Tudo o Que Sempre Quis || Cap.8 || Pt.1


«Precisamos resolver os nossos monstros secretos,
As nossas feridas clandestinas e a nossa insanidade oculta.
- Michel Foucault»


- Tens mesmo a certeza que queres fazer isto? – Lucas mostrava-se preocupado e ansioso. Não dormia uma noite inteira desde que soubera que o tipo estava em liberdade, mas saber que o próprio irmão o estava a atrair era demais para suportar.
- Se tiveres uma ideia melhor aceito sugestões. – Respondeu Salvador abruptamente enquanto vestia o casaco de cabedal. Nunca se separava daquela peça de roupa, sobretudo nos dias mais frios. Como se fosse a sua imagem de marca.
- Se tivesse uma ideia melhor já ta tinha dito. Só não quero que corras riscos desnecessários.
- Trata de cuidar da tua parte do plano maninho. E não te preocupes que vou chegar ao novo ano.
Lucas assentiu. Não valia de nada tentar demover o irmão.
- Cuida-te. – Murmurou Lucas, abraçando-o.
- Terei isso em conta. Não te esqueças do que combinámos.
- Bom, só tenho de sair daqui e despistá-lo, contando que ele esteja à espreita para dar tempo ao Martim de tirar a nossa famelga do refúgio, digamos assim.
- Exato. Quando o Martim disser que estão longe e seguros, leva-o até lá. A partir daí dou conta do assunto. – Para Salvador era quase um plano perfeito. Quase.
- E se ele não cair nessa?
- Passamos ao plano B.
Lucas esperou saber em que consistia o dito plano B.
- Que é…? Não esperas que eu adivinhe os teus pensamentos mais obscuros pois não? – Questionou.
- Ainda estou a pensar no plano B. – Respondeu Salvador. – Agora sai daqui. – Enxotou o irmão para fora do apartamento.
- És doido. Ouve o que te digo. – Resmungou enquanto era posto na rua.

Salvador precisava de uns minutos a sós com os seus pensamentos. Queria rever tudo novamente para nada lhe escapar. Tinha de resultar. Era a única hipótese que tinha. Pegou no telemóvel e marcou o número de Sara. Ainda aguardava notícias dela e a preocupação dera lugar ao desespero. Onde é que aquela miúda se teria enfiado? Vários cenários passaram-lhe pela mente e nenhum lhe agradou.
- Sara, sou eu, outra vez. – Disse, quando entrou no correio de voz. – Provavelmente nem irás ouvir esta mensagem, tal como não deves ter ouvido as outras milhentas que te enviei durante estes dias. Bom… Talvez esteja prestes a meter-me num grande sarilho, ou talvez a sair dele. Depende do ponto de vista. Seja como for… queria que soubesses uma coisa. – Fez uma longa pausa, na esperança que ela atendesse – Amo-te. Amo-te, Sara. Tem cuidado contigo, estejas onde estiveres. Quando ouvires isto por favor dá sinal de vida. Andas a pôr-me doido, miúda. – Esperou mais alguns segundos e desligou.
Confessara-lhe o seu amor por ela, agora apenas lhe restava fazer figas. Não tencionava de todo dar-se por vencido nem que tivesse de perder alguns dentes ou um pouco de sangue.
Confiava em si, nos seus instintos.

Naquele instante, Lucas andaria às voltas a despistar o fulano e Martim estaria com a sua família. Com a sua irmã. A sua irmãzinha. A imagem de Helena escondida por entre a vinha veio-lhe à memória. Ele protegera-a mas não protegeu o irmão. Lucas com o rosto coberto de sangue, parcialmente desfeito, invadiu-lhe a mente. Era uma imagem que durante todo aquele tempo esforçara-se para esquecer mas nunca esquecia. A culpa era sua. Então, agora seria altura de enfrentar essa culpa e pedir perdão a quem havia para lhe perdoar. Sobressaltou-se quando o telemóvel tocou. Seria Sara? Seria Martim? Ou seria Lucas?
 - Feito. – Foi tudo o que Martim lhe dissera.

Respirou fundo e saiu. Não ia armado. Prometera a si mesmo que não iria descer ao nível dele outra vez. Tinha poucos minutos de avanço até o irmão o encaminhar para a pequena casa à beira-mar onde Salvador o esperaria.
Ironia do destino, o que tinha sido o refúgio da sua família era de facto um refúgio. Quando os instalara nem sequer reparou no ambiente que agora o fascinava. Era de facto seguro. Escondido. Tranquilo. Respirou fundo fitando o horizonte. A hora estava a chegar. Caminhou para o interior, dispondo tudo a seu favor, fez questão de fazer um reconhecimento do espaço, seria uma vantagem sua se soubesse onde punha os pés. Puxou o cadeirão para junto da janela onde podia ver o vaivém das ondas que nunca se cansava de ver. Naqueles escassos minutos pensou, ponderou, planeou. Quanto mais pensava, mais ponderava e por conseguinte, mais planeava. Pensou sobre o que faria, se começaria por uma conversa ou partiria para a violência. Ponderou acabar com o tipo de vez ou deixá-lo pelo menos a respirar e chamar a polícia mas e se dali a algum tempo ele teimasse em voltar? Nunca estaria livre dele.
Quase ponderou deixar o monstro dentro de si dar conta do assunto, afinal não era isso que ele era? Um monstro.

Ouviu os pneus chiarem na gravilha mas deixou-se ficar onde estava. Quando a porta bateu violentamente, por um segundo, ainda pensou que o irmão tivesse teimado em ficar por ali mas depressa percebeu que não era Lucas.
- Bem-vindo. – Saudou Salvador, ainda sentado no cadeirão de olhos postos no mar, de costas para o seu inimigo.
Quase poderia vislumbrar a surpresa estampada no rosto do tipo. Voltou-se de frente para ele.
- Esperavas outro tipo de receção? – Espicaçou-o, não se deixando intimidar pela arma apontada à cabeça. – Talvez esperasses que fosse burro para te trazer até á minha família?

Hugo, assim se chamava, não podia negar que estava à espera daquela. Perdera o foco algures, novamente.
- Achas que não os encontro? – Fervia de raiva ao apertar ainda mais a nove milímetros contra a testa de Salvador.
- Acho que os poderias ter encontrado se tivesses sido mais esperto, digamos. – Respondeu, sem rodeios.
Quase podia rir-se de si próprio. Instalado confortavelmente num cadeirão, com as pernas cruzadas como se não tivesse uma arma apontada aos seus miolos. Daria uma bela notícia de primeira página no jornal do dia seguinte.
Hugo salivou, ainda mais enraivecido. O puto jamais se lembraria de o enganar, era cobarde de mais para o enfrentar sozinho. O surfista levantou-se, caminhando pela sala com as mãos nos bolsos.
- Sei que estavas lá na noite de Natal. Tal como sei que deves andar de olho em nós desde que sais-te da prisão. Andas-te atrás do meu irmão mas parece que ele te topou e foi aí que te estragou tudo, não foi? – Salvador provocava-o – Não contavas que o puto fosse mais esperto agora do que quando deste conta dele pois não? Tal como não estava nos teus planos eu saber que andavas à solta. Querias que fosse surpresa, mas meu bom amigo, aqui tens uma surpresa. – Abriu os braços, gozando literalmente com a cara dele.
Hugo agarrou-o pela camisa que vestia por baixo do casaco de cabedal, voltou a encostar-lhe a arma desta vez às têmporas.
- Achas-te muito espertinho tu, não? Podes ter escondido outra vez os teus velhos mas quando te enfiar uma bala na cabeça quem os vai esconder? Duvido que o teu irmãozinho tenha estofo para isso, arriscando-se a acabar como da outra vez ou então a sete palmos abaixo da terra. – Estava completamente louco.

- Tenho bons amigos. – Foi tudo o que Salvador se limitara a dizer. Soltou a camisa, endireitando-a – Então, vamos acabar com isto ou não?

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