Tudo o Que Sempre Quis || Cap.5 || Pt.1



«Atiramos o passado ao abismo,
Mas não nos inclinamos para ser se está bem morto.
- William Shakespeare.»

No caminho de regresso a casa, Salvador estava nervoso. Andasse por onde andasse, jamais deixaria a mãe passar a época natalícia sem eles. Na sua cabeça, nenhuma mãe deveria estar longe dos filhos, tal como nenhum filho deveria estar longe da mãe, contudo, ele fora obrigado a partir para a proteger e proteger-se a si mesmo.
Da janela do carro viu a imensidão verde dos campos, que ainda se recordara, em vez do imenso azul a que se habituara no último ano.
- Estás calado demais, mano. – Constatou Helena, ao vê-lo tamborilar os dedos no volante.
- Estava a pensar.- Respondeu, focando-se de novo na estrada.
- Posso imaginar o que vai dentro dessa cabecinha. – Disse – Mas não estejas nervoso. Vai correr tudo bem.

Salvador olhou de relance para a irmã. Durante todos aqueles meses ela não fazia sequer ideia da forma como ele vivia. Antes de ela chegar àquela que agora era a sua casa, fazia questão de verificar todas as portas e janelas antes de sair e ao regressar. Vivia a olhar constantemente por cima do ombro. Contudo, agora estava mais forte do que quando saíra de casa. Estava preparado. Treinara para isso e bem sabia do que era capaz se fosse necessário.
- A Sara já chegou a casa? – Quis saber Helena.
- Sim. Recebi uma mensagem dela a dizer que estava bem. – Respondeu.
Tudo se resumia a isso. A Sara. À sua nova vida longe de casa. Aos fantasmas do passado. Tudo isso estava interligado. Uma coisa levara a outra, levara-o àquele momento em que estava prestes a regressar àquele que tinha sido o seu lar durante a maior parte da sua vida. Os pneus chiaram ao fazer a curva para a propriedade dos avós. Estacionou o carro de Martim em frente à garagem onde outrora os pais estacionavam os seus carros.
- Parece tudo tão… abandonado. – Disse Helena, olhando em redor.
Salvador saiu do carro, deixando-se ficar com o braço apoiado na porta. Não se sentia em casa. Contornou o carro e entrou na garagem. Vasculhou por entre algumas pilhas de coisas sem importância até que vislumbrou a sua mota coberta por uma lona cheia de pó.
- Ainda cá está. – Murmurou – deslizando os dedos pelos punhos do guiador.
            Teria de arranjar forma de a levar consigo. Precisava de um meio de transporte seu que não fosse uma bicicleta que comprara em segunda mão. Até conseguir o suficiente para um carro teria a sua mota, a sua velha amiga. Procurou a chave por todos os cantos até que a encontrou escondida dentro da mala de ferramentas que era do pai.
Helena encontrava-se ao portão da garagem em silêncio quando Salvador soltou uma gargalhada bastante sonora quando o motor roncou.
- Queres dar uma volta maninha? Em nome dos velhos tempos. – Desafiou, colocando-se em cima da mota com destreza.
- Parece-me bem. Vou lá dentro buscar os capacetes. – Aceitou, sem demoras.
Salvador levou a mota para o exterior, como sempre fizera, apoiando-a no descanso lateral. Estava coberta de pó, o que implicaria uma limpeza a fundo até chegar ao motor. Mas isso ficaria para depois.
Estranhando a demora da irmã decidiu segui-la.
Definitivamente não estava em casa, pensou, ao transpor o pequeno portão enferrujado do jardim. As ervas cresciam livremente, a água da piscina estava verde e coberta de folhas entre outras coisas. As flores que a mãe sempre cuidara com carinho secaram, restando apenas uns troncos castanhos e quebradiços.
- Helena onde é que te enfiaste? – Chamou, apressando o passo.
A tinta da casa era agora de um tom desmaiado, coberto de musgo e teias de aranha. Decidiu entrar ainda que contrariado e, ao transpor a porta, foi invadido por uma avalanche de recordações, umas boas outras nem por isso. A garganta ficou seca e custava-lhe a respirar.
Outrora, aquela fora a sua casa.
- Helena? – Voltou a chamar, retomando o controlo.
Seguiu as luzes acesas o que o levou à sala de estar. A irmã encontrava-se completamente imóvel. Nas mãos segurava uma moldura, que ao chegar mais perto, pôde ver a foto de família, nos raros momentos em que eram uma família feliz. De repente um mar de emoções invadiu a sua mente e o seu coração.
- Helena. É melhor irmos embora. – Disse, em murmúrio, como se as paredes tivessem ouvidos.
- Ainda não. – Contrapôs, erguendo o olhar.
- Não há nada aqui para vermos. Nada de bom. Vamos embora. – Insistiu.
Ela não lhe respondeu, dirigindo-se às outras divisões da casa.
Passou pelo quarto dos pais, apanhando algumas coisas caídas…partidas. Quando entrou no quarto dos irmãos recordou-se das brincadeiras, das zangas… recordou-se do derradeiro dia.
A cama de Salvador permanecia desfeita, tal como a deixara quando saíra de casa. O rapaz não resistiu a seguir a irmã até ao seu antigo quarto, onde os seus livros permaneciam na estante, tal como ele e o irmão os arrumaram. Ambos adoravam ler, assim como Helena. Uma pilha de revistas de surf e motocross jaziam espalhadas pelo chão.
- Parece ter sido ontem. – Murmurou, apanhando as revistas, voltando a colocá-las num monte.
- Já foi há tanto tempo – Respondeu Helena, passando os dedos pela secretária dos irmãos.
- Há coisas que tenciono levar. Já que aqui estou.
- Acho que o Lucas também deveria cá vir. Resolver o que há para resolver para encerrar isto de uma vez. – Declarou ela, segurando uma fotografia já gasta dos três.
- Não tenho a certeza se ele se importa com o que aqui tem.
- Acho que se importa. – Constatou ela, retirando a mala da guitarra do irmão de debaixo da cama.

Salvador sentou-se na sua antiga cama e a irmã deixou-o sozinho entregue aos seus pensamentos. Não estava em casa. Ali, nunca mais estaria em casa.

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