Tudo o Que Sempre Quis || Cap.9 || Pt.4

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Era Sexta-Feira, uma noite agitada como tantas outras na pizzaria ao fim de semana. Martim amassava violentamente a massa da pizza disposta sobre o balcão de inox.
- Ganha lá calma contigo! – Refilava o patrão.

Martim costumava ser um empregado exemplar mas naquela noite estava particularmente distraído e frustrado. Qualquer coisa mínima servia para o tirar do sério, definitivamente não se podia aturar.
- Se estás com problemas vai para casa, não te quero aqui de má vontade. Espantas a malta toda pá.
Na verdade, o patrão não era muito mais velho que ele, mas era demasiado autoritário e naquela noite em particular, Martim não estava com disposição para o ouvir a martelar-lhe os ouvidos.
Se fosse para casa, pensava ele, só iria martirizar-se ainda mais. Iria bater com a cabeça nas paredes feito barata tonta.
- Por que raio é que aquela miúda me deixa neste estado? – Resmungava, atirando a massa com mais força contra o balcão. – Que se dane!
Tirou o avental cheio de farinha e limpou as mãos.
- Ela vai ouvir-me ai vai, vai! – Continuou a resmungar enquanto passou pelo patrão como um foguete. Se fosse outra pessoa, teria sido posto na rua mas Martim era um bom rapaz e sobretudo um bom empregado. Estava apenas num dia não, amanhã já estaria tudo bem. Assim se esperava. Caso contrário, se aquela atitude não lhe passasse arriscar-se-ia a ficar sem emprego.
A noite estava fria como sempre mas pelo menos não estava a chover como estivera todo o dia sem dó nem piedade.
Que saudades que ele tinha do Verão. Estava farto do frio, da chuva, dos casacos e das botas. Para ser sincero, naquele momento Martim estava farto de tudo. Estava zangado, arreliado e com um humor de cão.
Subiu a rua a passos largos decidido a fazer Helena ouvir o que ele tinha para lhe dizer. Podia atirar-lhe o resto da loiça à cabeça e tudo o que ela tivesse à mão mas desta vez não se deixaria intimidar pelo furacão que ela era. A miúda tinha uma personalidade forte, teimosa que sabe-se lá o quê. Fazia questão de o manter à distância, ainda mais depois do beijo que trocaram acidentalmente. Nunca a entenderia.
Antes de tocar à campainha ainda pensou voltar para trás. Hesitou. Tinha de ser desta. Helena partiria dentro de dias.
- Quem é? – Ouviu-se do outo lado, quando carregou no botão.
- Martim. – Respondeu hesitante, ao escutar Helena.
A porta demorou-se a abrir mas quando por fim se abriu, entrou e subiu os degraus dois a dois. Quando chegou ao apartamento de Salvador estava ofegante, com a língua de fora. Não fora Helena nem Salvador que o recebera mas sim Rocky, cuja existência era desconhecida a Martim. Pensou até estar na porta errada.
- Entra! Ele não te morde! – Exclamou Salvador do interior.
- Mas que amostra de cão é esta? – Pegou nele com uma enorme facilidade. – Como guarda não serviria de certeza. Olha para este tamanho.
- Daqui a uns meses vais engolir o que acabas de dizer quando ele te deitar abaixo só com uma pata.
- Pois, está bem. – Acedeu, colocando Rocky no chão. – A tua irmã? – Perguntou, indo direto ao assunto.
- Está na cozinha a lavar a loiça.
Ufa! Que pontaria. Fora mesmo em boa hora de levar com mais uns pratos e uns copos pela cabeça.
- Helena! – Chamou Salvador. – É para ti.
A rapariga espreitou curiosa, mas o sorriso desvaneceu-se ao ver Martim especado no meio da sala.
- O que estás aqui a fazer a esta hora?
Salvador bateu em retirada antes que sobrasse para si.
- Então? Engoliste a língua? – Insistiu ela, ao ver que Martim não dizia nada.
Ele sorriu, hesitante.
- Queria falar contigo antes de ires embora. – Justificou-se.
- OK. Então fala.
Não valia a pena estar com rodeios, só iria irritá-la ainda mais.
Instantes antes estava decidido, tinha tudo debaixo da língua pronto para lhe dizer e agora faltavam-lhe as palavras. – Não sei como começar. – Confessou, enfiando as mãos nos bolsos das calças.
- Talvez fosse boa ideia começar pelo início, não?
Lá estava ela implacável. Teria de lhe baixar as defesas de uma vez, como um tratamento de choque. Os olhos dela transpareciam impaciência.
- Vais dizer alguma coisa ou não?
Martim calou-a com um beijo inesperado, segurando-lhe os braços. Helena ainda se debateu contra ele em vão.
- Digamos que não sou muito bom com palavras. – Declarou Martim, timidamente.
Helena preparava-se para abrir a boca.
- Deixa-me tentar falar. Podes resmungar no fim mas agora ouve-me.- Fez uma pausa e soltou-lhe os braços. – Tu dás comigo em doido. És agressiva, teimosa e mais não sei o quê mas no fundo não passa de uma capa que usas para te protegeres de pessoas como eu. Quando te conheci na pizzaria admito que olhei para ti, tirei-te as medidas dos pés à cabeça mas agora não é assim. Eu não sou assim. Cala-te. – Pediu, antes que ela protestasse. – Podes não acreditar em mim mas é verdade. Tu mudaste-me. Fizeste com que eu quisesse ser uma pessoa melhor.
Martim acabou por se calar antes que pusesse os pés pelas mãos.
Inesperadamente, Helena aproximou-se dele, baixando as defesas. Custava-lhe a crer que fosse verdade o que saía da boca de Martim mas verdade seja dita, havia muito tempo que não o via a rondar miúda nenhuma, ou seria bastante discreto. Mas… desde quando Martim era discreto? Adorava gabar-se das suas conquistas junto de Salvador que o ignorava à força.
- Naquele dia na praia, durante o evento de surf, confesso que fiquei ruída de ciúmes daquela rapariga que depois vim a saber ser tua prima. – A sua voz não passava de um murmúrio quase inaudível.
- Fiz muita porcaria à tua frente Helena, agora sei disso. Não me davas conversa e fizeste questão de deixar bem claro que só querias que fôssemos amigos. Admiro quem consegue manter uma amizade comigo – Ele riu-se, de facto não era o ser humano mais fácil de se lidar.
- Não gosto de mulherengos que têm a mania que podem ter qualquer miúda aos pés.
- Eu sei. É uma das coisas de que gosto em ti, sabias? Sempre deste luta. Foi isso que me fez apaixonar por ti. – Martim mediu as palavras, pronto para o caso de a bomba explodir a qualquer momento. – Tens um feitio dos diabos, mas eu adoro-te. A última coisa que eu queria era apaixonar-me por alguém mas…
- Não quero ser mais uma na tua lista de curtes, Martim – Declarou, com os olhos rasos de lágrimas. Era a primeira vez em muito, muito tempo que abria assim o seu coração para um rapaz. Mas aquele não era um rapaz qualquer pois não? Fora capaz de a levar à loucura, de a fazer sentir ciúmes de uma forma que nunca sentira. Fora o único a conseguir abanar aquele muro que ela criara ao seu redor para ninguém entrar.
- Não tenho nenhuma lista Helena.


Ela franziu o sobrolho.
- É verdade. – Estava disposto a tudo para lhe mostrar o quanto gostava dela, mesmo que isso implicasse passar de mulherengo a romântico ou até mesmo lhe contar alguns segredos que ele tão bem guardara ao longo dos anos. – Vem comigo.
- Agora? Onde?
- Sim agora. Vês quando lá chegarmos. Anda. – Pegou-lhe na mão, obrigando-a a segui-lo.
Helena só teve tempo de pegar no casaco e gritar para dentro da cozinha que ia sair.
- Agora? – Salvador espreitou para fora da cozinha. Já lavara a loiça à meio século mas deixara-se ficar ali, não querendo correr o risco de interromper as tréguas daqueles dois. Rocky encarava-o. – Não me olhes assim. Não tenho culpa que o Martim seja um desvairado.
Já na marginal, Helena lutava contra o frio.
- És doido Martim. Está um frio do caraças ainda congelo por tua causa.
Ele não lhe respondeu. Continuou a caminhar apressadamente com ela a tentar acompanhá-lo. Quando chegaram ao miradouro já estavam mais quentes. Martim pegou-lhe na mão carinhosamente. Era agora ou nunca.
- Costumava vir para aqui nas noites de Verão ver as estrelas.
- Mas hoje não dá para ver nada com estas nuvens todas. – Constatou Helena.
- Eu sei. Mas quero contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém. – Fez uma pausa – Eu nem sempre fui assim, insensível, frio, mulherengo. Antes do teu irmão cá chegar eu tinha uma namorada, tinha uma vida normal e fora de sarilhos. Bem, na verdade andava sempre em sarilhos mas nada de grave. Era apenas um miúdo que crescera sem um pai por perto e quando o meu avô faleceu o bom senso que me restava desabou.
Helena, nada disse, encorajando-o a continuar.
- Só me restava a Maria, a minha namorada na altura. Sempre foi uma espécie de pilar. Numa das noites que vim aqui acima, dei com ela ali na areia embrulhada com o tipo a quem eu chamava de melhor amigo. – Aquela recordação magoava-o mas ao contrário do que poderia pensar, já não doía tanto.
- Oh meu Deus. A sério? – Helena deixou cair o queixo.
Martim assentiu.
- Foi a gota de água. A partir daquele momento bloqueei as coisas que nos tornam humanos. Tornei-me bruto, insensível e não queria saber de nada. Não me importava com ninguém. Andei perdido durante alguns meses, meti-me em maus caminhos, com as pessoas erradas. Se não fosse o teu irmão não sei se eu ainda cá estava.

Salvador contara-lhe algumas coisas sobre Martim mas nunca desvendou nada parecido com o que acabava de ouvir.
- Ajudou-te? – Quis saber.
- Mais que isso. Salvou-me de mim mesmo. – Olhou-a nos olhos.
Ali, ao luar, ela não parecia assim tão ofensiva, pelo contrário. Era apenas uma rapariga pequena que, com os seus motivos, também fora obrigada a bloquear o seu lado sensível. Aproximou-se dela, até o nariz de ambos roçarem um no outro.
- O teu irmão salvou-me, tornou-me uma pessoa melhor mas foste tu quem me fez ver que poderia voltar a ser a pessoa que era. Despertas-te em mim tudo aquilo que eu queria manter enterrado. Não queria apaixonar-me mas foi inevitável e dizer que não te amo é mentir-te.
Estavam tão perto que ouvia o coração dela bater cada vez mais depressa, ignorando o seu que ainda mais descompassado batia.
- Quero-te para mim, Helena. Só para mim. – Confessou, com a lua a refletir-se no mar por trás das nuvens.
Afinal, aquele que ela mais desprezara era apenas um rapaz que sofrera e fugia do amor a sete pés.
Helena afastou-o delicadamente sem saber o que dizer. Rodou os calcanhares e pregou os olhos no céu nublado com a esperança que as estrelas escondidas lhe dessem respostas.
- Martim… - Começou por dizer, pausadamente – Não quero que me partas o coração. Não quero voltar a ser magoada.
O rosto dele demonstrava bem a confusão que lhe ia nos pensamentos, sem saber bem como interpretar o que ela dizia.
- Há algum tempo saí de uma relação complicada. Daquelas que te fazem mais mal do que bem mas não percebes até pouco te restar. Tens aquela esperança que um dia as coisas serão diferentes mas esse dia não chega e continuas a destruir-te a ti próprio por não saberes o que fazer nem como acabar com isso. – Abraçou-se a si mesma, revivendo tudo mais uma vez – Aceitei muita coisa por gostar dele. Amava-o. Mas por vezes o amor não chega. Ao início é o amor que suporta a relação, mais tarde é a relação que suporta o amor. Demorei a tomar uma decisão mas tomei. Ouvi conselhos da minha família e dos meus amigos. Quando finalmente me libertei de todo aquele sufoco pensei: Porque demorei tanto tempo a perceber que não era o melhor para mim?
Depois disto, ele abraçou-a sem se preocupar como seria a sua reação.
- Acabou, certo? Já passou. – Tentou confortá-la, pousando um beijo suave nos seus cabelos.
- Sei que não sou perfeita. Céus. Sou a imperfeição em pessoa. Tenho mau feitio, é verdade. Quando me salta a tampa pouca coisa resta á minha volta. Mas acho que mereço algo bom na minha vida, não? Um amor de verdade. Alguém que me ame realmente e não seja apenas mais obsessão que outra coisa. Quero alguém que me valorize. Não sou nenhum bicho papão, embora por vezes, quase sempre, acabe por afastar as pessoas que me rodeiam. – Permaneceu aconchegada no abraço de Martim.
- És como eu. Afastas os outros para te proteger a ti mesma. É uma coisa que aprendes quando és magoada de verdade. É involuntário mas com o tempo, e com as pessoas certas, destróis esse muro. Destruis-te o meu, não sei bem como. Mal puseste os pés na pizzaria naquele dia eu sabia que me irias trazer problemas. – Ambos sorriram, ao recordar o dia em que se conheceram.
Helena respirou fundo, desfazendo o abraço.
- Eu quero ficar contigo. A sério que quero. Mas tenho tanto medo Martim. Não aguentaria mais uma relação como aquela. – Confessou, num murmúrio.
- Posso ser muito otário mas não sou como o teu ex-namorado de certeza. – Sorriu, timidamente. – Também cometo erros mas não faria nada que te pudesse magoar de propósito. A última coisa que quero é magoar-te seja de que forma for. – Afastou-lhe uma madeixa de cabelo, prendo-a atrás da orelha – Podemos ter um longo caminho a percorrer mas estou disposto a qualquer coisa por ti. – Fez uma pausa – Eu…Amo-te. Como posso negar isso? Tu bastes-me, insultas-me com todos os nomes que conheces e mesmo assim eu amo-te cada vez mais. 
Por aquilo é que ela não esperava.
- Prometes que serás só meu? Que não haverá rabos de saia sem ser eu? – Quis saber.
- Prometo. – Beijou-lhe os lábios suavemente. – Prometo amar-te daqui à lua e da lua até aqui. – Voltou a beijá-la.
Helena enrolou os braços em redor do pescoço dele, beijando-o de uma forma intensa e apaixonada.
- Deixa-me Amar-te. – Pediu ele. – Ficas comigo?

- Sim. Enquanto me quiseres. Custa admitir-me que és tudo o que sempre quis – Declarou, deixando-se embalar pelo abraço caloroso dele.
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