Tudo o Que Sempre Quis || Cap.14 || Pt.3

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Naquele dia, quando Sara acompanhou Salvador a casa, estava um sol radioso, o céu apresentava-se limpo sem uma única nuvem no horizonte.  Era a primeira vez que visitava o apartamento dele e tal como Helena, ficara um tanto surpresa pela quantidade de degraus que teria de subir porque o rapaz, sabe-se lá porquê, acabou enfiado num sótão num prédio sem elevador tão pouco.
- A tua irmã bem tinha razão quando reclamava do sítio onde vives. – Resmungou, ao transpor a porta de entrada.
- Estas escadas farão maravilhas às tuas pernas. – Declarou, corando.
Sara sentiu as faces a arderem.
- Muito falas tu das minhas pernas ultimamente. Algo a apontar? – Quis saber, desafiando-o.
Salvo pelo gongo,ou naquele caso, pela Dª. Rosário que saía de rompante de casa.
- Oh meu querido! – Exclamou, preocupada. – O que te aconteceu? O que lhe aconteceu? – Perguntou, voltando-se para Sara que ficou sem saber ao certo o que dizer. Afinal, não queria ele manter o sucedido em segredo? – Não te vejo a algum tempo e agora apareces neste estado.
- Estou bem Dª.Rosário. – Apressou-se a esclarecer. – Foi apenas… um acidente. – Fitou Sara.
- Sim, foi isso mesmo. – Sara alinhou, ainda que contrafeita. – Mas ficará bom num instante. – Tentou sorrir. – Não se preocupe, tenciono tê-lo debaixo de olho, não vá fazer um disparate qualquer.
Aquela última observação fez Salvador engolir em seco. Não fora um disparate o que ele fizera no outro dia? Pois bem, teria de arrumar o assunto e tirar aquelas coisas da cabeça de uma vez por todas.
- Bem, Dª Rosário, se não se importa, tenho de ir descansar um bocado. – Por muito que gostasse da velha senhora, não estava na sua melhor forma para ser bombardeado com perguntas às quais ele não queria responder.
Ela não se importou e ficou a vê-los subir as escadas devagar.
A meio da subida, pela primeira vez desde que ali morava, Salvador parou para descansar.
- Este joelho está a deixar-me doido.- Queixou-se, esfregando o joelho dorido.
- Afinal, o que te aconteceu ao joelho para ficar assim? – Quis saber. -Disseste que já não estava a cem por cento mesmo antes de eu to magoar quando te tirei da água.
Salvador retomou o fôlego.
- Foi num acidente. – Fitou-a. – Um acidente, apenas. Durante uma corrida de motocross. 
- Bem, és uma caixinha de surpresas. Não fazia ideia que para além do Surf praticavas outros desportos malucos. – Sorriu, trocista.
- Já não o faço. Depois do acidente deixei de participar em corridas. Ainda tenho a mota mas fiquei-me pelos passeios. – Declarou, retomando a subida. – Agora diz-me, por que raio queres ir ao Alentejo?
Sara quase perdeu o equilíbrio. Aquele tipo sabia bem como a atacar sem ela contar com isso.
- Daqui não levarás nada. Saberás quando lá formos.
- Se tenho uns dias de castigo, fechado em casa, colado ao sofá a encher a barriga e a fartar-me de ver televisão, e mais, se tencionas ficar comigo debaixo de olho esses dias, terás de ceder. Cedo ou tarde. – Declarou, convicto.
- Achas mesmo? – Desafiou-o. - Veremos então.
Quando entrou em casa, Salvador já desesperava por se instalar no seu estimado sofá que com tanto gosto escolhera numa feira de móveis em segunda mão.
- Estás a ver? Estás feito num oito só de subir as escadas. – Espicaçou Sara, quando o viu ir direitinho ao sofá. – Devias pensar mudar de casa.
Salvador olhou-a com aqueles olhos de “nem penses numa coisa dessas!”.
- Não me parece. Tenho uma história com esta casa. – Acomodou-se melhor entre as almofadas.
- Tens uma história com tudo, não fosses tu o rapaz das histórias, dos mistérios e tudo mais. – Disse, massajando-lhe o joelho. – Por falar em coisas esquisitas, quem é o Simão?
Sara não sabia mas estava a tocar num dos pontos mais sensíveis da personalidade dele, das suas memórias e de tudo aquilo que ele não sabia como explicar.
- O Simão? Como …? – A voz quebrou-se-lhe. Como saberia ela da existência de Simão?
Sara respirou fundo.
- Lembras-te de quando acordas-te? Quando te tirei da água? – Esperou que ele confirmasse. – Pois, a primeira coisa que disseste quando abriste os olhos foi “Simão?”. Olhas-te por cima do meu ombro, tive a sensação de estar alguém ali, atrás de mim mas não estava mais ninguém além daquele pescador atado que demorou dez minutos a entender que precisavas de uma ambulância.
Ele estava confuso com o que acabara de ouvir. As suas lembranças daquele dia ainda eram vagas mas recordava-se de Simão. Julgara tê-lo visto…
- Eu vi-o. – Sentou-se no sofá, resmungando entre dentes quando a dor nas costelas voltara, levou as mãos ao rosto e pressionou os olhos. – Credo. Eu… lembro-me. – Começava a ficar sem cor.
- Lembras-te do quê? Queres um copo de água? Estás tão branco, como…- como quando o retirou da água quase sem vida. – Fala comigo, bolas!
- Eu vi-o. – Respirou fundo e voltou-se de frente para Sara. – Eu vi o Simão. Não sei como mas… - Uma onda de imagens invadiam agora a sua mente, como uma sucessão de flashes, fragmentos que poderiam ser muita coisa ou não ser nada, mas eram as suas memórias reprimidas. – Eu vi…o…meu…avô. – Disse pausadamente.
- Como…? Salvador isso é…
- Impossível? – Continuou ele.
Sara não queria contrariá-lo mas sim, seria impossível.
-O meu avô disse-me que ainda tenho muito para resolver.
Sara começava a acreditar que talvez tudo aquilo fosse realmente verdade.
- Acreditas realmente nisso, não acreditas? – Quis saber, abrançando-o.

Salvador assentiu. – Podes julgar-me doido mas sei que o vi.
- Ssshhh não te julgo nada doido.
Salvador abraçou Sara. Um abraço de agradecimento e em simultâneo, um abraço de amor. Amava-a tanto e quase perdera isso e muito mais. Agora tudo fazia sentido para ele, estivera às portas da morte mas o avô não o quisera receber. A mensagem “Bem-vindo ao lar surfista continuou a ecoar-lhe na mente. Bem-vindo ao lar surfista. Não fora isso que Simão lhe dissera quando Sara o trouxe de volta?
Ele vira-o mas Sara não. E se isso significasse que… Simão estava morto também?


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