Tudo o Que Sempre Quis || Cap.9 || Pt.3

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Salvador caminhava à beira-mar em passos lentos, enquanto Sara no pequeno miradouro, fitava o horizonte, ainda que o seu pensamento andasse longe. Como ele fora capaz? O rapaz que ela tanto admirara inicialmente acabara por se revelar igual a tantos outros que ela desprezava. Seria culpa sua? Ignorara-o à saída do Tribunal, sem lhe dar hipótese de se aproximar sequer. Andara ausente durante semanas com o objetivo de colocar as ideias em ordem mas em contra partida apenas se afastara cada vez mais dele ao invés de estar ao seu lado. Salvador passara um mau bocado e o que fizera ela? Nada mais que lhe dar as costas. O rapaz cometera um erro, é verdade, mas merecia ser punido pelo resto da vida? Afinal, ele protegera a família com unhas e dentes. O que sabia ela sobre família? A sua resumia-se a pais ausentes que inicialmente tentavam comprar os filhos com presentes, mas depressa os presentes foram trocados pelo cinto de cabedal do pai ou pelo chinelo da mãe.
Salvador era leal e fizera tudo para proteger quem amava. Quem era ela para o julgar?
Em tempos, prometera-lhe que voltaria de vez, e mal chegara, zás, dera de caras com Mónica a sair da garagem dele a compor as roupas amarrotadas. Que raio ia na cabeça dele? Esquecera-a assim tão facilmente? Seria ela assim tão insignificante?

Estavam tão perto um do outro sem saberem. Como se o destino fizesse questão de os manter à distância.
Cometera um grandessíssimo erro ao deixar-se levar por Mónica. Fora apenas um momento de loucura mas era o suficiente para não o deixar dormir nos próximos tempos. No que estava a pensar? Amava Sara. Ainda que não parecesse, amava-a. Resolveu vestir o fato de surf e entrar na água sem hesitar. Normalmente o surf era a solução para os seus problemas mas naquele instante não aliviou o aperto que sentia no peito, nem por um segundo. Pelo contrário. Surfar sozinho só o recordava da solidão em que caíra ao longo do tempo.
Em miúdo, ainda que tímido, estava sempre rodeado de amigos que adoravam brincar com ele, jogar à bola, andar de bicicleta. Nunca tivera problemas enquanto criança no que diz respeito a amizades. 
Com o avançar dos anos, desenvolvera um muro que protegia o seu pequeno mundo, barrando a passagem a quem se atrevesse a tentar entrar. Deixara de confiar nas pessoas, ficando muitas vezes de pé atrás o que acabava por os afastar. Agora que era um rapaz adulto os seus amigos dignos da palavra era apenas Martim. Irónico. Logo Martim que era o seu oposto, como preto e branco. Contudo, adorava-o, aprendera até a confiar nele como um irmão. Restava-lhe também Helena mas quando fosse altura de regressar à faculdade, voltaria aos seus intermináveis dias sozinho com a sua sombra.
A ideia de a irmã voltar à sua rotina deixara-o triste, habituara-se a tê-la sempre por ali de volta dele a bichanar. Sempre irritada com Martim. Tinha cá um feitiozinho… Mas adorava-a e iria sentir imenso a sua falta.

O mar estava deserto, sem um único surfista por ali.
Salvador desistira de surfar ao notar que até as ondas estavam contra ele. Que inferno. Havia dias em que pensava que seria melhor nem sair da cama, e aquele era um desses dias que não agrada a ninguém.
Arreliado consigo próprio, saiu da água contrafeito, largando a prancha na areia sem dó nem piedade. O seu mau humor expandira-se. Ainda que por sua culpa, o sucedido no dia anterior com Mónica, teria sido um erro. Uma grande estupidez e isso estava a pô-lo doido.
Resolveu regressar a casa, decidido a esticar-se no sofá, de mal com o mundo e só de lá sairia quando aquele dia infernal terminasse.
Ao entrar no prédio quase chocava com a Dª Rosário.
- Que susto! – Exclamou ela, levando a mão ao peito.
- Desculpe. Não a tinha visto. – Declarou, pondo de lado os seus pensamentos.
- Olha para isto que encontrei ali fora à porta. – Pegou num pequeno cachorro, como se pegasse num neto – Estava ali a ganir e a tremer de frio. Não ia deixar o bicho ali fora mas também não sei o que fazer com ele.
Salvador afagou as orelhas à pequena bola de pelo castanho.
O seu mau humor dizia-lhe para ela o entregar a um veterinário, mas depressa seria encaminhado para um canil onde acabavam tantos animais abandonados e o que aquele cão precisava era o mesmo que ele próprio. De conforto. De alguém que cuidasse dele, lhe fizesse companhia.
- Eu fico com ele. – Respondeu, pegando no cachorro que lhe lambeu a cara.
A Dª Rosário nem teve tempo de abrir a boca.
- Bem por este andar vais-te chamar babão! – Resmungou ele, limpando a bochecha com a palma da mão.
O cachorro ladrou.
- Tudo bem. Vamos pensar noutro nome.


Dª Rosário viu Salvador desaparecer pelas escadas com o animal ao colo, mais animado do que como entrara no prédio. Aquele rapaz andava outra vez com cara de poucos amigos, esperava que não andasse metido em sarilhos outra vez. Ele era a companhia de Martim e não queria sequer pensar o que seria do neto se alguma coisa lhe acontecesse.
Colocou as mãos no bolso do avental. Ainda se recordava de quando dera com os dois embrenhados nas obras do sótão que agora era o apartamento de Salvador. Quem diria que duas pessoas como aqueles dois acabariam tão amigos. Ela própria admitia que o neto não era flor que se cheirasse mas aquele rapaz pusera-o na linha.
Enquanto isso, Salvador conversava com o cão, como se este lhe respondesse, através de latidos quando concordava ou a ganir quando a coisa não era do seu agrado.
- Faísca? Que achas? – Continuava a pensar que nome lhe dar. – Pronto, também não gostas, já percebi.
Quando mais tarde Helena chegara a casa ia tendo um ataque cardíaco ao escutar um latido através da porta. Um cão na casa do irmão? Não! Ela odiava cães de toda a raça e espécie desde que um lhe abocanhara a perna em criança. Melhor, não era ódio mas sim pânico. Via um cão na rua, fazia questão de passar para o outro lado ou ir dar uma volta enorme.
- Estás maluco? Um cão? – Protestava ela enquanto subia as escadas com receio que de repente uma fera lhe saltasse em cima.
- Ele não te come! – Gritou Salvador da casa de banho. – Anda cá! – Resmungou ele quando o cachorro lhe escapara da banheira, molhando tudo e mais alguma coisa.
- Meu Deus! – Helena soltava gritinhos. Empoleirou-se em cima do sofá enquanto ele se sacudia e chapinhava, deixando pegadas pelo chão fora.
- Helena… ganha juízo. É um cachorro de palmo e meio, tem mais medo de ti que tu dele.
Salvador entrara na sala, completamente ensopado. Que bela batalha que arranjara com o seu novo amigo de quatro patas.
- Parece que ao contrário de ti, não gosta muito de água, maninho. – Helena começara a recompor-se. – A medo, esticou a mão na direção do focinho do cão, que a lambeu docemente fazendo-a baixar a guarda. – Que nome lhe vais dar?
- Não faço ideia. Parece não gostar de nenhum que eu sugira.
- HmmRocky. – Murmurou, pegando no cachorro. Que achas Rocky?
Para satisfação de ambos, Rocky gostou do nome e desatou a latir alegremente.
- A ladrares dessa maneira a Dª Rosário põe-nos aos dois na rua. – Disse Salvador, enquanto o envolvia numa toalha.

Rocky. O seu novo amigo. A sua companhia. Talvez estivesse fugido ou fora abandonado mas, ali, Rocky seria amado e acarinhado, até por Helena que rapidamente se tornou inseparável do seu novo amigo canino.

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