Tudo o Que Sempre Quis || Cap.5 || Pt.2

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- Vá, vamos lá dar então aquele passeio de mota. – Refilou Helena, entrando novamente no quarto dos irmãos com os capacetes na mão.
- Acho que seria melhor ficar para outro dia. – Respondeu, sem ânimo.
- É que nem te atrevas! – Resmungou, entregando-lhe o capacete.
Salvador cedeu. Era impossível ganhar uma batalha que fosse com a irmã.
- Está bem. – Resmungou. – Foste ao teu quarto? – Quis saber, medindo as palavras.
Demorou a responder. – Sim. – Foi tudo o que disse.
Talvez, mais do que os irmãos, Helena tencionava levar tudo o conseguisse para nunca mais lá regressar. Queria enterrar o passado bem fundo. Fundo o suficiente para que nunca mais emergisse. Era tudo o que ela queria. Tudo o que precisava para voltar a ser feliz.
- Não devíamos ir ali aos avós dizer olá? – Disse o rapaz, voltando a cabeça na direção da casa deles.
Ainda que contrariada, Helena assentiu mas para sua sorte, a casa estava vazia. Os avós tinham saído. Perfeito. Melhor ainda.
- Eles não têm culpa. – Declarou ele, lendo-lhe os pensamentos.
- Culpa de quê? De não nos terem ajudado quando precisámos? – Helena explodiu de fúria. Todos os sentimentos que guardara dentro de si vinham à tona como um furacão.
Salvador abraçou a irmã com força, impedindo-a de sair a correr. Era a única coisa que a acalmaria. Mesmo contrariada, Helena deixou-se cair nos braços do irmão.
- Vamos lá então pôr esta coisa a andar. – Disse, olhando por cima da cabeça da irmã para a sua mota. Esfregou os braços de Helena com a palma das suas mãos.
A rapariga limpou as lágrimas e colocou um sorriso nos lábios, ainda que a custo.
- Ver se ainda sabes andar nisto, maninho. – Brincou, saltando para cima da mota.
O motor roncou, arrancando de seguida. Salvador levantou a roda da frente fazendo Helena apertá-lo ainda mais.
- Quero chegar inteira ao Natal! – Gritou ela, enquanto a mota saía da propriedade a toda a velocidade.
Atrás deles existia uma nuvem de pó que cobria a visão daquela que fora a casa deles.

Salvador já não se recordava da sensação de liberdade que sentia ao andar de mota, deixara o motocross anos antes mas nunca a vendera. Jamais faria isso. Quando entrou na garagem, fazia figas para que ainda lá estivesse, e lá estava, à sua espera. Teria de investir um pouco nela, começando por uma limpeza e uma revisão mas isso era um aparte. Voaram pelas estradas de terra batida como nos velhos tempos, regressando pouco tempo depois não fosse o diabo tecê-las e ficarem a pé. Sabia Deus a sujidade que estava dentro daquele motor.
- Foi demais mano! – Exclamou Helena, satisfeita.
Salvador tirou o capacete, respirando fundo.
- Soube tão bem. – Confessou, mais tranquilo.
- É melhor irmos embora a mãe está a nossa espera. – Informou ela. – Vais levá-la? – Perguntou.
- Não agora. Mas tenciono levar quando voltar para casa - fez uma pausa - Para a minha verdadeira casa.
Helena baixou os olhos. Ele tinha razão. Também ela não se sentia ali em casa. Conduziu a mota para dentro da garagem e voltou a tapá-la com a lona. Aprendera a viver sem a adrenalina da velocidade, encontrando satisfação no surf. Mas a sua mota era outra história, desta vez não a deixaria para trás.
Helena estava certa. Teriam de ali voltar e levar o que fosse deles para encerrar o assunto. Fechá-lo a sete chaves. Difícil seria convencer Lucas. O derradeiro dia em que tudo terminara tinha-lhe custado caro. Demasiado caro. Lembrava-se do irmão como ele era, rebelde, vivaço. Tinha sempre energia para dar e vender, nunca parava quieto a não ser quando adoecia ou se lesionava em algum desporto maluco. Mas o Lucas de agora já não seria assim.
- Achas que ele vai lá estar? – Perguntou Helena quando entraram no carro, adivinhando-lhe os pensamentos.
Salvador pôs o cinto. – Gostava que isso acontecesse, mas não sei.
Deu à chave, tirou o carro do estacionamento e conduziu para longe da propriedade. Gostaria também de conduzir para longe do passado que os perseguia todos os dias, onde quer que fossem.
No caminho até casa da avó materna, aquela que ainda se preocupava com ele e com os irmãos, Sara invadiu-lhe os pensamentos. Sentia-se até um tanto culpado por ainda não lhe ter revelado a vida que antes levava. Um dia, quando estivesse preparado para enfrentar essas malditas recordações, contar-lhe-ia. Sorriu ao imaginá-la em casa com a família a celebrar a época, mas o sorriu desvaneceu-se encarando a verdade. Sara voltara a partir com a promessa que um dia voltaria para ele, desta vez para sempre, apenas não sabia quando.
- Eu irei voltar. Voltei uma vez e voltarei outra, mas quero que seja para sempre. – Dissera ela.
- Mas o que se passa? – Perguntou ele, tentando perceber.
- Só preciso de resolver uns assuntos que tenho pendentes há demasiado tempo Salvador. – Explicou ela.
- Eu posso ajudar-te no que for preciso mas não te vás embora. – Quase lhe implorara para ficar. Para ficar perto dele, com ele.
O coração partiu-se-lhe.
- Não posso Salvador. Não enquanto não resolver isto. Não é seguro para ninguém, nem para ti.
A imagem dela com a família à lareira desaparecera. Deixando a dúvida se ela estaria bem e de assuntos precisava de resolver. Assuntos esses que não lhe pôde explicar. Estaria ela em sarilhos? Na verdade, nunca lhe contara porque desaparecera antes sem mais nem menos. Estaria envolvida com as pessoas erradas?
Também Sara tinha os seus fantasmas que ateimavam em persegui-la fosse para onde fosse. Fantasmas, esses que não iriam desistir sem mais nem menos, estando até dispostos a magoar quem ela mais gostava. Não arriscaria a vida de Salvador nem tão pouco da irmã dele, quem adorara conhecer. Pensar que a confundiu como namorada de Salvador… ridículo, e agora ria-se disso, contudo na altura não tivera qualquer graça.
- Achas que algum dia voltaremos a ter uma vida normal? Digo, todos nós? – Helena quebrou o silêncio, despertando o irmão.
Salvador olhou-a de relance.

- Espero que sim. – Foi tudo o que disse.

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