Tudo o Que Sempre Quis || Cap.7 || Pt.2

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Eram tão estúpidos aqueles catraios. Como se desaparecer com os velhos e a cota me impedisse de alguma coisa. Haveria de dar com eles. Quase apostava que os tinham enfiado num buraco qualquer, talvez no mesmo buraco onde Salvador estava. Talvez Lucas e a irmãzinha deles. Se tivessem a família toda reunida seria ainda mais fácil, menos tempo perdia a acabar com eles. E iria fazê-lo. Um por um.
Da última vez correu mal, apanhei um ano na gaiola. Mesmo assim valera a pena só pelo prazer de desancar o puto. Teria sido Salvador se ele não tivesse pegado na irmã e fugido como um covarde. O plano seria doloroso e sangrento, mas talvez aproveitasse um bocado com a miúda loura antes de lhe enfiar uma bala no meio dos olhos. Seria divertido.

Esse era o seu pensamento enquanto limpava a nove milímetros que transportava sempre consigo. Anos antes, Salvador roubara-lhe a vida do irmão, estava mais do que na altura de ajustar contas, começando pelos irmãos dele, e por fim matá-lo-ia.
Só teria de os encontrar para a festa começar. E ele era bom a encontrar pistas até onde elas não existiam. Voltou a enfiar a arma no cós das calças de ganga gastas, girando o palito entre os dentes.
Deixou-se ficar atrás do volante a observar o prédio onde anteriormente tinha visto Salvador. Teria sido tão fácil dar cabo dele no meio da rua. Era burro o suficiente para andar sozinho à noite. De certeza que ainda não sabia que ele estava de regresso. Mas Lucas sabia. E fora isso que o levara a voltar para casa. Aquele patife estragara-lhe parte do engenho. Agora tinha de pensar numa forma de dar com eles, com os contactos que tinha não seria difícil, só precisava de encontrar uma migalha, logo seguiria o rasto.

- Bingo! Ora, ora. Quem ali vai. – Resmungou.
Pôs o seu melhor sorriso antes de abordar a idosa que sabia ser vizinha e amiga de Alzira. Não estava com disposição para dramas nem para perder tempo com a velhota, por isso iria optar pelo bom samaritano, deixando a arma no porta-luvas. Minutos depois estava de regresso ao carro com a maior satisfação. Fora fácil de mais. Tão fácil. Bastou ajudar a dita senhora com os sacos que no minuto seguinte já estava a dar com a língua nos dentes.
- Tenho um serviço para ti. – Declarou, para quem estava do outro lado da linha telefónica – Preciso que me aches uma pessoa. É claro que tenho o número, achas que sou burro? – A impaciência voltara a instalar-se nas entranhas.
Poderia ter sido mais fácil se a vizinha soubesse onde é que a família feliz tinha ido. Mas não fora mau. Girou a chave na ignição, saindo do estacionamento.
Mais tarde, quando se preparava para dar uma nova dentada na sua bela bifana suculenta, o telemóvel tocou.
- Já tens alguma coisa para mim? – Resmungou, enquanto mastigava.
- Vou enviar-te a localização pelo GPS. Vê-se não és apanhado desta vez.
Desligou o telemóvel rangendo os dentes. A última vez fora um acaso, uma vez sem exemplo. Não voltaria para a prisão nem por nada.

- Ora, ora, a família feliz instalada à beira-mar. Com sorte servem de refeição aos peixes. – No seu rosto, brilhava um sorriso malicioso e vingativo, ao perceber onde o GPS o levaria. Não demoraria muito a terminar o que tinha começado.
Após reunir todo o material que necessitava no porta bagagens, entrou dentro do carro, fazendo-o arrancar com um chiar de pneus. Enquanto conduzia a alta velocidade sentiu-se cada vez mais vingativo ao encurtar o caminho até ao seu destino.
Os seus dedos ficaram brancos de tanto apertar o volante.
- Isto acaba em breve. – Resmungou, mordendo a língua. – Nem sabem o que vos espera.
Chegou ao destino ao cair da noite mas acabou por decidir que seria melhor deixar o assunto para o dia seguinte. Estava demasiado cansado para se preocupar em ser discreto. Pormenores – Pensou – Fazia toda a diferença e desta vez estava empenhado em não ser apanhado. Seria cuidadoso.

- Achas que vai funcionar? – Martim encontrava-se em casa de Salvador, onde discutiam um plano quase infalível, segundo eles.
- Talvez. – Respondeu, pensativo.
Martim pegou na cerveja levando a garrafa aos lábios.
- É uma questão de sorte. – Disse, mais para si do que para o amigo.
- Não é uma questão de sorte mas sim de esperteza. O tipo acha que vive no topo do mundo mas esquece-se que conheço um pouco das suas manhas. – Salvador estava agora inquieto. Só queria resolver aquilo de uma vez para ter uma noite de sono descansado.
- Mas afinal quem é esse gajo? – Martim ainda não sabia a história toda – Achas que não seria melhor desembuchares de uma vez? Não me dará jeito caso ele apareça?
Salvador tirou os pés de cima da mesa da sala. - Sabes o suficiente para saberes que ele não é para brincadeiras.
Passaram os últimos dias a engendrar planos de reserva. Martim era o seu maior aliado, sabia que nunca o deixaria ficar mal.
- Sei que deve ter sido duro, caso contrário não te estou a ver agarrado a um saco de boxe quase todos os dias.
- Já conheces-te o meu irmão? – Quando ele abanou a cabeça, Salvador continuou – Quando o conheceres, saberás o quão duro foi.
Era uma incógnita. Nunca seria capaz de pôr o surfista a desbobinar, nem tentaria com Helena. Essa seria bem capaz de lhe atirar com um tacho acima se o tivesse à mão.
Helena.
Só de pensar nela o seu estômago ficava às voltas. Também ele queria que o assunto fosse resolvido para poder ter uma conversa com ela. Nem que tivesse de a amordaçar e prendê-la a uma coisa qualquer mas iria ouvir tudo o que ele tinha para lhe dizer. Ela era teimosa mas ele também o sabia ser.
- E se não resultar? – Martim voltava a sondar o amigo.
- Puto, não agoires se faz favor. Esta porra vai funcionar nem que seja a última coisa que eu faça. Vou atrai-lo para cá, exatamente onde quero que ele esteja.
- Como tens a certeza que ele vai usar esse método do GPS?
- Porque é assim que ele trabalha. Tem amigos em tudo o que é negócio sujo. Até é capaz de já estar a caminho, no máximo amanhã já cá está. Aposto que não quer perder tempo. Mas esquece-se de um pormenor; quando fica demasiado raivoso perde o foco e fica descuidado. Será o nosso trunfo.
Martim bebia cada palavra. Salvador estava convicto do que dizia. Esperava que realmente o amigo estivesse certo.
- Posso dizer que conheces o tipo, estou certo? Se conheces os métodos dele…
Salvador ficou imóvel ao escutar o amigo. Sim, conhecia os seus métodos. E sim, ainda que o amigo não o dissesse nem o pensasse sequer, a culpa era sua. Era o culpado daquela embrulhada em que se encontravam por ser demasiado estúpido. Não fora por isso que salvara Lucas e Martim deles mesmo? Não fora isso o motivo de tudo? De não os querer na vida que ele próprio vivera anos antes? Não os queria a cometer os seus erros, ainda que tanto o irmão como o amigo estavam longe de imaginar o que realmente acontecera. Se bem que o irmão tinha uma pequena ideia, já Martim estava completamente às escuras.
- Conheço o género. Agem todos da mesma forma, ou quase. É como um estereótipo. – Apressou-se Salvador a dizer, não convencendo de todo o amigo.
- Pois bem. Vou engolir essa mas não te livras da história completa quando acabarmos com ele. Nem que tenha de te deixar em alto-mar. – Brincou, recordando-se da primeira vez que o vira com Helena na pizzaria.
- Já passámos essa fase puto.
- Ai sim? Então dás-me carta-branca para me embrulhar com a tua irmã? – Martim começou a correr pela casa, adivinhando o efeito que o que dissera teria no surfista.
- Quanto muito, dou-te uma dentadura nova que tal? Hmm? – Salvador revirou os olhos.
- Puto, sabes que podes contar comigo mas quero saber a verdade. Depois. Quando isto acabar. Pagas-me umas jolas e contas-me o que se passou porque estou completamente à nora.
Salvador agradeceu-lhe em silêncio.

Tinha tanto da sua vida por resolver e ainda assim dava por si a pensar em Sara. Jurara a si mesmo que iria à procura dela se não tivesse notícias nos próximos dias, nem que estivesse de correr o país inteiro.
Aquela era a sua miúda e se estava em sarilhos era bom que aceitasse a sua ajuda. Caso contrário, ele ajudá-la-ia na mesma, que Deus o ajudasse. Estava rodeado de cabeças duras. Só teimosos. Desde o avô à irmã, passando por Sara e Martim. Bom, Martim era fácil de dar a volta mas a irmã? Deus o livrasse. Nunca na sua vida ganharia uma batalha com ela.

Lá fora, no meio da penumbra alguém esperava o dia raiar para dar início a uma nova batalha.

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