Tudo o Que Sempre Quis || Cap.9 || Pt.1


«Aprendi que amar não significa estar junto,
Mas sim querer ver a pessoa feliz,
Mesmo que isso custe a sua felicidade.»


Salvador estava esticado debaixo do motor do carro que acabara de comprar em segunda mão. Era velho, tão velho que ele duvidava que aguentasse um quilómetro, mas fora por isso mesmo que o comprara sem pensar duas vezes. Era um Volkswagen Carocha com a pintura desbotada e a cair aos bocados, contudo era o único que a sua pequena poupança permitia pagar.
Era tempo de bonança após uma longa tempestade. Finalmente podia respirar fundo sem ter nada por que temer. Comprar um carro fora o primeiro passo para a nova fase da sua vida.
Helena andava ainda por ali perto dele, sobretudo perto de Martim. Lucas dedicava-se ao seu novo emprego como designer e levava uma vida pacata ao lado de Mafalda. A mãe, pela primeira vez, tentava seguir em frente e os avós estavam finalmente em paz.
Todo aquele desfecho afetara cada um deles mas agora que tinha terminado podiam retomar as suas vidas sem olhar por cima do ombro. Apenas faltava Sara para o quadro estar completo. Onde estaria ela? Após o julgamento, Salvador não voltara a encontra-la. Ela não esperou que ele saísse do tribunal e encarando isso como uma forma de o manter afastado, Salvador também não a procurara. Queria fazê-lo, por diversas vezes ponderou fazê-lo mas tinha receio do que ela poderia dizer. Sabia que as palavras podiam ser cruéis, ainda que ele merecesse ouvir poucas e boas, não estava preparado para a reação dela.
O que pensaria de si? O que iria na sua mente e no seu coração? Como ele queria ser mosca. Mas era um ser humano, um rapaz com idade suficiente para deixar de fugir e de se esconder. Era um defeito de irmãos, tanto ele como Helena e Lucas tinham tendência para se afastar do mundo quando as coisas se complicavam. No fundo, ao afastarem-se das outras pessoas, tentavam proteger-se a si próprios. A vida fora dura com todos eles, ensinando-lhes a não confiar em qualquer pessoa; criaram instintos que se por vezes era uma qualidade, outras tinha tendência a isolá-los do que os rodeavam. Aprenderam a contar só com eles mesmos.
- Meu, isso nem sequer chega a sair daqui. – Martim entrou na pequena garagem onde Salvador estudava atenciosamente o motor do Carocha, perdido em pensamentos.
O surfista deslizou para fora, revelando as manchas de óleo que cobriam o seu rosto e as mãos.
- Queres apostar?
- Talvez seja melhor não. Tenho tendência a perder apostas com a tua família. Deve ser genético. – Martim sorriu, recordando Helena por breves instantes.
Salvador leu-lhe os pensamentos.
- Principalmente com a minha irmã, não é puto?
- Nem te atrevas a abrir a boca, meu. A tua irmã só me dá cabelos brancos. – Aproximou-se de Salvador para lhe mostrar. – Estás a ver?
- Não vejo nada pá. Deixa de ser menina.
Era verdade. Martim não tinha um único cabelo branco mas era fácil de se pensar que sim, a julgar pelas dores de cabeça que aquela miúda lhe dava. Mas e daí? Ele adorava-a. Adorava a forma selvagem que ela o encarava. Por vezes era bruta à sua maneira, e ele estaria a mentir se dissesse não gostar disso.
- Mudando de assunto. A minha prima deve aparecer por cá nos próximos dias. Achas que é seguro? O terreno não está minado nem nada do género? – Rondou o Carocha, tentando parecer despreocupado.
- Mas não resolveram já a história da tua prima Eva? – Salvador lembrava-se da cena de ciúmes da irmã a que assistira durante o evento de surf semanas atrás quando uma rapariga se atracou ao pescoço de Martim como uma lapa. Rapariga essa, que eles não sabiam ser prima dele.
- Meu Deus. Nem me lembres disso. Viste bem a fera da tua irmã quando lhe tentei explicar quem era a Eva? Andei para sair da tua casa com a cabeça partida à quantidade de loiça que ela me atirou para cima.
Salvador soltou uma enorme gargalhada. Tão grande que levou as mãos à barriga que já lhe doía de tanto rir. Quase dera em doido ao chegar a casa naquele dia. Não só perdeu uns quantos pratos e copos como também os tachos estavam espalhados pela sala fora, para não falar que por um triz não levou com um pela cabeça.
- Desaparece daqui Martim!- Gritava ela atirando mais um prato – Desaparece daqui e vai ter com as tuas curtes. Vai! – Agora era um copo que voava na direção dele.
- Helena deixa-me explicar…
A resposta dela foi uma tampa de inox do maior tacho que Salvador tinha na cozinha, lançada na sua direção. Helena estava capaz de o engolir vivo. De o esganar.
- Desaparece!
Desta feita, Salvador acabara de entrar em casa.
- Mas o que é que se passa com a minha loiça? Helena, para! – Pouco lhe valeu gritar com a irmã.
Os objetos voadores eram agora destinados aos dois.
- A miúda é minha prima! Helena! Ouve-me, caraças. – Martim recusava-se a ser alvo de pratos uma vez mais. Segurou-lhe os braços recorrendo à força.
- Larga-me estúpido! – Gritava ela, tentando deitar a mão a uma colher de pau.
- Largo-te quando me ouvires. A Eva é minha prima. Entendido?
            Salvador arriscou-se a defender o amigo.
- Helena ganha juízo. Ele está a dizer a verdade. Olha para esta porcaria toda que fizeste. – Suspirava. Aquela maldita loiça que ele com tanto cuidado andara a comprar conforme as suas possibilidades para equipar a cozinha e agora não passavam de cacos espalhados pela cozinha, pela sala. Provavelmente iria encontrar alguns vidros na casa de banho ou até mesmo nos quartos.

- Aquela miúda não é como as que estás habituado. É fogo. – Constatou Salvador que tão bem conhecia o feitio da irmã.
- Fogo é pouco. É uma bomba-relógio. Bolas, naquele dia tive mesmo medo dela, acredita. – Suspirou.
- Acredito, pois. Estavas branco como a parede. – Salvador mergulhou de novo no motor, retirando alguns parafusos.
Martim deixou-se ficar em silêncio a observar o amigo munido de ferramentas de mecânica. Será que ele mais tarde saberia de onde saíra aqueles parafusos de todos os tamanhos? Parecia um quebra- cabeças.
- É melhor dar-te uma ajudinha. – Constatou, arregaçando as mangas.
- Agora já acreditas que valerá a pena perder tempo com esta lata velha? – Salvador sorriu-lhe por cima do ombro, limpando a testa com a mão suja de óleo.
- Se acreditas, porque não haveria de acreditar? Mas se isto andar será graças aos meus dotes de mecânico. Duvido que estes parafusos acabassem no sítio de onde saíram.
Salvador fulminou-o com o olhar.
- Pronto. Pronto. Passa lá essa chave, meu.

Durante longos minutos apenas o barulho das ferramentas se faziam ouvir, assim como o vento a uivar fora da garagem que Salvador alugara com a ajuda do seu avô. Tinha-lhe dito, ao entregar-lhe um envelope com algumas notas, que era uma espécie de presente para ele seguir em frente. Nunca pedira nada aos avós, e custava-lhe aceitar o dinheiro do avô, mas se o recusasse sabia que António se zangaria com ele. Desse modo, aceitou. Era um espaço de dimensões razoáveis, chegava perfeitamente para o efeito necessário. Havia ferramentas por todo o lado e o pequeno Carocha vermelho centrava o espaço.
A porta abriu-se de rompante.
- Bem me parecia que só podiam estar aqui. – Gritou Helena.
Martim engoliu em seco. Mais uma vez a imagem dos tachos a voarem na sua direção, assaltou-lhe a mente, deixando-o sem cor.
- Parece que viste um fantasma. – Helena arregalou os olhos de forma assustadora.
Salvador interveio.
- Só precisa de apanhar ar. Vai lá fora um bocado, puto.

Martim acedeu. Limpou as mãos a um trapo cor de ferrugem e desapareceu.
- O que é que ele tem? Estava mesmo branco. Nem parece dele. Já estava preparada para as suas mil e uma piadas sem graça. – Murmurou Helena, preocupada.
- Assustas o rapaz, maninha. É o que é. – Salvador encarou-a. Teria de se fazer valer pelo amigo, caso contrário o rapaz teria um ataque cardíaco por aqueles dias.
Helena anuiu, confusa.
- Será que só tu é que ainda não percebeste? – Aproximou-se da irmã. Nunca pensou dizer o que estava prestes a dizer. – O Martim é doido por ti mana.
- O Martim, mano? O Martim é doido por qualquer rabo de saias. – O irmão só podia estar louco. Certo? Era uma partida. Uma piada de mau gosto e ela não lhe daria o prazer de gozar com a sua cara.
- Tu lá sabes mana. – Salvador desistiu. Não valia a pena insistir com a irmã. Conhecia-a, sabia que ela acabaria por pensar no assunto e chegar à conclusão que ele chegara tempos antes.
- Não estou interessada nele, de qualquer das formas. – Helena empinou o nariz, convicta.
- De certeza? No evento de surf há umas semanas atrás não pareceu. Ficaste verde quando o viste com outra miúda. Ou já te esqueceste?
Claro que Helena não se esqueceria desse triste dia. Quase explodira ao ver Eva pendurada no pescoço de Martim. Do seu Martim. Quem iria dizer que aquela tipa era prima dele? Sobretudo, quem diria que ela iria morrer de ciúmes?
Não. Martim era deplorável. Não gostava de ninguém a não ser de si próprio. Adorava miúdas, sempre fora assim porque haveria de mudar? Salvador estava a brincar com ela, só podia.
- O Martim… é o Martim e isso basta. Tenho de ir. – E afastou-se, antes que o irmão pudesse abrir a boca.
- Até logo! – Gritou-lhe, quando ela fechou a porta com força.
Casmurra. A sua irmã era uma autêntica casmurra.
Não se lembrava de uma única vez em que ela desse o braço a torcer, não seria agora que o faria. Com o Martim? Ele bem podia rastejar-lhe aos pés o resto da vida.
Observou demoradamente o Carocha de vários ângulos. Tinha ali um belo trinta um, não havia dúvidas. Rapidamente novas ideias lhe surgiram, nomeadamente para a pintura. Manteria o vermelho mas talvez lhe juntasse umas riscas brancas. Isso mesmo. Ficaria original.
Pegou no bloco onde escrevia o que precisava para o restauro e num lápis.
Antes de desenhar a primeira linha a porta da garagem voltou a bater, desta vez com menos força por isso pôde adivinhar que não seria Helena. Essa deitava qualquer porta abaixo por onde passasse, ainda mais depois de ele lhe dizer o que dissera sobre Martim.
- Então puto, já ganhaste cor? – Salvador deixou-se ficar onde estava. Não vendo que não era Martim que acabara de entrar.
- Ah, Olá. - Uma voz feminina despertou a atenção dele. Desculpa, não queria interromper o teu trabalho.

Salvador sentiu os joelhos a fraquejar de tal maneira que se não se encostasse ao carro acabaria no chão.
Agora era ele que perdia toda a cor. Sentia-se pálido, com calafrios a percorrerem-lhe a espinha.
Era como se estivesse a olhar para um fantasma.

Como poderia ela estar ali após tanto tempo? Esfregou os olhos disfarçadamente, não fosse estar a alucinar. Mas era real. Uma rapariga alta e mais esguia do que ele se lembrava, encarava-o com uns olhos azuis, mas tão azuis que ele se sentiu a desfalecer ao olhá-los bem fundo. Era como se estivesse a olhar para a alma dela. Mas no fundo, não era isso que ele queria. Preferia que ela nunca tivesse aparecido por ali. Sobretudo, tanto tempo depois.

                                          ⚓

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2 comentários :

  1. Que três! Coitado do Salvador que ficou sem louça :b ahahah
    Mais um excelente capítulo!

    r: Muito obrigada pelas perguntas :)

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