Tudo o Que Sempre Quis || Cap.6 || Pt.2

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- Filho, não posso fechar a loja nesta altura.
- É só uns dias mãe. Como umas férias. – Lucas insistia ferozmente com a mãe para ela tirar uns dias. O plano era arrastá-los a todos para perto da nova casa de Salvador. Visto que não haveria espaço para todos arranjaria outra solução junto da Dª Rosário que certamente teria algum apartamento disponível.
Esperavam que sim.
- A avó não dá conta das duas lojas, Lucas.
Alzira acabara de entrar na cozinha onde a discussão estava a ter lugar.
- Uma semana, mãe. No máximo. – Agora era a vez de Helena insistir. – Os avós também vão.
- Vamos onde? – Quis saber António interessado.
- Vão todos tirar uma semana de férias. Vão passar a passagem de ano comigo e não se fala mais nisso. – Salvador começava a ficar sem argumentos para os tirar de casa.
Os três preparavam-se para protestar, arranjar mil e uma desculpas para não ir. Típico.
- Ninguém irá morrer se tu não fores uma semana aos campos – Disse Lucas, para o avô – E também não vão morrer se durante uma semana vocês não venderam canetas nem revistas. – Lucas começava a perder a paciência. Todos os minutos contavam.
Mafalda decidira não se meter ao barulho, embora estivesse a par de toda a história, afinal, fora ela quem cuidara de Lucas quando ele apareceu no hospital durante o seu turno.
Mal o reconheceu, com o rosto praticamente desfeito e muito mal tratado fisicamente.
- Bolas, a vida de ninguém depende se tiram uma semana ou não. Mas… - Helena estava prestes a explodir.
- Só queremos reunir a família – apressou-se Salvador a dizer, antes que a irmã desse com a língua nos dentes. – Porque não uma semana longe daqui? Não querem conhecer a minha casa? A minha vida? – Poderia inventar mais uns quantos argumentos se fosse preciso mas a ideia de os ter por perto, a ideia de poderem ver o que alcançou, agradava-lhe.
António expirou violentamente abanando as bochechas.
- Não podemos lá ir só na passagem de ano? – Propôs, fazendo contas de cabeça ao que tinha para fazer nos campos nessa semana.
- Não, não podem! – Lucas explodiu inesperadamente, deixando todos de boca aberta. A cicatriz debaixo do seu olho tornou-se mais vincada. – Não me dão outra hipótese. Vocês têm de sair daqui ainda hoje nem que vos leve pelas orelhas escada abaixo. Os três. São teimosos como o raio.
Ninguém disse uma palavra e ele continuou.
- Ele foi solto. – Demorou-se a observar a mãe – Há uns dias. Não sei quantos. É uma longa história mas por amor de Deus, não podem ficar aqui. O Salvador tem de voltar ao emprego e vocês vão com ele. Todos. E tu também Helena. – Informou, apontando o dedo para a irmã. - Não quero nenhum de vocês aqui perto.
- Não vou sair da minha casa. Ele que venha. – Disse António, colocando-se de pé com as mãos sobre a mesa da cozinha.
Salvador suspirou.
- Avô, já não tens idade para birras. Vais comigo e acabou a conversa.
- E tu Lucas? – Quis saber a mãe, trémula.
- Nós vamos voltar à nossa vida mas estarei por perto. Prometo. – Disse, olhando para a namorada.
- O plano é este. Não há nada que nos faça mudar de ideias. Podem ir de férias durante uma semana ou ficar aqui à espera que ele vos bata à porta. – Helena colocou as cartas na mesa.
Salvador sabia que tê-los por perto não impedira que os encontrassem se ele assim quisesse, mas pelo menos poderia protegê-los enquanto respirasse. Tal como Lucas. Ele voltaria assim que necessário. Já não eram os miúdos de anteriormente.
Naquela tarde malas e bagagens foram atiradas para dentro do carro. Salvador teria muito a explicar a Martim. Teria de o pôr a par dos acontecimentos, talvez revelar mais do que planeava mas era preciso. Se precisasse da sua ajuda seria melhor ele estar preparado para o que estava por vir. Durante a viagem o silêncio era assustador, contudo o rapaz podia escutar os pensamentos de cada um, certamente que estariam a pensar no que fazer a seguir.
- O que planeias fazer se ele aparecer? – Quis saber o avô, sem rodeios.
Salvador observou a irmã pelo retrovisor. Ela assentiu.
- Tenciono dar cabo dele. – Declarou, simplesmente.
Margarida e Alzira entreolharam-se.
- Eu sei o que aconteceu com o Lucas, não preciso que me relembrem. – Disse, adivinhando o que elas iriam dizer.
- Sabes que ele é capaz de… - António não terminou a frase.
- Sei. Mas desta vez é diferente.
- O que é diferente? Estão mais idiotas que da outra vez? – António começara a perder a calma.
- Não. Estamos preparados. – Apertou o volante.

O silêncio voltou a instalar-se no interior do carro. António tinha razão. Ele era capaz de tudo. De tudo mesmo. Mas foi o facto de estar preparado para também ser capaz de tudo o que fosse preciso que assustou Salvador. Ele tornara-o naquilo que era. Durante meses treinou com um saco de boxe todos os dias, várias horas. Helena não conhecia esse pequeno segredo, embora estivesse de férias debaixo do seu teto nunca desconfiou das suas escapadelas antes do anoitecer ou logo pela manhã quando o sol despertara. Sara também desconhecia esse seu lado. Na verdade, a rapariga não sabia de nada. Tencionava contar-lhe mas a sua partida viera alterar todos os planos.
Sara.
Onde estaria ela? Já teria resolvido o que tinha por resolver? Estaria tudo bem? Tinha ordens específicas para não entrar em contacto com ela. Quando fosse seguro ela daria notícias. Seguro. O que estaria a acontecer com aquela miúda?
-É ali que o mano mora. – Anunciou Helena.
Três cabeças ergueram-se junto das janelas, a acompanharem o dedo indicador dela.
- Muito bem. Já cá estamos. Qual é o teu plano brilhante? – Quis saber António impaciente.
- Simples. Manter-vos em segurança e longe de sarilhos. – Respondeu.
- Como tencionas fazer isso? Fechar-nos dentro de quatro paredes? – Alzira também começava a dar sinais de impaciência misturados com receio e tudo o mais.
- Tenciono fazer isso de outra maneira. Á minha maneira.

Naquela noite, já com os avós e a mãe em segurança, Helena questionou o irmão mais velho.
- Mano, se ele aparecer, vais mesmo dar cabo dele?
Salvador baixou a cabeça.
- Se tiver de ser.
- Não és assim Salvador. Não és como ele.

Helena estava certa. Salvador não era assim, mas fora obrigado a tornar-se no monstro que se escondia dentro de si. O que ele lhes fizera não tornou Salvador mais forte, tornou-o uma besta.

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2 comentários :

  1. Os acontecimentos moldam-nos e muitas vezes alteram aquilo que julgávamos ser.
    Adorei!

    r: Deu na sic, não foi? Vou ver se puxo atrás na box :)

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