Tudo o Que Sempre Quis || Cap.4 || Pt.3

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- Mas o que é que tens afinal? Andas com esse humor de cão quase há uma semana. – Resmungou Martim.
- Não tenho nada. – Respondeu Helena, nunca se esquecendo da cena que assistiu durante a prova de surf.
- Pois, pois. Até parece.
Será que ele era assim tão burro ao ponto de se esquecer do que fizera? Só provava que realmente era um mulherengo sem noção do que fazia, nem se importava com os outros.
- Bolas, não tenho nada. Deixa-me em paz. – Gritou, enquanto andava de um lado para o outro tentando livrar-se dele.
- Na prova desapareceste com o teu irmão do nada. Desde aí andas com esse feitiozinho … vai lá vai. – Começava a não achar graça ao humor de Helena. Ali havia coisa, havia.
- Não tens nada que fazer? Caramba!
Martim instalou-se no sofá de Salvador, irritando-a ainda mais.
- Nem por isso. Estou à espera do teu irmão.
- Que seja. – Helena virou-lhe costas, batendo com a porta do quarto.
Em cima da cama passou pela fase de irritação para a de raiva, do desespero para as lágrimas. Acalmando-se por fim quando ouviu a porta do apartamento fechar. Estava sozinha. Ou assim julgava.

- Meu, a tua irmã anda com um humor do caraças. Deve andar naquela altura do mês em que todas as gajas são insuportáveis. – Resmungava Martim aos ouvidos do amigo.
- Puto! Vê lá a língua. Estás a falar da minha irmã.
- Está bem. Está bem. – Assentiu, com um encolher de ombros – Afinal o que querias falar comigo?
            Salvador parou, encarando-o.
- Preciso de um favor. Dos grandes.
- Hmm? Desembucha. Não estás à espera que adivinhe pois não?
- Daqueles que têm quatro rodas.
Martim estava confuso. Ao início da tarde de um Domingo era ainda cedo para pôr o seu cérebro a funcionar.
- Bolas pá. És mesmo lerdo. Preciso do teu carro se mo puderes emprestar para ir a casa no Natal. – Disparou Salvador.
- Não podias ter dito logo?
Ao ver o olhar fulminante do amigo, continuou:
- Não há problema. É na boa. Vais passar o Natal com a tua mãe? – Quis saber.
            Assentiu. – E na volta deixo lá a minha irmã. Junto o útil ao agradável. Em vez de ir no autocarro.
- Espera aí! A tua irmã vai-se embora? – Os alarmes soaram na cabeça de Martim.
- Como se estivesse a dar-te uma novidade. A miúda tem aulas, não te esqueças.
- Pensava que ficaria mais tempo.- Disse em voz tão baixa que Salvador mal o ouviu.
- No teu lugar teria uma conversa com ela. Puseste o pé na argola. – Durante todos aqueles dias evitara meter-se no assunto, afinal era entre Helena e Martim mas aquilo andava ali a queimar-lhe a garganta.
- O que fiz agora? – Resmungou, pensativo.
- És mais lerdo do que pensei. Junta dois mais dois. Mas não demores a fazer a conta que pode ser tarde. Ainda mais. – Declarou, apressando o passo escada abaixo, voltando a sair.
- Ei. Espera aí. Onde é que vais? – Quis saber, seguindo-o.
- Vou buscar a minha miúda! – Exclamou, piscando-lhe o olho.
Essa era nova. A miúda dele? A rapariga que ele tirara da água? Como se chamava mesmo? Sara? Sim, isso mesmo! Era jeitosa, sim senhora. Não via muito o amigo desde esse dia e pelos vistos tinha muito a explicar. Pô-lo-ia a desbobinar mais tarde, agora teria de se preocupar com Helena e tentar arrancar-lhe alguma coisa.
Era teimosa, tal e qual o seu irmão. Com Salvador entendia-se ao murro e à chapada mas com ela… era uma guerra que ele jamais venceria. Era capaz de o desancar antes de o pôr a bater em retirada.
- Não deve ser mais cabeça dura que eu. – Murmurou, esfregando as mãos uma na outra.
Pensou voltar ao apartamento do amigo mas seria arriscado demais. Não tencionava falar com ela no auge de toda a sua fúria, e Deus sabia como eram as miúdas quando perdiam as estribeiras. Pior que o murro e chapada era as unhas afiadas. O som do telemóvel a tocar dentro do bolso do casaco interrompeu-lhe os pensamentos. O ecrã anunciava o nome de Eva juntamente com a foto que adicionara ao contacto. Era uma bela rapariga. Bonita como o raio, com aquele sorriso branco e as covas nas bochechas. Uma doçura e ele adorava-a. Orgulhava-se dela.
- Ei! – Saudou, ainda meio perdido nos seus pensamentos.
- Olá jeitoso. Está tudo bem? Pareces distraído. – Quis saber Eva, notando-o ausente.
- Hmm. Não é nada. Só me apanhas-te desprevenido. – Respondeu.
- Estás disponível para ir beber um café? – Convidou ela do outro lado.
- Sim. Pode ser, claro. – Respondeu Martim. – Encontramo-nos no café do costume daqui a dez minutos?
- Tudo bem. Até já!
Desligou e voltou a arrumar o telemóvel no bolso.
Eva chegou ao café quando ele já se encontrava na esplanada coberta com vista para o mar.
- Estás um farrapo pá. – Resmungou Eva, ao olhar bem para ele. – Andas outra vez em noitadas?
Martim levantou-se para a cumprimentar.
- Antes fosse. Deixei-me dessa vida, bem sabes. Estive no turno da noite ontem. E não dormi lá grande coisa. – Respondeu, instalando-se novamente na cadeira.
Após pedirem dois cafés Eva questionou-o:
- O que anda aí?
Martim colocou a mão sobre a dela, sem notar Helena que atrás de si assistia a toda a cena, reconhecendo a rapariga que se pendurara ao seu pescoço durante a prova de surf. Saiu do café à velocidade da luz. Não. Não voltaria a chorar por aquele estupor. Nunca. Jamais. Tentava convencer-se disso mesmo enquanto descia para a marginal. Não voltaria a deixar que ele a magoasse. Nunca mais.
Aquele Martim estava enterrado para ela. De vez.

- Um sarilho dos grandes. – Na esplanada Martim, respondia à questão de Eva.
- Vindo de ti, não me surpreende. – Disse, sorrindo.
- Desta vez é mesmo dos grandes.
- Corres perigo de vida? – Eva levava a coisa para a brincadeira.
- Posso dizer que sim, se contar o facto do irmão dela ser o meu melhor amigo, e que ameaçou deixar-me em alto mar. – Confessou, corando.
- O irmão dela? Espera aí, não estou a perceber nada. – Eva sacudia a cabeça, confusa.
- Parece que estou apaixonado por uma miúda que me anda a dar cabo da cabeça.
            Eva aproximou-se mais de Martim, pondo um ar sério.

- Quem te viu e quem te vê, priminho.

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1 comentários :

  1. «Priminho», esta matou-me agora! É incrível como somos atraiçoados por aquilo que vemos, uma vez que, muitas vezes, não corresponde ao que estamos a pensar.
    Muito bom*

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