Tudo o Que Sempre Quis || Cap.14 || Pt.4

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Pouco faltava para as duas da manhã quando, após voltas e reviravoltas na cama, Salvador decidiu caminhar até à cozinha, talvez um pouco de leite o ajudasse a dormir. Levantou-se com cuidado para não acordar Sara que adormecera ao seu lado. Estava decidida a tê-lo debaixo de olho como dissera ao médico no hospital e não arredava pé dali nem por nada. Vendo pelo lado positivo, o “cativeiro” poderia aproximá-los, talvez colocassem a conversa em dia. Pensando nisso, Sara não tinha algo para lhe contar naquele dia que o fora visitar ao hospital?
Distraído e por simples instinto, abriu a gaveta da cozinha onde guardava aquele pedaço de papel com a mensagem que ele sabia agora ser de Simão. Que raio teria acontecido ao seu amigo? Poucas semanas depois de começarem a surfar juntos, Simão partira para uma viagem pelo mundo com um grupo de amigos, tinha-o desafiado mas Salvador recusara-se a tal. Desde então nunca mais o vira, nunca mais tinha recebido notícias e julgara-o demasiado ocupado mas e se afinal, Simão estivesse realmente morto? Como teria acontecido uma coisas dessas?Teria sido no mar? Durante a viagem?
- Não consegues dormir? – Perguntou Sara ensonada, caminhando em passos leves.
Salvador encostou-se à bancada com o papel na mão e abanou negativamente a cabeça.
- Não faço ideia do que lhe aconteceu. – Declarou. – De manhã disseste que devia mudar de casa, recordas-te? – Esperou pela resposta. – Queres saber porque não o queria fazer? – Desta vez não esperou que a rapariga lhe respondesse. Poderiam ter aquela conversa quando o dia rompesse e ela estivesse mais desperta do que estava naquele momento mas tinha de lhe contar, tinha de o dizer em voz alta para que tudo aquilo fizesse mais sentido. Olhou em redor. – Quando cá cheguei, durante algum tempo morei numa daquelas carrinhas pão-de-forma no parque aqui em frente. Todos os dias de manhã quando ia comprar pão encontrava a Dª Rosário, acabei por a acompanhar até casa diversas vezes. Tentou tirar-me da van, ofereceu-me um teto que eu recusei todas as vezes por não querer abusar da sua boa vontade. – Fez uma pausa, como se procurasse memórias o que viera de seguida. - Um dia, quando fiquei novamente sem emprego, a Dª Rosário perguntou-me se não percebia alguma coisa de obras porque tinha dois aproveitamentos de sótãos para terminar e não gostava de ter qualquer um a pisar o chão que é dela. Fiquei tão chocado como tu e a minha irmã quando descobri a quantidade de degraus que teria de subir e descer todos os dias, mas quando aqui entrei… - Caminhou pela sala enquanto todas as memórias, sentimentos e sensações daquele dia o invadiam uma vez mais. Sorriu. – Foi… estupidamente mágico. Nem o chão estava ainda colocado, as paredes nem estavam pintadas, tudo o que existia aqui era uma mesa de trabalho improvisada onde encontrei isto. – Sacudiu a mensagem de Simão. – Não fiz grande caso mas fiquei a matutar nisto. Não encontrava explicação para além do óbvio; alguém tinha-se esquecido daquele papel. Não devia ser nada demais. – Encaminhou-se em direção a Sara. – Nada disto fazia sentido para mim até ontem. Agora tudo se encaixou. O tapete velho que encontrei à porta e que a Dª Rosário nem sabia que existia, esta mensagem… O meu avô morreu, vi-o algures entre cá e lá e se vi o Simão ao lado dele só pode significar que também morreu. – Engoliu em seco. – Foi quem me ensinou a surfar decentemente, partiu em viagem pelo mundo com uns amigos e nunca mais tive notícias dele. Talvez tenha morrido no mar ou uma coisa estúpida qualquer, não faço ideia. De alguma forma, trouxe-me até aqui, a esta casa. Pode não fazer sentido mas sei que é real.

Sara abriu e fechou a boca sem saber o que dizer.
- Uau. Nem sei que te diga. É um bocado…
- Macabro?
- À falta de palavra melhor. – Cruzou os braços. – Será que agora vais ser do tipo de comunicar com espíritos? – Perguntou, a medo. Não seria muito boa ideia Salvador ser assombrado por pessoas mortas.
Salvador soltou uma gargalhada.
- Versão masculina de “Ghost Whisperer”?
- Algo assim. – Sorriu.
- Nada disso. A única pessoa que estou a ver aqui és tu, a menos que também tenhas vindo do outro mundo. – Sorriu. – Falando a sério; o que vi…foi apenas enquanto estava no mar. Prometo.
- Por um momento assustaste-me.
Salvador colocou um braço em volta dos ombros de Sara.
-Sou esquisito mas não a esse ponto. Anda. Vamos tentar dormir.
Sara seguiu-o mas não com o intuito de adormecer. Depois do que acabara de ouvir seria dificil pregar olho nas próximas horas.
- Desenterras-te os teus segredos, queres desenterrar alguns dos meus? – Desafiou-o, recostando-se na cama.
O quê? Ter visões do falecido avô e do seu amigo Simão era a chave de acesso ao mundo de Sara? Era isso apenas o necessário?
- Só precisava de te contar umas coisas esquisitas e macabras? Era esse o requisito para quebrar esse muro, Sara? – Não pôde evitar de sorrir. – E o esquisito sou eu. – Observou-a de soslaio. – Sabes que estou a brincar. Conta-me lá os teus segredos mais sujos e obscuros.
- Por onde queres que comece? – Perguntou, acomodando-se melhor. Seria uma longa conversa.
Aquela era fácil demais. Claro que ele esperou imenso tempo por aquele momento.
- Fácil. Porque raio desaparecias do nada e regressavas mais tarde?
- Talvez seja melhor começar pelo que aconteceu antes disso. – Murmurou. – Prometes não adormecer?
- Estás a brincar? Só para saber o que sempre quis desvendar sou capaz de ficar acordado o resto da noite.
Sara respirou fundo, em busca da coragem que lhe faltava, era agora ou nunca e depois de lhe contar tudo o que havia para contar, não haveria volta a dar.
- Eu tinha um namorado. Ainda estava no ensino Secundário e as coisas acabaram mal. Por minha culpa, deixei-o influenciar-me em certas coisas; por exemplo, comecei a beber imenso quando saía à noite, a entrar nos jogos dele de fumar isto, tomar aquilo. – Fez uma pausa mas não quis olhar para Salvador. – Foi horrível. Fiz coisas que me arrependo e quando quis sair daquele mundo obscuro não sabia como o fazer. Estava enterrada até ao pescoço e a única forma que encontrei foi denunciá-lo. A polícia já andava de olho nele por isso não foi muito difícil apanharem-no depois que o denunciei por tráfico.
- Ele foi atrás de ti, não foi? – Quis saber Salvador, sentindo raiva daquele fulano que não conhecia mas que já odiava.
- Não sei como, ao fim de algum tempo saiu da prisão e foi atrás de mim. Sabia que ele não era do género de gajo de se ficar, percebes? Mas o pior nem foi isso. – A voz faltou-lhe, sem saber como continuar. Pegou no telemóvel que estava pousado na mesa-de-cabeceira e entregou-o a Salvador, mostrando-lhe a foto que tinha como fundo de ecrã.
- Quem é? A tua irmã mais nova?
Sara sorriu, limpando as lágrimas que entretanto caíram.
-Não. Essa é a única coisa daquele tempo de que não me arrependo. – Pela primeira vez depois do início daquela conversa, Sara olhou Salvador nos olhos. – É a Inês. A minha filha.
O rapaz sentiu o queixo cair-lhe, literalmente. Estava chocado, por aquela é que ele não esperava, de todo. Contudo, não estava zangado nem nada parecido, continuava sereno.
- A tua quê? – Como era possível? Se Sara tinha uma filha, onde estava ela?
- Soube que estava grávida quando o meu ex-namorado ainda estava preso. Fiquei tão assustada, estava sozinha e não sabia o que fazer. Nem sabia como uma coisa assim foi acontecer, tirando o óbvio. Eu própria era ainda uma criança, como poderia cuidar de outra?
A única certeza que eu tive foi que queria aquele bebé. Não estava nos planos mas jamais seria capaz de …. Tu sabes… abortar. Era o meu bebé. Independentemente do pai ser um gajo sem escrúpulos, eu queria aquela criança.
- Ele sabe? – Quis saber, ainda atónito.
Sara assentiu. – Fiz imensos exames para saber se estava tudo bem com o bebé, visto que ainda ingeria álcool entre outras coisas sem saber que estava grávida.
- Ameaçou-te?
- Um dia apanhou-me a caminho de casa. A minha barriga já parecia estar prestes a rebentar a qualquer momento, foi quando ele soube. Estava sóbrio, vi isso na forma como reagiu, mas depressa começou com ameaças, que eu iria pagar por o ter denunciado à Polícia e que não queria saber se o filho que eu carregava era dele ou não. – Sara limpou novamente o rio de lágrimas que lhe caiam pelo rosto. – Podes perceber que tive de me desenrascar sozinha quando a Inês nasceu. Os meus pais nunca foram presentes quando eu era miúda como poderia contar com eles naquela altura?
- Onde ela está? Como vieste aqui parar? Não me digas que a deixas-te para adoção! – Salvador mostrava-se horrorizado.
- Claro que não! – Gritou-lhe. – Quando ele ameaçou a minha filha peguei nas nossas coisas e pedi ajuda ao meu tio. Tu conheces-o. Foi ele quem te acompanhou enquanto estiveste no hospital. Fui eu que o chamei. É o único médico em quem confio.
- O quê? – Toda aquela história começava a ser demais. Quantos mais segredos é que ainda tens?
- Eu amo-te! Não te ia deixar nas mãos de um médico qualquer. – Sara levantou-se da cama num salto, ficando de pé junto à janela do quarto. – O meu tio pegou em nós as duas e levou-nos de volta a casa, deu um sermão aos meus pais pelas atitudes deles e fez com que garantissem que cuidariam de mim e da Inês. Ele é um solteirão, não podia ficar com ela nem comigo. Não o censuro.
Salvador permanecia em silêncio, sem olhar sequer para Sara.
- O Nelson sabia onde morávamos por isso o meu pai decidiu comprar uma pequena casa de férias no Alentejo. Era isolado e mais seguro mas eu não podia depender deles para sempre e foi assim que vim aqui parar. Deixei a minha filha apenas com semanas de vida em busca de uma vida melhor. Queria construir uma vida melhor para nós as duas, longe de tudo.
- Quando desaparecias sem avisar, ias visitá-la não era? – A sua voz era tão fraca que mal se ouvia. Na escuridão, Sara não viu um leve sorriso que dançava nos lábios dele.
- Uma das vezes tive de desaparecer porque, não sei como, ele apareceu por cá. Entrei no primeiro autocarro que vi e fugi…outra vez. Mas sim, ia ver a minha filha.
A rapariga perdeu as estribeiras e começou a chorar sem parar.
- Quis contar-te tantas vezes e não sabia como o fazer. Não sabia como irias reagir. Confiava em ti mas tinha medo sei lá eu do quê.
- Voltar para cá, não foi arriscado? Se te encontrou aqui uma vez… - Disse.
- É burro o suficiente para achar que eu jamais voltaria ao mesmo sítio duas vezes. –Limpou as lágrimas e encarou Salvador. – Pronto é esta a minha história. Preciso de apanhar ar.
           
Posto isto, saiu para o pequeno terraço do apartamento. Os primeiros raios de sol começavam a iluminar o dia e ela não sabia se devia ficar ou simplesmente ir-se embora. Como o seu tio dissera, Inês precisava dela. Ouviu os passos de Salvador atrás de si e apressou-se a colocar uma expressão de tranquilidade fingida. Não se virou para ele. Não queria ver nos seus olhos a deceção que ela lhe causara.

Ele chegou, abraçou-a por trás com os braços em seu redor, beijou-lhe o cabelo e murmurou: - É parecida contigo. É linda.

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