.
A ideia não lhe agradava muito mas faria um esforço.  Assim estava decidido. Seria o melhor para si e para todos.
Estava de pé junto à janela do quarto de hospital enquanto esperava que o médico regressasse. Tinha feito exames naquela manhã e esperava ter autorização para regressar a casa naquele mesmo dia. O joelho ainda estava um pouco dorido mas acabaria por desinchar e deixar aquele aspecto de abóbora como ele próprio dizia, já as costelas magoadas estavam a melhorar ao seu tempo. Por vezes custava-lhe a respirar devido à dor mas só o facto de estar vivo e respirar já era um bom sinal.
Como pudera pensar sequer em desistir de tudo? Da sua vida. Da sua família. De Sara. Da sua casa. Do que com tanto esforço construíra naquela pequena vila à beira mar que agora era o seu lar. Estava tão cego pela dor da perda do avô que não pensou em mais nada a não ser acabar com o desespero de um futuro em que o seu companheiro não iria estar.  Colocou as mãos nos bolsos das calças de fato treino cinzentas que tinha vestidas e endireitou-se fitando o horizonte. Que egoísta tinha sido naquele dia. O que seria dos irmãos se ele… morresse? Pior. Que seria dos irmãos ao saberem que ele teria morrido por cobardia?
Também eles estavam a sofrer. A mãe e a avó também estavam a sofrer. Como filho mais velho não era suposto ser ele o pilar daqueles que amava? Não deveria ser um exemplo para os irmãos mais novos?
No passado, Lucas estivera entre a vida e a morte, e sim, pensou e implorou que acabassem com aquele sofrimento mas no final não se ergueu das cinzas indo contra tudo e contra todos? Reencontrara Mafalda e seriam pais.
Sorriu. Iria ser tio. Bolas! Iria ser tio! Como não se lembrou disso? Como se deixou ofuscar pela escuridão daquela forma que nem se recordava que o irmão iria ser pai dentro de meses? O seu irmãozinho iria ser pai.
- Posso? – Ouviu uma voz perguntar atrás de si.  Mesmo sem se voltar, através do vidro viu o reflexo de Sara que acabara de entrar no quarto. – Bati à porta mas como não respondes-te…
- Vou ser tio! – Exclamou, sem tirar aquele sorriso rasgado do rosto. Pela primeira vez em muito tempo, Salvador estava realmente feliz. Como se através de um impulso lhe tivessem dado uma nova perspectiva do que a vida lhe reservava. – Podes imaginar-me como tio? – Pegou em Sara e abraçou-a, esquecendo-se das costelas que ainda martelavam de dor de vez em quando.
Sara não conseguiu esconder o quanto lhe agradava ver Salvador tão animado e sorridente.
- Ouvi dizer. – Declarou, emoldurando-lhe o rosto com ambas as mãos. – Estás feliz?
Salvador baixou os olhos. – Muito. – Pausa. – Muito feliz, mesmo. – Pegou-lhe nas mãos – Como pude esquecer isto? Como pude esquecer que vou ser tio dentro de poucos meses? – As lágrimas ameaçavam assomar-lhe aos olhos.
Sara rodeou-lhe a cintura com os braços. – Estavas muito triste. Não te martirizes, sim? – Obrigou-o a olhá-la nos olhos. – OK?
Salvador acedeu.  O médico acabara de entrar no quarto com uma data de papelada em mãos. 
- Ora bem amigo – começou – os teus exames não estão perfeitos mas estão no bom caminho para isso. Precisarás de ter cuidado com essas costelas e repousar o joelho mais alguns dias. Nada de surf nas próximas semanas, combinado? – Ergueu o sobrolho, na dúvida que aquele rapaz alguma vez seguiria o que acabara de lhe dizer – Melhor, vou agendar uma consulta para daqui a uma semana para verificar-mos se está tudo dentro dos parâmetros normais.
- Levará muito tempo? – Quis saber Salvador, impaciente.
Sara antecipou-se.
- Não se preocupe doutor, ficarei de olho nele e farei com que tenha juízo até à consulta. – Olhou de soslaio para o rapaz. – Certo?

Ele suspirou. Como ficaria quieto durante uma semana? Sem surfar, sem qualquer esforço, nada de nada? Vendo pelo lado positivo, seria como uma semana de férias, a questão é que, se tivesse uma semana de férias iria surfar até a pele lhe engelhar. Iria aproveitar o tempo debaixo do capô do seu velho Carocha e talvez pudesse visitar então Helena, ter a certeza que Martim não lhe fizera estragos, e talvez até fosse conhecer a casa de Lucas, passar algum tempo com o irmão, a cunhada e o seu pequeno sobrinho – ou sobrinha – para que soubesse que o tio estava à sua espera.
Por momentos viajou para longe sem sair do quarto de hospital.
Iria ser o melhor tio do mundo. O tio preferido, o tio maluco que iria ensinar as coisas boas da vida como o Surf, por exemplo. Iria ser género de tio que sobretudo é um melhor amigo, aquele que faz as vontades todas que os pais não fazem, aquele que deixa ver televisão até tarde e comer todas as porcarias que por norma não podem comer.
Bolas! Quanto tempo ao certo faltaria para a criança nascer? Quase se sentia em pulgas por esse momento.
- Tudo bem. Aceito todas as condições. – Declarou, regressando a si.
- É inevitável Salvador. Se queres ficar bem tem de ser assim. Sei que vai ser complicado para um rapaz como tu ficar condicionado, mas vê pelo lado bom, será apenas uns dias.
- Tudo bem. Combinado. Palavra de surfista. Agora, já posso ir embora? – Estava tão farto daquele cheiro típico de hospital que mal podia esperar por respirar ar puro, aquele que vem do mar e cheira a sal.
O médico acedeu, retendo Sara quando Salvador pegou na mochila e saiu do quarto como quem leva fogo no rabo.
- Fica de olho nele. Já tive esta idade e sei que o mais provável é ele não fazer nada do que eu disse. – Pediu.
- Fica descansado tio. E... obrigado por vires. – Agradeceu, com um beijo na face. – Sabes que és o único médico em quem confio cegamente.
Ele sorriu, enfiando as mãos nos bolsos da bata branca.
- A Inês está linda. Tem crescido tanto. Devias regressar a casa por um tempo. Sara, escuta-me. – Pediu, ao ver a sobrinha pronta a protestar. – Eu sei as tuas razãos e talvez sejam as mais acertadas mas tens de voltar. Ela precisa de ti. – Fez uma pausa. – Confias neste rapaz? No Salvador?
Sara ponderou por um segundo. Algumas imagens que ela dispensava, invandiram-lhe a mente, como quando ele espancara aquele rapaz quase até à morte. Fazia parte do passado, era um assunto mais que resolvido mas não esquecido, pelo menos não na totalidade.
- Sim, confio. – Respondeu, encarando o tio.
- O suficiente?- Quis saber.
- Era capaz de lhe confiar a minha vida. – Admitiu, com um sorriso tímido mas apaixonado.
- Então conta-lhe. Irá ajudar-te a resolver os teus assuntos, a seguir em frente. Precisas disso. Sei que não queres mas conta-lhe. Faz esse favor a ti mesma. Por uma vez na vida, permite-te ser feliz, miúda.
Sara soltou uma gargalhada.
- Que sabes tu sobre o amor? Não fosses tu o meu tio predilecto, que por sinal é um solteirão. – Dirigiu-se para a porta, acenando-lhe. – Mas irei pensar nisso.
Enquanto percorria o corredor, Sara chegara à conclusão que o tio estava certo. Não tinha sido já uma opção contar a Salvador a verdade? Claro que sim. Mais que uma vez. E naquele dia que o resgatara da morte, quando o visitara no hospital, queria contar-lhe. Sabia que o tinha de fazer mais cedo ou mais tarde mas nunca parecia ser o momento certo. Talvez nunca fosse existir um momento certo.
- Então? Perdeste-te? – Perguntou Salvador, despertando-a dos seus pensamentos.
Sara sorriu, procurando a mão dele.
- Posso levar-te a visitar os teus irmãos. Se quiseres, claro. – Surgeriu.
Ele apertou-lhe a mão levemente enquanto se encaminhavam para a saída do hospital.
- Sabes que quero. – Sorriu, observando-a pelo canto do olho.
- Talvez pudéssemos fazer um pequeno desvio pela costa alentejana.
- Nada contra. A motorista é que manda. Mas… que tens por aqueles lados? Amigos? Família? – Quis saber, testando-a. Sara pouco ou nada lhe revelara sobre a sua vida desde que se conheceram há cerca de um ano naquele início de manhã na praia.

- Verás quando lá chegarmos. – Abriu-lhe a porta do carro, ajudando-o a entrar com cuidado – Faça favor, monsieur
                                      ⚓

Share This Article:

CONVERSATION

2 comentários :