Tudo o Que Sempre Quis || Cap.8 || Pt.4

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Todos ficaram confusos, nomeadamente Salvador e Helena. Teria Hugo realmente visto alguma coisa? Saberia ele a verdade? Helena estremeceu, mas Salvador sossegou-a com aquele olhar que diz «Vai ficar tudo bem».
Hugo foi chamado a testemunhar.
- Ele não matou o meu irmão. Foi um acidente. – Foi tudo o que disse, recusando-se a repetir pela milésima vez o que o tribunal já sabia de cor.
- Como pode ter a certeza?
- Porque eu vi. Vi o meu irmão cair no chão. – Hugo era a espontaneidade em pessoa. Nada de rodeios. Queria despachar o assunto de uma vez, era para isso que ali estava.
O testemunho de Hugo alterou tudo, restava saber se para melhor ou pior. Foi também chamado a testemunhar sobre a sua recente agressão, por parte de Salvador.
- Foi um engano. Uma confusão. Eu queria culpar alguém pela morte do meu irmão e culpei-o a ele, embora tenha sido um acidente. É mais fácil quando temos alguém para culpar. Acho que mereci a sova que levei. Mexi com a família dele durante muito tempo, fui preso por isso, como devem saber.
Após várias horas de perguntas incluindo a pausa para o almoço, no final do dia já existia um veredicto para ser lido. Quando todos suspendiam a respiração, os olhares de Hugo e Salvador cruzaram-se.
- Na acusação de homicídio culposo, o júri declaram o arguido… - Ninguém respirou, nomeadamente Salvador e a família. Levaram uma eternidade para terminar a frase. Quase poderia ler «culpado» nos lábios de quem proferia o veredicto. – Inocente.
O juiz pediu novamente ordem no tribunal
- Na acusação de agressão agravada, o júri declara o arguido – desta vez a espera foi menor, ou assim pareceu – Inocente.
Foi o reboliço total. Helena e Lucas abraçaram o irmão. Ao longe, Hugo acenou com a cabeça a Salvador.
Estava terminado o julgamento. Todo aquele assunto estava encerrado.

Já em liberdade, decidiu procurar Hugo e colocar todos os pontos nos i’s, por assim dizer.- O que foi aquilo? –
- Não foi nada. – Hugo não coxeava tanto mas ainda tinha marcas no rosto, embora estivessem a cicatrizar.
Salvador abriu a boca e voltou a fechá-la. Não sabia o que dizer.
- Só disse a verdade. Não matas-te o meu irmão, não seria justo pagares por isso.
- Mas…
- Eu vi. Eu sei. Mas é melhor fingir que não sei e deixamos as coisas assim. No fundo, ele mereceu, porquê arrastar mais pessoas para isto se ele foi o único culpado? Ele tentou violar a tua irmã, no teu lugar eu teria morto o tipo de certeza.
Salvador anuiu, recordando que quase o matara ao murro e pontapé.
- Mas tu não és como eu. Eu vi isso naquele dia. Podias ter dado cabo de mim mas deixaste-me a respirar. No fundo, não o querias fazer. Não és como eu. – Hugo não deixou que o interrompesse – Para mim foi mais fácil culpar alguém pelo que aconteceu com o Pedro. Poderia descarregar em alguém e foi o que fiz. Peço desculpas por isso, a ti e sobretudo à tua família. Não agi corretamente. – Esfregou os olhos – Céus, fiz tudo errado.
- Eu quase te matei à paulada. – Declarou Salvador entre dentes.
- E mereci isso. Não sabia o que o Pedro tinha feito mas consegui juntar as peças nestes últimos dias. Mereci a sova que me deste. – Fez uma pausa – Ouve, eu vou pôr-me a andar e nunca mais terão de se preocupar comigo. Já fiz estragos suficientes. Sei que pedir perdão não muda o que fiz mas espero que me possam perdoar, não agora mas quando acharem que estiver na altura. Se alguma vez for a altura. Não vos censuro. Não quero mais problemas por isso esquece isso e segue a tua vida.
Hugo virou as costas, afastando-se de Salvador sem o deixar abrir a boca. Estava tónico. Que reviravolta esta. Já se encontravam no novo ano e a sua vida acabara de mudar radicalmente. Estava livre de todos os fantasmas, finalmente.
Respirou fundo e correu pela areia. Descalçou os ténis e deixou a roupa caída no areal, ficando apenas em boxers. Correu para a água gelada em plena luz do dia. Sorte que poucas pessoas se encontravam na rua para assistir àquela sua cena de loucura. Mas que importava? Era um homem livre. Nadou livremente na água gelada. Soube-lhe bem aquela sensação. Já não se lembrava da última vez que apreciara realmente o presente. No meio do mar gritou de satisfação, de alegria.
Na marginal, Sara sorria a toda aquela cena digna de ser filmada. Ainda que magoada e um tanto desiludida, sabia que Salvador ainda era o rapaz que conhecera, afinal, ele não era um monstro mas sim alguém que durante tanto tempo viveu com o coração apertado temendo pela família. Sofreu em silêncio com a sua culpa.

Na verdade, Salvador não sofria pela sua culpa, mas sim pela que carregava, embora não fosse sua. Mas estava disposto a carregá-la o resto da vida se isso significasse que Helena estaria segura. Era o segredo deles, aquele que levariam para a cova quando fossem velhos.

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2 comentários :

  1. Muitas vezes, para defendermos os nossos fazemos coisas que não são as mais corretas. Perdemos o foco e tornamo-nos em algo que não somos.
    «Que reviravolta esta», as palavras perfeitas para descrever mais este capítulo!
    Venha o próximo :D

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