Tudo o Que Sempre Quis || Cap.8 || Pt.2

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Anos antes, quando Lucas ainda era um rebelde incorrigível e Helena uma adolescente vistosa, Salvador viu-se dentro de um grande sarilho. Grande o suficiente para o perseguir desde então.
- És estúpido o suficiente para pensares que podes sair daqui vivo graças a meia dúzia de murros? – Hugo – limpava o sangue que lhe corria pelo canto da boca.
Salvador não respondeu com palavras mas sim com um valente pontapé no rosto dele. Deu por si a perder o foco e foi isso que virou a página da história. Num movimento rápido, Hugo colocou-se sobre ele, bloqueando completamente qualquer golpe que pudesse investir contra si. Mais uma vez, sentiu o cano frio da pistola encostado à cabeça, mas desta vez foi descendo.
- Abre a boca! – Gritou Hugo, forçando-o.
Mas ele não desistiu. Persistiu até ao ponto em que Hugo decidira que seria mais divertido acabar com ele com as próprias mãos.
- Que achas de repetir a dose do teu irmão mas contigo desta vez? – Resmungou, agredindo Salvador repetidamente.
O seu rosto era agora uma mancha vermelha. A sua cabeça andava à roda e quase sentiu-se a perder os sentidos, as forças. A imagem da irmã indefesa debaixo do brutamontes encheu-o de raiva até às entranhas. Voltou a debater-se contra Hugo, desta vez com mais força até o derrubar.
- Seu filho da mãe! – Gritou Salvador, colocando-se sobre ele.- Vou acabar contigo.
- Tal como acabaste com o meu irmão? – Os olhos de Hugo faiscavam.

Todas as memórias vieram à tona de uma vez só. A irmã a debater-se contra o brutamontes. O irmão com o rosto parcialmente desfeito e praticamente paraplégico. A mãe a chorar compulsivamente quando a sua casa fora invadida por aquela onda de terror e ódio por parte de Hugo.
- Eu acabo contigo sua besta! – Salvador perdera completamente o controlo. – O teu irmão mereceu o que teve. Sim acabei com ele com as minhas mãos como estou a fazer contigo, mas talvez te faça pior para aprenderes uma coisa, com a minha família ninguém mexe. Ninguém mesmo!
Hugo arregalou os olhos assustado com tamanha fúria no rosto do rapaz.
- Ah não sabias? – O surfista segurava-o pelo pescoço, com o rosto perto do dele – Dei com ele em cima da minha irmã. A sova que lhe dei foi pouco para o que lhe deveria ter feito.
De facto, Hugo não sabia essa parte da história. Tudo o que sabia era o que tinha visto. Salvador a agredir violentamente o irmão, para o deixar ali estendido no chão e pôr-se a andar.
- Queres saber o resto? Quando vi o que lhe tinha feito desapareci mas tive a decência de ir à esquadra entregar-me. Adivinha; legítima defesa. Com o depoimento da minha irmã fiquei-me por um aviso e uma mancha no cadastro.

Hugo limitava-se a ouvir, enquanto o seu cérebro tentava processar tudo o que ouvira. Gastara o seu tempo a honrar a imagem do irmão que afinal não passava de um violador. Perdera um ano a cumprir pena por defender o nome dele em vão. Quando viu novamente o punho de Salvador direito a si quase lhe implorou para parar. Naquele momento, era capaz de lhe implorar por perdão por tudo o que fizera. Hugo estava estendido no chão, imóvel, ensanguentado e a perder os sentidos. A fúria de Salvador era palpável.
- Puto, pára. Já chega! – Lucas entrou de rompante. – Tu não és assim. Não és como ele. – Puxou-o para trás, impedindo-o de continuar aquele martírio.
Os olhos do irmão estavam escuros, tão negros como a escuridão em que se encontrava.
- Vou acabar com ele por tudo o que nos fez.
- Mano, olha para mim. Deixa-o em paz. Vais acabar por o matar.
Após algum tempo, Salvador deixou-se cair ao lado daquele que fora o seu inimigo durante tanto tempo. Estava coberto de sangue, tanto seu como dele. As mãos tremiam-lhe. Matara o irmão dele e estava a um passo de repetir o erro.
- Eu matei-o, Lucas. – Salvador soluçava, olhando para as mãos cobertas de sangue. – Eu matei o irmão dele quando o apanhei em cima de Helena. Sou um monstro.
Lucas emparou o irmão fitando o corpo de Hugo. Não se mexia, estaria morto? Que grande sarilho em que o irmão se metera.
- Não és como ele. – Murmurou Lucas, de si para si.
- Oh meu Deus! O que é que tu fizeste Salvador?
Lucas ergueu o olhar, tal como o irmão. Ambos ficaram boquiabertos, não só por afinal aquele refúgio não ser assim tão secreto mas também por quem acabava de entrar.
- O que foste fazer Salvador?
- Sara. – Murmurou. – Eu sou um monstro. – Foi tudo o que dissera.
- Longa história. – Esclareceu Lucas apressadamente.

Sara estava incrédula. Jamais pensaria que o rapaz que amava era capaz de uma coisa daquelas. Teria assim tanta raiva dentro de si? Sempre lhe mostrou ser uma pessoa tão calma. O que via era uma completa mancha de sangue com um corpo inerte no centro.
- Ele está… morto? – Quis saber Sara, aproximando-se com cautela de Hugo.
Salvador limitou-se a cobrir o rosto com as mãos.
- Não sei – disse Lucas, pondo-se de pé.
O olhar dela transbordava de deceção e incredulidade. Estava atónica. Lucas viu o pulso de Hugo, talvez ainda respirasse.
- Então? – Ela estava assustada mas queria saber se o rapaz que amava era capaz de matar com as próprias mãos.

Lucas demorou-se a observar Salvador, só então fitou Sara.

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