Tudo o Que Sempre Quis || Cap.7 || Pt.1



«O melhor modo de vingar-se de um inimigo,
 É não se assemelhar a ele.
- Marco Aurélio»

Salvador sabia que ele estaria algures. Quase o podia sentir, como uma sombra, enquanto seguia pela avenida.
Precisava de recursos. Precisava de um plano para o deter sem que ninguém da sua família se magoasse. Teria de os manter debaixo de olho e afastá-los na altura certa. Só assim acabaria com o assunto de uma vez para sempre.
A Passagem de Ano estava apenas a alguns dias de distância, por isso as ruas já estavam preparadas para a multidão festejar as boas vindas do novo ano. Os palcos estavam a ser montados, o sistema de som e de luzes começavam a ser testados conforme os elementos ajudassem. A chuva continuava a cair desde o Natal, quase sem parar completamente.
Dobrou a esquina e entrou no beco. Sabia que ali encontraria os antigos amigos de Martim, da época em que ele só se metia em sarilhos. Parecia ter sido no dia anterior que o tirou da água mas já tinha sido à uma eternidade. Ajudara-o e ensinara-o a ser uma pessoa melhor, e ironia do destino, ali estava ele, à procura de sarilhos.
Um rapaz de capuz vermelho apareceu por detrás dele, sobressaltando-o.
- Estás perdido betinho? – Perguntou ele, aproximando-se mais.
O surfista sentiu os pelos da nuca eriçarem-se.
- És o manda - chuva? – Questionou, encarando-o.
- Depende de quem quer saber. – Respondeu o outro, bufando o fumo do cigarro.
Salvador tirou do bolso do casaco um maço de notas, onde estavam quase todas as suas poupanças.
- Preciso de qualquer coisa que tenhas que faça pouco barulho, seja discreta mas faça o serviço. – Era como se as palavras não fossem suas.
Olhou para o maço e soltou mais uma baforada no rosto do rapaz.
- E o que ele faz aqui? – Perguntou, apontando para trás de Salvador.
Martim aproximou-se, tirou as mãos de bolsos e arrancou o dinheiro da mão do antigo colega.
- Não precisas de nada de gente como esta, Salvador. – Gritou, atirando o maço de notas contra o peito do melhor amigo.
- O que é que estás aqui a fazer? – Quis saber.
- Pois, o que estás aqui a fazer pá? – O outro aproximou-se.
- A conversa não é contigo. Não há negócio nenhum por isso volta para o buraco de onde saíste.- Quase podia escutar o ranger de dentes de Martim.
- Aqui o teu amigo é que sabe se quer ou não fazer negócio. Ou és a mãezinha dele?
Salvador demorou a responder.
- Não. Não preciso nada teu. – Declarou, acompanhando Martim que se preparava para lhe buzinar aos ouvidos.
- Puto o que é que te deu para te meteres com gente desta? Nem pareces tu. Isto não é nada teu. – Começou, ao regressarem à marginal – Foste tu quem me salvou dessa vida e agora vieste aqui parar?

Ele tinha razão. Salvador quase vendera alma ao diabo.
Sentiu-se perder as forças, sentiu-se zonzo e maldisposto. O que foi ele fazer? Salvador não era assim. Ajudara Martim e Lucas a sair da vida em que estivera prestes a entrar e são raras as pessoas que conseguem sair. Aquilo era a chamada escuridão, e ele caminhava para lá a passos largos sem notar.
- Há umas coisas que precisas de saber. – Disse.
Procurou um sítio onde se sentar, tinha a cabeça às voltas.
- Muito bem. Podes começar por me contar o que diabos acabou de acontecer. – O seu tom de voz era áspero.
Salvador inspirou fundo. Havia tanto para lhe contar que não sabia por onde havia de começar. Ele era o seu melhor amigo, teria de confiar nele também sobre aquele assunto.
- O que vou contar não pode sair daqui estás a ouvir?
Martim assentiu.
- Tudo começou antes de eu vir para cá. Foi por isso que saí de casa. – Começou, medindo as palavras antes de as dizer – Tive uns problemas familiares que basicamente destruíram a minha família. No Natal quando fui a casa dos meus avós, o meu irmão, o Lucas, bateu à porta às três da manhã a dizer que tínhamos um problema. Dos grandes. – Fez uma pausa e olhou em volta, como a confirmar se não estariam a ser observados. – Ouve, não te posso adiantar muito mais, só te posso dizer que o tipo que causou isto tudo saiu da prisão. Tive de arrastar os meus avós e a minha mãe até cá. Pelo menos posso tê-los debaixo de olho caso ele apareça por aqui. A minha cabeça está cheia, como se fosse rebentar. O que acabaste de assistir foi o desespero a falar mais alto. A raiva. Não tens noção do que ele fez à minha família. O meu irmão… esteve por um triz de passar para o outro lado quando lhe fez frente. Eu fui fraco, percebes? Podia ter evitado tudo isso se fosse mais esperto e mais forte. Em vez de proteger o meu irmão, peguei na Helena e escondia-a no meio de uma vinha. Mas não voltei para o ajudar. Fiquei com ela tempo demais. Fui cobarde. – A sua voz começava a falhar.
- Puto… - Foi tudo o que disse.

Salvador abanou a cabeça.
- Se ele aparecer, quero certificar-me que não volte mais. Estou cansado de viver a olhar por cima do ombro. Estou cansado de ter medo que volte a magoar a minha família. Só quero ter uma vida normal. Quero que eles tenham uma vida normal. – Calou-se por instantes – A Sara não sabe nada acerca disto. Sei que lhe devia de contar mas quando o ia fazer ela foi-se embora. Outra vez.
- A Sara foi-se embora? Porquê? – Martim sacudiu a cabeça, como se tentasse organizar tudo.
- Só me disse que tinha uns assuntos pendentes para resolver e que voltaria assim que possível. – Respondeu, com os olhos postos do horizonte.
Martim levantou-se e enfiou as mãos nos bolsos das calças.
- Pouco tempo depois de ires embora um tipo apareceu na pizzaria à procura dela. Não sei quem era, nunca o tinha visto mas ele tinha uma foto da Sara. Eu não disse nada como é óbvio. Até pensei que ela tivesse ido contigo, nunca mais a tinha visto mas não sabia essa história de ela ter bazado assim. É muito estranho. – Concluiu.
- Que tipo? – Quis saber.
- Era um gajo novo, aí pela nossa idade. Não tinha lá grande bom aspeto por isso duvido que seja boa peça. – Respondeu.
- Não tinhas mau aspeto mas também eras um desgraçado. – Disse, espicaçando-o.
- Oh. Está bem. Mas o gajo é daqueles que não te passa boa impressão, sabes? E eu devo ao menos ter passado uma boa imagem senão não me tinhas ajudado. – Respondeu, baixando os olhos de seguida.
- Espero que ela esteja bem. Que não seja nada. – Murmurou Salvador preocupado. Ligar-lhe-ia mais tarde, que se lixasse as regras que ela lhe impusera claramente, como um ultimato.
- Também eu. – Respondeu, ausente.

Salvador aproximou-se do amigo. Sabia o que estava a pensar. Já o conhecia bem.
- Puto esquece isso. Mudas-te de vida a tempo é o que importa.
- Mudei de vida porque tu me fizeste abrir os olhos. Chamaste-me à razão antes de aparecer numa valeta. Se não fosses tu…
- Não fiz milagre nenhum, meu. Pus-te na linha porque sabia que no fundo era isso que querias. Se não valesses a pena acredita que não tinha perdido o meu tempo com um desgraçado como tu.
Ambos sorriram.
- Há alguma coisa que eu possa fazer? Pagar-te um almoço naquela altura foi pouco.
O rapaz demorou a responder.
- Talvez haja. – Respondeu, coçando o queixo – Posso vir a precisar de um par de mãos extra caso as coisas se compliquem.
Martim acedeu e estendeu a mão – Conta comigo para o que precisares. Para o que der e vier.
- Ouve lá pá, chegas-te a esclarecer as coisas com a minha irmã como deve ser? Por falar nisso, o que lhe ofereces-te pelo Natal? A miúda fechou-se em copas.
- Mais ou menos. Longa história. Quanto ao presente, ofereci-lhe um fio com um golfinho. Ela usa-o? – Quis saber, curioso.
- Então deve ser isso que ela tem sempre ao pescoço. Bem me parecia que nunca tinha visto aquela foleirice. Mas ela pelos vistos gostou, para o usar dia e noite. – Disse, em tom de brincadeira.
- Cala-te. O fio foi a escolha perfeita. Combina com ela e tudo. Usa mesmo? – Os olhos de Martim brilharam de uma forma que ele desconhecia.
Salvador assentiu com a cabeça.
- Achas que ela aceita ver-me um dia destes? – Perguntou, a medo.
- Talvez, se tiveres sorte. Mas ela agora não está em minha casa. Decidi que seria melhor ela estar com os meus avós e a minha mãe. Está mais segura.
Arqueou as sobrancelhas. Aproximou-se mais dele e sussurrou;
- Estão numa casa à beira-mar num sítio completamente deserto.
- Entendido. – Murmurou ele.

Ao regressar a casa, Salvador sentiu-se mais leve por o amigo estar a par de tudo. Não só seria mais fácil caso precisasse dele mas também por lhe ter confiado aquele tormento. Sabia que tudo o que lhe revelara estaria seguro. Um dia, quando tudo estivesse terminado, contaria tudo desde o início com uma cerveja e um prato de amendoins à frente. Apesar de por vezes ser um estúpido do caraças era bom rapaz e um bom amigo. No seu íntimo, quase desejou que ele conseguisse dar a volta a Helena, talvez ela o conseguisse pôr na linha, longe das outras miúdas. Talvez um dia isso acontecesse. Talvez esse dia não estivesse assim tão longe como se julgara.
- Salvador? – Ouviu chamar, quando começou a subir os degraus.
Atrás de si a Dª Rosário encadeava qualquer coisa com aquele seu sorriso envelhecido.
- Oh, olá Dª Rosário. – Cumprimentou, abraçando-a.
- Tem sido difícil apanhar-te em casa desde que voltas-te, rapaz. Está tudo bem?
Começava a acreditar que aquela mulher tinha um sexto sentido ou um dedo que adivinha.
- Está tudo ótimo – Mentiu – Tenho andando bastante ocupado. Mas precisa de alguma coisa?
- Nada disso. Só queria saber como tinha sido o teu Natal. – Esclareceu, estendendo um saco de papel vermelho com um laço dourado na direção dele – Toma.
- Um presente? Mas não tenho nada para si. – Apressou-se a dizer, atrapalhado.
- Toma lá isto – Insistiu – Quando to comprei não foi à espera que me desses alguma coisa em troca. Ter-te por cá é presente que chegue.
Sorriu.
Abriu o saco e qual o seu espanto quando deu de caras com um tapete. Como um flash, as memórias dos primeiros tempos que ali passara naquele bloco de apartamentos, correram a sua mente.
- Um tapete. – Murmurou, confuso. – Com um surfista.
Soltou uma gargalhada. - Só mesmo a Dª Rosário para se lembrar disto. – Voltou a abraçá-la. – Obrigado. Vou já pô-lo à porta.
- Achei que irias gostar assim já podes deitar fora aquela coisa velha que tens à porta. – Despediu-se com um sorriso, voltando para o conforto da sua casa.
Era verdade. O dito tapete aparecera à sua porta quando ainda não era a sua porta, como por artes mágicas. Continuava à espera de descobrir como lá fora parar mas nunca o deitara fora nem se dera ao trabalho de comprar um novo. Mas sem dúvida que aquele tapete com um surfista tinha mais o seu estilo.
Ao chegar a casa pegou no velho com a intenção de o deitar no lixo mas em contrapartida, algo o impediu. Decidiu colocá-lo à porta do terraço em vez de se desfazer dele por completo. De alguma forma sentiu que era uma das coisas que caracterizava a sua estadia ali. Dava história ao sítio.
- Tenho de ligar à Sara. – Disse para si mesmo.
E assim foi. Antes que se esquecesse, pegou no telemóvel e marcou o número que já sabia de cor. Do outro lado apenas ouviu o som da chamada. Desistiu à terceira tentativa quando ela não atendeu.
- O que se passa contigo miúda? Onde é que te meteste?

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