Tudo o Que Sempre Quis || Cap.5 || Pt.4

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- Avô és tu quem vai limpar isto tudo! – Gritava Helena enquanto fugia das suas mãos enfarinhadas.
- A avó e a mãe dão-te cabo da cabeça. – Dizia Salvador com as mãos na massa.
- Até elas voltarem pomos a cozinha em ordem. – Ele divertia-se com os netos. Sabia Deus as saudades que tinha disso, de uma boa gargalhada junto deles, apenas faltava Lucas para o clã das traquinices estar completo.
Lembrava-se de cada um deles desde que nasceram. Dos dias em que os levava a passear e das brincadeiras que Alzira estava longe de imaginar que faziam nas suas costas, na sua casa.
Não eram seus netos de verdade mas quase podia ver em cada um deles um pedaço de si mesmo. Tal como em Margarida. Perfilhara-a quando ela tinha apenas dez anos, tornando-se um verdadeiro pai para ela.
Do casamento dela apenas restavam aquelas três coisas magníficas; cada um dos seus preciosos netinhos que tanto adorava.
Salvador era o mais sossegado dos três, sempre o fora, embora tivesse os seus momentos de rebeldia. Como irmão mais velho sempre se sentira responsável pelos irmãos, se bem que por vezes envolvia-se em lutas com Lucas. Por seu lado, Lucas era o mais rebelde dos três, se tivesse notícias dele talvez ainda descobrisse que continuava o mesmo reguila, ou não.
Mesmo assim, era bom rapaz. Por fim Helena, a sua menina. Era a fusão dos feitios dos irmãos. Temperamental, não era fácil aborrecê-la mas quem o fizesse ela sabia pô-lo a bater em retirada num piscar de olhos. Aquela era fresca. Dura de roer. Tinha mesmo a fibra da mãe dela.
António acabava de varrer a farinha do chão da cozinha, não conseguindo apagar todos os vestígios da pequena batalha quando Alzira e Margarida entraram, apanhando todos de surpresa.
- O que é isto? – Quiseram saber.
Salvador e Helena apontaram para o avô, que encolheu os ombros.
- Três miúdos é o que é. – Resmungou Alzira, sacudindo o pó branco do louceiro.
- Oh avózinha deixa lá isso. – Disse Salvador, rodeando-a com os braços.
Helena esfregou o dedo sujo de farinha no nariz da avó e na bochecha da mãe, apanhando-as desprevenidas.
- Natal sem guerra de farinha não é Natal – declarou Salvador atirando um punhado de pó branco ao ar.
Alzira e Margarida repreenderam-no com o olhar mas não resistiram a entrar na brincadeira.
Lá fora estava o típico dia de véspera de Natal. Chovia a cântaros e o vento agitava as árvores despidas. Atrás do volante de um carro a cair aos bocados, alguém os observava com os binóculos colados ao nariz.
- Isso. Aproveitem enquanto podem. – Murmurou, rangendo os dentes.
Em breve o quadro de família feliz iria pelo cano abaixo. Não perderiam pela demora. Cada um deles. Pagariam por cada segundo que passara na prisão. Só serviu para ferver ainda mais o ódio que ele sentia.
Ao início da noite a mesa estava recheada com as tradições de família. O bacalhau não podia faltar, tal como várias travessas de doces e pudins. Era altura de festejar o Natal com a máxima normalidade possível. Os enfeites enchiam a casa, acompanhados pelas pequenas luzes coloridas que brilhavam no pinheiro disposto na sala de estar.
Salvador pigarreou. – Gostaria de fazer um brinde. – Os copos ergueram-se – Que haja mais momentos destes.
- Que venham mais Natais assim. – Brindou António.
- Com saúde. – Pediu Alzira tocando o copo nos restantes.
- Que o maninho e a Sara sejam felizes. – Disse Helena, sorrindo trocista para o irmão.
- Que voltamos a ser uma família normal – pediu Margarida quase em sussurro - e ao Lucas, onde quer que esteja.

Durante o jantar, Salvador não tirou Sara dos pensamentos. Estar ali com a sua família só o fez desejar que também ela ali estivesse. Lembrou-se de Lucas, que, como previra, não aparecera. Sentiu a falta do irmão. Mas seria realmente o irmão que se recordava? Seria impossível se assim fosse. Depois do que passaram nada seria igual, muito menos para Lucas que tão caro pagara por aquele maldito dia a que ele batizara de Dia D. Por breves instantes, esqueceu-se de tudo o resto, aproveitando realmente o tempo em família. Aquele ambiente de que tantas saudades tinha. A sua vida dera uma volta de trezentos e sessenta graus no espaço de alguns meses. Poderia ter sido diferente? Se assim fosse não teria saído de casa, o irmão ainda estava por ali, Helena não tinha pesadelos todas as noites exatamente às três da manhã, a sua mãe dormiria descansada sem verificar todas as janelas várias vezes durante a noite e não se sobressaltara ao mais pequeno ruído. Os avós estariam descansados. Se tivesse sido diferente não teria conhecido Martim, a Dª Rosário nem Sara.
Levou uma garfada à boca. Sim, poderia ter sido diferente mas conforme algumas coisas lhe foram tiradas recebeu novas em troca.
Adaptara-se, como um camaleão. Se assim tinha sido por alguma razão fora. Estava destinado assim para o levar até Sara, para a salvar naquele dia em que quase se afogara durante uma prova de surf. Levou-o até Martim para o salvar de si próprio; levou-o até à Dª Rosário para encontrar a sua avó naquela senhora. Levou-o àquela pequena terra, um pequeno mundo à parte. Tinha coisas boas na sua vida e não tencionava perdê-las, assim como as que recuperara estavam fora de plano voltar a perdê-las. Lutaria pelos seus com unhas e dentes se fosse preciso.     
Estava preparado. Sabia que estava.
- Alzira traz lá mas é os doces. – Pediu António com aquele olhar cúmplice enquanto a observava.
- Qualquer dia não cabes dentro das calças. – Resmungou ela, colocando as travessas sobre a mesa.
António encolheu os ombros fazendo uma careta. Todos se riram nas costas dela.
- O Pai Natal gosta de mim na mesma. – Disse, esfregando as mãos uma na outra contemplando aquele doce quadro.
- Por falar nisso, ontem deixei os presentes no carro. – Lembrou Salvador.
- Esqueci-me completamente também. – Confessou Helena. – Já os vamos buscar.
- Para que foram gastar dinheiro? – Disse Margarida, calando-se de seguida perante o olhar de aviso dos filhos. Teimosos. Todos eles.


Já com a barriga cheia e o relógio em contagem para a meia-noite, Salvador desceu as escadas para ir ao carro buscar os presentes. Não se podia esquecer do presente que Martim lhe entregara com a promessa de o dar a Helena nas doze badaladas. Aqueles dois, outra longa história que ficara meio resolvida meio pendente.
Enquanto carregava os sacos, sentiu-se observado. Com o coração acelerado e o peito apertado olhou em redor. A rua estava deserta como era de esperar mas quase o podia sentir por perto. Apressou-se a fechar o carro e a regressar para dentro de casa.
- Estás branco como a parede. Viste algum fantasma? – Perguntou António quando Salvador entrou de rompante.
- Talvez tenha sido isso mesmo. – Respondeu, pousando os presentes debaixo da árvore de Natal.
António ergueu as sobrancelhas.
- Não foi nada demais, avô. Só uma sensação estúpida. – Disse, esforçando-se para sorrir e parecer calmo. Mas calma era tudo o que ele não tinha.
- Finalmente! Estava a ver que tinhas fugido com os sacos.- Brincou Helena, quebrando o momento constrangedor.
Não iria preocupar ninguém por causa de um pressentimento sem fundamento. Ou teria algum significado? Não. Não podia ser.
À meia- noite, após todos abrirem os seus respetivos presentes, Salvador apanhou Helena sozinha, entregando-lhe uma pequena caixa vermelha com um laço dourado.
- Houve alguém que me pediu para te dar isto. - Informou, vendo o olhar desconfiado da irmã.
Ao tocar na pequena caixa soube que era dele. Só podia ser de Martim.
- O que é isto?- Perguntou, amarga.
- Não sei. Terás de abrir se quiseres saber.- Declarou, voltando-lhe as costas.
Helena ficou sozinha com os seus pensamentos e com a caixa vermelha que reluzia à média luz. Não queria abrir, não queria nada daquele estupor. Mas estava a rebentar de curiosidade, não iria aguentar. Quando por fim retirou a tampa, levou a mão à boca para abafar um pequeno grunhido. Um fio prateado brilhava no seu interior com um pequeno golfinho pendurado.
Por momentos esqueceu o que a levara odiá-lo. Era tão simples, tão… perfeito. Colocou-o ao pescoço sem pensar duas vezes, só então viu o bilhete no fundo da caixa. «Um dia, voltarás para resolvermos o que deixámos pendente. Não me esqueças porque jamais te esquecerei. Um dia, serás minha e eu teu. Apenas teu». Uma lágrima rolou pela sua bochecha.

Algum tempo depois de todos adormecerem, restava apenas Salvador e Helena ainda acordados, quando a campainha tocou, sobressaltando-os.
- Quem será às três da manhã? – Perguntou Salvador, desconfiado.
- Pelo menos não estou a dormir, lá se vai o pesadelo das três. – Brincou Helena, recompondo-se do susto.
Ficou de orelha à escuta enquanto Salvador abria a porta.

- Temos um problema – ouviu, reconhecendo a voz. – Dos grandes.

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