Tudo o Que Sempre Quis || Cap.8 || Pt.3

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Desta vez destruíra a sua vida por completo. Deixara-se dominar pela fúria perdendo a razão e o bom senso algures no caminho.
Valera a pena, pelo menos? Valera a pena acabar preso a ver o sol aos quadradinhos durante uma semana? Nem ele próprio sabia responder a isso.
- Tens uma visita. Anda lá. – O guarda chamou-o do outro lado das grades de ferro.
Os olhos de Salvador estavam vermelhos. Já perdera a conta de há quanto tempo não dormia.
- Mexe-te! Não tenho o dia todo.
Obedeceu ao guarda antes que o aborrecesse ainda mais. Caminhou em silêncio, arrastando os pés até à pequena sala de visitas onde os irmãos e a mãe o esperavam.
- O que é que foste fazer? – Começou a mãe, visivelmente abalada.
Ele encolheu os ombros.
- Estou à espera da decisão do juiz. Logo veremos. – Respondeu, sem esperança.
- É assim agora? Deixas-te ir na corrente para onde ela te levar? – Lucas cerrou os punhos em cima da mesa, olhando o irmão olhos nos olhos.
- O que queres que faça? Não posso fazer nada. Não posso mudar nada. – Ergueu o olhar para a família.
- E mudarias? Se pudesses? – Quis saber Helena, magoada. – Eu bem te disse para não te meteres em sarilhos mas tu és teimoso. Valeu a pena tudo isso? Estás contente?- A voz dela transparecia sobretudo desilusão.
Ainda que o irmão fizesse o que fez para proteger a sua família, não era necessário chegar a tanto.
Salvador lembrou-se de Sara e da sua reação ao dar com aquela cena de terror.
- Não. Não mudava nada do que fiz. - Murmurou, de olhos baixos.
- Acabas-te com o tipo como querias, e agora? Valeu a pena trocar de lugar com ele? Era ele que devia estar aqui, não tu. Quando disse para te certificares que desta vez não voltaria não estava a dizer para dares cabo dele àquele ponto. Podíamos ter resolvido de outra forma. – Levantou o rosto do irmão para que lhe olhasse nos olhos – Podia ser diferente. Talvez não o soltassem tão cedo.
- Como está a Sara? – Quis saber, mudando de assunto.
- A Sara? Não faço ideia. Desde que ela apareceu naquele dia e assistiu aquela treta toda, nunca mais a vi por aí. Às tantas já se pôs a andar outra vez. De vez.
Não. Nada daquilo valera a pena, mas não mudaria o que fizera. Perdera Sara para sempre e nada a traria de volta desta vez. O que fora ele fazer? Ele não era assim. Não era aquele monstro, aquela besta enraivecida. Aquele não era ele.
- Guarda! – Chamou. Terminando a visita da família.
- Agora é assim? – Lucas levantou a voz – Vais fugir outra vez? É só isso que sabes fazer, não é mesmo? – Pegou na mãe e na irmã, deixando a sala antes de Salvador.
Aquelas palavras feriram-no, ainda que ele estivesse certo. Fugir era tudo o que fazia quando as coisas se complicavam.
Fugira de casa para não enfrentar o irmão paraplégico por sua culpa. Para não enfrentar o medo que a mãe sentia, por sua culpa. Para não olhar para Helena e lembrar-se do que tinha feito, por culpa do irmão de Hugo. Nem mesmo sabia o nome do tipo. Afinal, de quem era a culpa? Dele ou do outro fulano? Se ele não tivesse tentado magoar Helena, Salvador não o teria agredido, ele não teria caído sobre aquela pedra bicuda e não teria morrido. A partir daí nada daquilo teria acontecido. Hugo não aparecia na vida deles, Lucas não coxeava – após ter ido contra tudo e contra todos que lhe diziam que jamais voltaria a andar -, Helena não olhava por cima do ombro e a mãe não tinha medo de viver sozinha.
Mas, não fora ele que deixara a irmã sozinha naquela noite para ir buscar uma cerveja? Não fora assim que tudo começara realmente?
A culpa era dele, sempre fora. Fosse para onde fosse, jamais se livraria dela então porque não enfrentá-la de vez?
Eram os seus pensamentos enquanto fitava o teto da sua estreita cela. Já conhecia de cor cada ponto do teto encardido. Sabia que o vento não estava a seu favor mas talvez coubesse a si mesmo virar o barco e esperar por ventos melhores. Sabia que ir a julgamento era uma das coisas que não estava só nas suas mãos mas se fosse a arrastar-se até à sala do tribunal com aquele aspeto de derrotista não sairia dali tão cedo. Sara voltou a assaltar-lhe a mente. Ela era a sua melhor parte. Precisava dela para entrar na linha. Disso tinha a certeza. Mas também estava certo de que ela já estaria longe. Vira nos seus olhos quão desiludida e magoada estava. Fora mesmo muito burro, estúpido. Perdera o foco, deixara de ser objetivo. Tinha vivido para a vingança durante muito tempo e agora que estava tudo terminado o que lhe restava realmente? Mais culpa? Mais peso na consciência?
Soubera guiar Martim e Lucas para fora daquela escuridão mas ele próprio ainda lá continuava desde aquela noite. Contudo, não estava disposto a continuar por lá muito mais tempo.


O julgamento já ia a meio quando de facto, o vento mudou, mas para pior.
- Ordem no tribunal! – Gritou o juiz munindo-se do seu martelo. – Não volto a repetir. Serão postos na rua.
Na assistência várias exclamações fizeram-se ouvir, acompanhadas por assobios e insultos destinados ao tribunal.
- Senhor Lucas pode continuar. – Ordenou o juiz.
- Como estava a dizer, o meu irmão jamais seria capaz de matar quem quer que fosse. – Lucas não duvidava das suas palavras, mesmo assistindo ao que assistiu semanas antes.
- Senhor Lucas, o seu irmão há uns anos atrás entregou-se numa esquadra onde confessou ter agredido outra pessoa, levando-o à morte, ainda que legítima defesa. Não deixa de ser um crime agredir alguém daquela forma. – O advogado de acusação fitava Lucas, tentando arrancar mais alguma coisa.
Engoliu em seco.
- Sim, é verdade. Mas foi um acidente. Ele agrediu o tipo para defender a nossa irmã de ser abusada. Não o matou, literalmente. Deu-lhe uns socos, ele desequilibrou-se, caiu e bateu com a cabeça.
- Testemunhou o acontecimento?
- Não. Mas acredito nos meus irmãos. – Disse Lucas, firme como uma rocha.
- Não poderia a sua irmã, Helena Corte - Real, interpretar mal a situação? O acusado poderia ter empurrado o senhor Pedro Silva intencionalmente. Com o choque poderia confundir os acontecimentos. – O advogado estava implacável.
- Com todo o respeito, conheço a minha irmã desde que ela nasceu e duvido muito que ela tenha visto mal. Acredito na palavra dos meus irmãos! – Lucas começava a irritar-se com o maldito advogado.
- Não tenho mais perguntas.
Na assistência, Helena estava impaciente. Queria poder dizer que não vira mal naquela noite. Queria poder fazer alguma coisa pelo irmão. Apetecia-lhe gritar, chamar todos os nomes ao estúpido do advogado de meia tigela.
O juiz ouviu os seus pensamentos, a sua súplica, ao chamá-la para testemunhar.
- Senhora Helena Corte-Real preste juramento.
- Juro pela minha honra dizer toda a verdade e só a verdade. – Declarou Helena, firme.
Fitou Salvador que se encontrava no banco dos réus.
- Senhora Helena Corte-Real é verdade que foi vítima de tentativa de violação no dia dez de Junho de 2012, por parte do senhor Pedro Silva?
- Protesto! – Alguém da defesa fez-se ouvir. – Não é revelante para o julgamento em curso Meritíssimo.
- Prossiga. – Ordenou o juiz ignorando-o.
- Sim, é verdade. – Engoliu em seco ao recordar-se daquela noite terrível.
- Tem toda a certeza que viu o senhor Pedro Silva cair, batendo com a cabeça, o que causou a sua morte?
Ela suspirou. – Sim. Tenho toda a certeza do que vi. Estava abalada, é verdade, mas sei o que vi. O meu irmão jamais mataria alguém voluntariamente.
- Quer contar ao tribunal todo o sucedido?
Helena nunca perdeu a postura ao recordar-se daquele fantasma do passado que tanto se esforçava para enterrar.
- Naquela noite eu e os meus irmãos fomos a uma festa da nossa terra. Acabámos por nos dividir e quando fiquei sozinha… Alguém me tapou a boca e arrastou-me para o beco. Tentei gritar mas ninguém me ouviu. O meu irmão Salvador deu por minha falta ao fim de algum tempo e encontrou-me.
- Encontrou-a no beco?
- Sim. – Não fora isso que acabara de dizer?
- Com o senhor Pedro Silva?
- Sim. Estava a tentar rasgar a minha roupa. – Helena fechou os olhos, reprimindo as lágrimas.
- O seu irmão Salvador encontrou-a no beco com o senhor Pedro Silva. – Constatou o advogado.
- Sim. – Helena começava a ferver. Seria o advogado compreensão lenta ou tentava apenas confundi-la?
- O que aconteceu de seguida?
- O Salvador tirou-o de cima de mim. Começou a agredi-lo…
- Repetidamente?
- Não! O meu irmão não é nenhum monstro! – Explodiu, controlando-se de seguida – Deu-lhe alguns murros, dois ou três, para o afastar de mim.
- Está a dizer que o arguido agrediu o senhor Pedro Silva mais do que uma vez?
- Sim. Como disse, dois ou três socos para o afastar de mim, nada de mais.
- Não tenho mais perguntas. – Disse o advogado, deixando a dúvida no ar.
Que raio estava ele a tentar fazer? Joguinhos mentais?
Salvador foi novamente chamado. Repetindo o que tinha dito anteriormente. Estava seguro de si, afinal o que tinha a esconder?
Todas as cabeças se viraram para a porta quando esta bateu ao entrar alguém. Sara. Decidira aparecer no julgamento, ainda que tivesse sido uma decisão difícil de tomar. Estava decidido. Estava ali para ouvir o que havia para se ouvir.
- Senhor Salvador Corte-Real, em sua defesa, diga o que aconteceu na noite dez de Junho de 2012. – Pediu o advogado de defesa impaciente. Aquele não era o motivo do julgamento mas sim um fio de ligação entre os dois acontecimentos.
- Levei os meus irmãos à festa da nossa terra naquela noite. Acabámos por nos separar durante algum tempo até que dei por falta da minha irmã. Procurei-a por todo o lado até que a encontrei no beco com o outro em cima dela – Tentou reprimir aquelas recordações – É a minha irmã. Afastei-o dela e dei-lhe um murro. Ele retribuiu por isso dei-lhe mais um. Disse para deixar a minha irmã em paz mas empurrou-me. Não o empurrei de volta, dei-lhe um soco, ele desequilibrou-se e caiu para trás. Bateu com a cabeça. – Olhou de Helena para Sara, voltando a Helena.
Só eles os dois sabiam o que realmente acontecera, e iria permanecer assim, se nem certezas tinham ao certo sobre o que acontecera antes de Pedro cair.
- Estava alcoolizado?
- Não.
O advogado já sabia a resposta, ao ver o resultado das análises para o álcool e outras substancias que fizeram naquela noite. Dera negativo.
- Estava completamente sóbrio, portanto?
- Sim. Tinha ido buscar uma cerveja mas nem a cheguei a beber.
- Alguém pode confirmar o que acabou de dizer?
- Creio que somente a minha irmã assistiu ao sucedido.
Novamente os olhares curiosos cravaram-se na grande porta do tribunal.

- Eu posso confirmar. – Uma voz grossa fez-se ouvir no fundo do tribunal. Tinha uma ligadura na cabeça e alguns golpes no rosto. Caminhava devagar devido aos outros ferimentos. – Chamo-me Hugo Silva e posso confirmar que Salvador não matou o meu irmão, Pedro.

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