Tudo o Que Sempre Quis || Cap.6 || Pt.1



«Quando dizes que não podes resolver as coisas,
Deus te diz que guia os teus passos.»

Salvador ficou completamente imóvel, sem mexer um único músculo do corpo nem pronunciar uma palavra que fosse. Era impossível. Não poderia ser ele. Pestanejou, talvez fosse uma alucinação. Talvez estivesse a sonhar. Quase se beliscou para acordar.
Tudo aquilo que enterrara ao longo do tempo vinha à superfície como um vulcão, sem aviso prévio. Assim como a sua visita. Sem qualquer aviso. Totalmente inesperada.
- Estás a ouvir? – Repetiu – Temos um problema daqueles bem grandes.
Helena surgiu por trás do irmão e a sua reação foi mais ou menos idêntica à dele.
- Oh meu Deus. – Foi tudo o que ela disse. – Não pode ser. Oh meu Deus.
- O que…? Como é que…? – Não conseguia terminar as frases, ainda incrédulo.
- Oh meu Deus. Lucas. – Helena desprendeu os pés do chão, e abraçou-o.
Ele retribuiu o abraço.
- Vamos deixar as lamechices para depois. – Declarou, preocupado – Temos coisas mais importantes a resolver.
- Como é que subiste as escadas? Não estavas…? – A mente de Salvador estava um turbilhão.
- Depois. – Insistiu ele, dando um passo para o interior.
- Está tudo a dormir, vou acordar toda a gente. – Apressou-se Helena.
- Não! – Exclamou Lucas. – Ainda não.
Helena começava a não perceber nada do que se estava a passar e Salvador cada vez percebia menos.
- O que é que estás aqui a fazer? – Quis saber.
Lucas arrastou os irmãos para a cozinha.
- Não quero preocupar os avós nem a mãe mas…
- Porra! – Salvador rangeu os dentes, juntando as peças do puzzle dentro da sua cabeça. – Quando é que foi isso? – Perguntou, aproximando o seu rosto do dele, adivinhando a notícia que ele trouxera consigo.
- Há alguns dias, talvez. Tinha a sensação de estar a ser seguido. Nunca vi ninguém mas tinha aquela sensação de estar a ser observado. A Mafalda também notou isso. Comecei a pensar no assunto e cheguei à conclusão que talvez não fosse só uma sensação sem fundamento.
- A Mafalda? – Questionou Helena, baralhada.
Lucas repreendeu-a com o olhar. Seria assunto para mais tarde.
- Só tinha uma forma de saber. Ontem decidi ir à prisão fazer uma visita e qual não foi o meu espanto quando me disseram que ele já estava em liberdade?
Salvador cerrou os punhos. Ele não poderia estar solto depois do que fizera.
- E agora? O que vamos fazer? – Quis saber Helena, trémula.
- Se ele voltar a aproximar-se de um de nós, da mãe ou dos avós eu dou cabo dele. – A raiva tomava conta de Salvador. Sentiu-se a perder todo o controlo.
- Isso não vai resolver nada. Olha o que aconteceu com o Lucas.
- Se não for assim vai ser como? A polícia não fez nada. Um ano na gaiola e pronto, vá lá à sua vidinha. – Aproximou-se ainda mais da irmã – Não vou permitir! Desta vez não.
- Puto acalma-te lá, ainda acordas os velhotes. – Pediu Lucas.
- Não te atrevas a pedir-me calma, meu! – Disse entre dentes.
O rapaz estava completamente atarantado. Andava de um lado para o outro com as mãos na cintura. Fervia de raiva, de fúria, de tudo.
- Ele é capaz de tudo. Nem se atrevam a fazer o mesmo da outra vez. Estão a ouvir? – Disse Helena, tentando incutir algum juízo nos irmãos.
Salvador abrandou o ritmo.
- Eu também sou capaz de tudo se ele se atrever a tocar com um dedo que seja a qualquer um da família. Desta vez estou preparado. Não sou mais o puto que era há um tempo atrás.
Helena levou os dedos às têmporas.
- Temos de pensar com clareza. Assim não vai resultar.
Enquanto ela magicava um plano, Lucas aproximou-se sorrateiramente do irmão mais velho.
- Se fores dar cabo dele, certifica-te que desta vez não volte.
Salvador assentiu.
Lucas estava ali. Era dia de Natal e ele estava ali, ainda que sem boas notícias, vê-lo caminhar pelo seu próprio pé compensava o que estaria por vir. Soubera erguer-se das cinzas e isso só deu mais força a Salvador. Ele que viesse. O surfista estaria preparado. Prometeu a si próprio que desta vez ele não iria tocar nas pessoas de quem ele gostava. Não iria permitir. Nunca mais.
- Não lhes vamos contar nada para já mas temos de ficar atentos. Ainda mais. – Disse Lucas.
- Acho que deveriam saber. – Declarou Helena.
- Não. O Lucas tem razão. Vamos preocupá-los e é isso que ele quer. Que eles tenham medo. Para já vamos manter isto entre nós.
Os irmãos acederam. Aquela batalha era deles os três. Só deles. Por enquanto. Pelo menos enquanto pudessem evitar dar a conhecer aquele pequeno percalço. O plano estava traçado. De manhã Lucas voltaria e teriam de fingir surpresa ao vê-lo e assim foi. Quando a campainha tocou Salvador sobressaltou-se, assim como Helena. Ambos sabiam que era Lucas mas e se não fosse? Trocaram olhares que só eles entendiam e o rapaz decidiu ser ele a abrir a porta, por via das dúvidas. Não foi preciso fingir muita surpresa, de facto continuava a ser algo inesperado ver o irmão de pé. Mas não foi apenas isso. Ao seu lado estava uma rapariga de estatura média, mais baixa do que ele. Salvador reconheceu-a de imediato dos tempos de escola.
- Que belo par de jarras. – Disse, abraçando o irmão.
- Meu puto. – Disse ele, entrando no clima.
Depressa todos se juntaram à porta ao ouvirem a sua voz. Um furacão de emoções passou por ali. Helena não precisou de fingir as lágrimas que lhe corriam pelas faces.
- Bem… devo apresentar, a quem não conhece, Mafalda, a minha miúda. – Declarou, com o peito a inchar de orgulho por a ter do seu lado.
- Sempre ouvi dizer que o primeiro amor nunca se esquece. – Brincou Salvador, dando-lhe dois beijinhos no rosto. – Bem-vinda de volta à família.
- Obrigada Salvador. Tenho muito gosto em conhecer-vos. – Confessou Mafalda, com as bochechas rosadas.
Perante os olhares curiosos da mãe e dos avós, Lucas apressou-se a esclarecer.
- Namorámos a alguns anos, quando ainda éramos miúdos mas não deu certo. Reencontrei-a há algum tempo e aqui estamos nós.
Mafalda deu-lhe a mão discretamente e Salvador pôde adivinhar que ela teria sido o pilar do irmão durante a sua ausência. O que os unia era muito mais forte do que antes. Conhecera-a no passado, através de Lucas. Sempre soubera que um dia aqueles dois ainda voltariam a fazer parte da vida um do outro, mas até então muita coisa aconteceu. A vida aconteceu.
- Então és a famosa Mafalda. – Constatou Helena, mordendo a língua de seguida. Descuidara-se. Esqueceu-se do plano que não poderiam dar a saber que Lucas estivera lá na noite anterior.
Salvador deu-lhe um pequeno encontrão.
- O que foi? Uma rapariga tem os seus trunfos. – Disfarçou ela apressadamente.
- Isso mesmo. – Concordou Mafalda em sua defesa.
Alzira conduziu-os a todos até à sala de estar onde Lucas foi submetido a um extenso interrogatório por parte de todos. Havia tanto que lhe queriam perguntar, tanta coisa que queriam saber. Os avós não podiam estar mais contentes por terem a casa cheia, tal como Margarida. O regresso de Lucas fora um choque para todos, tanto pela inesperada visita como pelo seu bom aspeto. Ninguém esperava o que acabavam de presenciar.

Debaixo da camada de felicidade que sentia pelo irmão, Salvador sentia o receio fervilhar juntamente com a raiva. Sara não era agora o seu único pensamento. Também os seus fantasmas do passado regressavam para o assombrar ainda mais. Mas desta vez, certificar-se-ia que ficariam de vez no passado, onde pertenciam.

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