Tudo o Que Sempre Quis || Cap.5 || Pt.3

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O nervosismo deu lugar à ansiedade, que deu lugar às lágrimas. Salvador correu escada acima até ao apartamento da avó, com Helena atrás de si. No topo das escadas duas figuras femininas os esperavam. Abraçou-as sem se conter mais.
- Meu filhote! – Murmurou a mãe, apertando-o nos seus braços como fazia quando ele ainda era uma criança. – Meu menino!
- Está tudo bem, mãe. – Era tudo o que ele dizia.
Visitara a mãe algumas vezes, mas não as suficientes. A Dª Alzira, demasiado comovida para dizer o que fosse, abraçou os netos. Helena estava regularmente ali por casa mas Salvador nem por isso.
- Estás um homem. – Disse ela, apreciando o neto mais velho.
- A água do mar faz maravilhas – brincou, enquanto limpava os olhos chorosos.
Ali, era outra casa repleta de recordações, mas desta vez eram boas por isso, ao transpor o hall de entrada, apressou-se na direção da sala de estar onde adivinhava estar o seu melhor amigo, companheiro de aventuras, o seu avô. O seu segundo pai.
Ao ver o neto, António olhou-o por cima dos óculos, como sempre fizera. Pousou o jornal e levantou-se a custo para o abraçar.
- Meu rapaz! – Saudou ele, apertando os ombros de Salvador.
- Como estás avô?- Quis saber.
António olhou para a outra ponta da sala. Três gerações ali estavam à porta. Avó, mãe e filha. As três mulheres da vida dele.
- Estou rijo e valente, pronto a dar ao dente. – Respondeu alegre, quando Helena o abraçou.
- Conta-me lá as novidades. – Pediu Margarida, a mãe. Sentou-se no sofá ao lado dos filhos, ainda chorosa.
- Vá Salvador, conta lá aqui à malta as aventuras em que te meteste por lá. – Helena juntava mais lenha à fogueira.
- Não te metes-te em sarilhos pois não? – Quis saber o avô.
Salvador sorriu.
- Arranjei uma casa, como disse na outra vez quando lhes liguei. Tenho emprego, ando a juntar dinheiro para um carro. Fiz novos amigos – fez uma pausa – o Martim, um dos meus melhores amigos, é uma verdadeira peça. O sarilho em pessoa. – Olhou para a irmã – Mas consegui pô-lo nos eixos.
Helena engasgou-se com a própria saliva.
- Hmm maninha queres dizer algo?
- Não, não. Continua.
- Bem… é tanta coisa para contar que não sei como começar.
A D.ª Alzira regressou da cozinha.
 - Estás magrinho, não tens comido nada com jeito, estou mesmo a ver.
- Oh , não digas isso que ainda não viste o teu neto na cozinha. Estava a ver que voltava de lá a rebolar.
Todos ergueram as sobrancelhas e várias exclamações se fizeram ouvir.
- Parece que sim. – Disse Salvador, envergonhado.
- Ah e conheceu por lá uma miúda. Surfista e tudo. Pacote completo. – Anunciou Helena, perante o olhar fulminante do irmão.
- Ai sim? Essa é nova. – Disse Margarida, recordando-se que era uma novidade que ainda desconhecia, embora falasse com o filho ao telemóvel regularmente.
- Ainda nos estamos a conhecer, por isso é que ainda não tinha dito nada sobre o assunto. Quero levar as coisas com calma.
- Conta lá como é que ela se chama. - Pediu António, curioso.
- Sara. Chama-se Sara e bate-me no surf com uma pinta tonta.
Salvador continuou a onda de revelações, histórias e novidades durante o jantar sendo interrompido por Helena ocasionalmente quando ela achava que escapava algum pormenor importante ao irmão. Para ela, todos os detalhes contavam.
- Como eu já tinha saudades dos vossos cozinhados. – Confessou Salvador pondo os braços sobre os ombros da mãe e da avó.

Naquela noite, após os avós adormecerem, Salvador reuniu a irmã e a mãe na sala de estar.
- Mãe, hmm, queria falar contigo sobre uma coisa mas não sei se devo. – Começou Salvador, pousando a caneca do chocolate quente na mesinha de sala.
- Sabes que podes falar comigo sobre o que seja, isso nunca mudou. – Respondeu, pegando-lhe na mão.
Salvador e Helena entreolharam-se.
- Antes de virmos para aqui… bom, fomos até… ao sítio onde costumávamos morar – faltando-lhe palavra melhor.
Margarida mexeu-se no sofá, inquieta.
- Os avós não estavam lá - apressou Helena a esclarecer, como se fizesse diferença.
- Seja como for, tínhamos de lá ir. Só podemos seguir em frente se esquecermos o passado. Digo eu.
Um silêncio aterrador instalou-se entre os três.
- Nada daquele lugar significa alguma coisa para mim. – A voz de Margarida era agora amarga.
- Nem para nós, mãe. – Confessou ele – Para ser sincero, sinto-me melhor em minha casa do que ali. Mas sei lá, mexeu comigo ver o estado em que as coisas estão.
- Ficou praticamente tudo como ele as deixou. – Resmungou Margarida com a mágoa na voz. – Não tenciono lá voltar muito menos para arrumar ou limpar o que seja.
- Mãe, não te pediríamos uma coisa dessas. – Disse Helena, tomando o lugar ao lado dela.
- Não me importo de vocês lá irem, se for isso que querem, estão no vosso direito.
- Mãe, deixa-me terminar de falar. – Pediu Salvador – Não quero nada daquele sítio a não ser o que me pertence. Ou seja, as minhas coisas. Nada mesmo. Só distância. Mas também não vou deixar para trás o que é meu, outra vez. Tenciono levar a mota quando regressar a casa e tudo o que conseguir.
- Aquele lugar também nos traz recordações que queremos esquecer mãe, mas o mano tem razão. São as nossas coisas. – Helena exaltara-se com a avalanche de recordações que lhe trespassava a mente.
Margarida suspirou. – Vocês têm razão. São as vossas coisas.
- Mãe, quanto a outro assunto. – Começou o rapaz, medindo as palavras – Sei que tu e os avós preferiam que eu ficasse por cá mas não posso. A minha vida agora é lá, tenho uma casa, um emprego. Mas serão sempre bem-vindos, já sabes.
- Filhote, não te pediria para largares a vida que tanto esforço fizeste para construir para voltares para cá. Não digo que seja fácil para mim ter os meus filhos longe mas sei que isso é o melhor para vocês. Têm a vossa vida, já não dependem de mim. – Margarida abraçou-os.
- Iremos sempre depender de ti, mãe. – Admitiu Salvador, rodeando a mãe com o braço.
- Será que o Lucas está cá amanhã? – Perguntou Helena.
- Não contes com isso – repetiu Salvador.
Margarida assentiu. – Não espero que venha mas seria bem-vindo. – Deslizou os dedos pelo cabelo da filha.
- Bem, está na hora de irmos dormir que amanhã temos uma grande batalha na cozinha com a avó. – Disse Salvador, levantando-se do sofá. – Boa noite mãe.

Salvador e Helena dirigiram-se para o quarto deixando Margarida ainda na sala de estar. Algum tempo depois, pôde ouvir a mãe a percorrer cada janela a verificar se estava tudo fechado. Ainda tinha o mesmo hábito. Não se sentia segura.
Salvador rolou para o outro lado da cama.
- Nem eu me sinto seguro aqui – disse de si para si.


Enquanto estivera longe daquela terra, do seu passado e de tudo aquilo sentira-se seguro. Não sempre, mas sentia-se mais seguro na sua própria casinha do que ali na dos avós. Sabia que se ele quisesse, chegaria até eles. Mesmo que estivessem longe. Sempre os iria perseguir. Até um dia ser o último.

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