Tudo o Que Sempre Quis || Cap.9 || Pt.2

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Por instantes toda a garagem parecia andar à roda. Estava atónico, fora apanhado completamente de surpresa.
- O que… - As palavras escapavam-lhe – O que estás aqui a fazer? – A custo, conseguiu articular uma frase.
A rapariga colocou as mãos nos bolsos e encolheu os ombros.
- Tenho andado à tua procura. – Disse, medindo as palavras.
- Á minha procura? Porquê? Porquê agora? – Salvador começava a ganhar cor nas faces.
- Temos muito a resolver Salvador.
- Não, não temos nada a resolver Mónica. Resolvemos tudo na altura. Querias liberdade para andares com os teus amigos à vontade, rodeada de gajos como sempre gostaste e eu não estava para isso.
- Salvador escuta-me…
- Deixa-me falar. Ainda não acabei. Podíamos estar bastante longe um do outro e admito que nem sempre estive ao teu lado quando foi preciso mas cansei-me desses teus joguinhos. Para mim, namorada minha não anda a sair com outros gajos, não anda a fazer as figuras que tu fizeste. Estarmos longe não devia significar que poderias fazer o que fizeste. Querias liberdade e eu dei-te a maldita liberdade. Agora deixa-me em paz que tenho mais o que fazer.
- Não Salvador. Agora vais tu ouvir-me.
Expeliu o ar retido dos pulmões.
- Que seja. – Acedeu, contrariado.
- Tens razão no que disseste. Eu ainda era muito nova para entender o teu ponto de vista em relação a certas coisas e fui bastante estúpida contigo. Admito isso. Admito que nem sempre fui correta mas também não o foste quando prometias visitar-me e não aparecias. Nunca aparecias. Nunca estavas lá comigo.
- Sabes porquê? Porque não podia. Nunca foi por não querer mas sim por não poder. E sim, chegou ao ponto de por vezes não forçar mais a coisa para conseguir ir porque comecei a ver que não teríamos futuro. Tudo bem, se tivesse ido ter contigo podíamos ter resolvido as coisas, talvez. Mas não era apenas isso. Já nem te reconhecia, com esses alargadores nojentos, que não tem outra palavra, a furar-te a porra das orelhas. Já não eras a miúda que eu tinha conhecido, e foi pela miúda que eras que eu me apaixonei, não por um monte de estuque na fronha. – Salvador deixou cair os braços. – Eu amava-te pelo que eras, sem nada dessas coisas.

Por momentos, nenhum deles disse nada. Ambos estavam certos, cada um à sua maneira.
Num momento de fraqueza, ao olhar Mónica nos olhos, foi invadido por um enorme desejo que tanto tempo antes tinha desaparecido. Era como se tudo estivesse a vir à tona.
Ainda que não fosse a rapariga que conhecera, ela estava linda. Melhor, estava bonita, aquele rímel exagerado e alargador horroroso estragavam tudo. Não tinha nada contra a quem gostasse daquelas coisas mas em Mónica só lhe tirava a pinta.
Naquele momento desejava-a, ainda que não quisesse. Como se precisasse de saciar aquela sede, aquele desejo tremendo. Também ela se sentia assim. Podia ter passado bons momentos com alguns rapazes mas era Salvador que sempre fizera o seu coração bater mais forte e agora que ali estava não iria deixá-lo escapar. Depressa o empurrou contra o Carocha que abanou violentamente. Salvador estava entre a espada e a parede. Sentiu o hálito quente dela. O seu calor. Quis resistir mas não conseguiu. Naquele instante Sara não tinha importância, nem sequer se lembrara dela. Rendido à loucura, segurou Mónica e encaminhou-a para a bancada onde guardava alguns apetrechos que rapidamente deitou ao chão. Mónica cobriu-lhe a boca de beijos. Como ele estava forte, cheio de músculos no sítio certo. Como pôde ela esperar tanto tempo para saciar aquela sede? Adorava sentir os músculos dele debaixo da palma das suas mãos, com o corpo colado ao dela.
Despiu-lhe a camisola num gesto brusco, deitando-a ao chão e quando se preparava para deitar as garras de fora, teve a surpresa da sua vida.
- Mónica, não. – Salvador afastou-a, voltando a vestir a camisola. – Não posso fazer isto.
- Porquê? Parecias querer tanto como eu. – Estava completamente estupefacta. Que raio se passava com ele? Num momento saltara-lhe em cima e no outro deixava-a assim?
- Mas não quero. Contigo não.
- Vai-te lixar! – Gritou-lhe. – Tu e as tuas manias.
- Manias? Não vou curtir um bocado contigo só porque apareceste assim do nada. Há uns tempos atrás ainda me darias a volta mas agora não. Não vou voltar a cair nisso. Não sou mais um dos teus brinquedos.
Mónica pegou na sua mala e atirou-lhe alguns trapos que apanhara do chão.
- Fica para aí com a tua vidinha miserável num fim de mundo como esta terrinha. Nunca serás ninguém aqui. Não vales nada. – Mónica gritava furiosa por ter sido rejeitada.
- Não valho nada? Está bem. Então chega aqui. – Segurou-a por um braço, colocando-a em frente do espelho lateral do Carocha. – Olha-te bem ao espelho e depois diz-me que não valho nada. És muito boa tu, sempre mais que os outros. Agora desaparece da minha garagem.
Ele estava fora de si. Como raio aquilo acontecera? Num instante cometera um erro enorme e de seguida Sara ocupara todo o seu pensamento. Fora ela que o impedira de ir até ao fim com aquela asneira. Ela estava ausente, e ainda que não quisesse saber dele, gostava era dela e não de Mónica. Definitivamente esse capítulo da sua vida já estava encerrado.
- Estúpido! Sou mesmo estúpido! – Gritava insultos a si mesmo quando Martim regressara, finalmente.
- Ei. Sei que demorei um bocado mas tem lá calma não é preciso ofenderes.
- O quê? – Salvador tinha as mãos na cintura. – Não te estou a ofender.

Martim ficara confuso. Realmente muito confuso.
- Estive meia hora ausente e tu deitas tudo abaixo? Passou aqui um furacão ou quê? Não me digas que foi a tua irmã. – Ao ver a bancada vazia e tudo espalhado pelo chão, ponderou que fosse obra de Helena. Deus sabia que ela era especialista nesse campo.
- Puto, vou-me embora. Não estou com cabeça para isto.- Salvador acabara de fechar o capô do Carocha.
- O que se passa contigo?
Salvador demorou a responder, seria sensato partilhar aquele momento caricato com o amigo?
- Só me meto em sarilhos, é o que é. A minha ex., a Mónica apareceu aqui.
Martim esperou que ele lhe adiantasse mais alguma coisa mas não o fez.
- Não me digas que… - Apontou a confusão de ferramentas espalhadas pelo chão, adivinhando o desfecho.
- Não! Quer dizer…quase. Mas mandei-a embora. – Salvador sentia-se envergonhado e sobretudo sentia que tinha traído Sara.
Martim não conteve um sorriso malicioso.
- Puto, para com isso. Eu amo a Sara. Não sei onde anda, não sei nada. Foi um erro, um momento de fraqueza e estupidez aguda. Agora para de te rir que não tem graça nenhuma.
Na mente de Martim, a imagem do amigo com Mónica ganhava novos contornos. Fora por um triz que não dera com o amigo com as calças na mão e para ele, isso tinha graça, ainda que não tivesse graça nenhuma.
- O que vais fazer agora? – Quis saber Martim, retomando a postura.
- Sei lá o que vou fazer. Pus a gaja na rua. Vou mesmo sair daqui antes que comece a trepar às paredes.

E assim foi. Salvador fechou a garagem. No dia seguinte, com a cabeça no lugar, retomaria o trabalho com o seu Carocha.
O que ele não esperava era que Sara tivesse visto Mónica a sair da garagem a barafustar insultos daquela maneira e a compor as roupas. Qualquer ser humano com dois dedos de testa chegaria à conclusão que ela chegara.

Salvador era para esquecer. 

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