Tudo o Que Sempre Quis || Cap.15 || Pt.1


«Não destrua o futuro
por problemas do passado»

Seria mais um dia excelente de Primavera, o velho ditado “Abril águas mil” não se aplicava aos dias solarengos que estavam prometidos chegar. Pouco passava das sete horas da manhã e nem Sara nem Salvador tinham dormido desde as duas horas da madrugada. Na verdade, desde que Sara saíra para o terraço depois de confessar o que a atormentava e ele a seguira, tinham ficado uma hora em silêncio absoluto. Permaneciam sentados na cadeira de baloiço que rangia quando se mexiam, ambos perdidos em pensamentos, viajando algures bem longe.
- O que faremos? – Quis saber ele, quebrando aquele silêncio assustador.
Sara sobressaltou-se ao escutá-lo de tão distraída que estava.
- Como assim?
- Já pensas-te trazer a Inês para cá? Digo, não é uma cidade perfeita nem nada que se pareça mas seria bom crescer por aqui. – Colocou um braço em redor dos ombros dela. – Estamos a falar de uma vila acolhedora, pacata, com uma boa escola e um bom ambiente para se crescer.
- Sobretudo, queria mantê-la segura. – Desabafou Sara, deitando a cabeça no braço dele.
Salvador respirou fundo. – Posso desempenhar esse papel. De vos manter seguras. – Sorriu docemente. – Tens uma boa casa, Sara. Tens boas condições para a educares aqui. Vais deixar que o pai dela vos assuste o resto da vida? Vais deixar de ser feliz com a tua filha por causa dele?
- Não é assim tão simples.
- Porque não? Se ele aparecer, cuido dele. Achas que deixaria que alguém te magoasse? Que a magoasse? – A voz dele era meiga mas sabia estar na direção de outros caminhos que não deveria ser suposto seguir. – Durante muito tempo tiveste medo de mim, depois do que viste. Podes admitir, eu sei que é verdade, por muito que isso me custe.

Sara fechou os olhos com força. Ele tinha razão, durante muito tempo tivera medo dele depois daquele dia em que o vira espancar aquele outro rapaz.
- Tens razão, sim. Assustaste-me imenso. Era como se… não fosses tu. E de certa forma aquela pessoa não eras tu, não eras aquele surfista que conheci numa manhã de Outono. – A mão dela deslizou pelo rosto dele com a barba a picar-lhe a palma da mão. – Sei alguns dos motivos pelos quais fizeste aquilo. Tive medo de ti, sim, mas já não tenho. – Declarou.
- Queres desenterrar o resto dos meus segredos obscuros? – Perguntou, desafiando-a.
- Sabes que sim. Mais do que nunca, sim, quero. Quero que me contes tudo, que confies em mim a esse ponto.
- Com uma condição; quero conhecer a tua filha.
Apesar de inesperado, Sara ficou satisfeita por ele mostrar interesse em Inês. Fora mais do que o ex- namorado demonstrara.
- Posso conviver com isso. – Sorriu. – Diz-me uma coisa, antes disso, se o meu ex-namorado aparecer, de que forma pensas “cuidar dele”?
Salvador espreguiçou-se enquanto ponderava o que devia responder, chegando à conclusão que Inês mudara tudo.
Sara tinha uma filha bebé que precisava dela e de uma figura paterna. Estava na hora de se deixar de sarilhos e cuidar de quem amava.
- O que for preciso, mas não da forma que estás a pensar. – Apressou-se a dizer, deslizando a mão pelo cabelo. Tencionava voltar a cortá-lo mas esquecera-se disso por completo e as pontas em redor das orelhas já lhe faziam cócegas. – Posso dar-lhe um soco ou dois? Posso tratar dele de forma legal e tudo mais, mas posso pelo menos ter esse prazer? Por tudo o que vos fez?
Sara assentiu.
-Um soco ou dois não lhe fará mal nenhum, certo?
Salvador respirou fundo, estava na hora de desenterrar todo o seu passado e tudo o que isso implicasse. Estava mais do que na hora. Levantou-se da cadeira de baloiço e debruçou-se no muro do terraço, mas Sara não o seguiu, conhecia-o bem para saber que precisava de um minuto. Por entre os outros prédios ele podia ver o mar, apenas um pedaço de toda a imensidão azul que ele já percorrera milhares de vezes com o olhar.
- Durante muito tempo erámos só nós os três com a minha mãe. – Começou. – O meu pai nunca se preocupou muito connosco ou com ela. Desde que ele estivesse bem e tivesse o que queria, estava tudo bem para ele. Sempre foi um filho da mãe egoísta e neurótico. Quando éramos miúdos era tipo o nosso super-herói, o super-pai só por brincar connosco de vez em quando, mas passado alguns anos, quando começámos a crescer e a perceber as coisas é que vimos a peça que ele era. – Cerrou os punhos, sem deixar de fitar o pedaço de oceano. – Quer dizer, sempre foi, mas éramos miúdos e não sabíamos de nada mas a verdade é que sempre foi um bocado violento com a minha mãe e com medo dele, ela nunca dizia nada a ninguém. – Fez uma pausa, encostou as costas ao muro e finalmente os seus olhos encontraram os de Sara.
- Ele… - Sara olhou para as próprias mãos, não sabendo como perguntar o que queria saber… - Alguma vez vos agrediu?
- A nós os três, que eu me lembre, não. Pelo menos fisicamente. Mas se mexe com o psicológico de qualquer pessoa, miúdo ou não, o facto do próprio pai pouca importância lhe dar, isso sim, mexe e muito. – Olhou em redor, reprimindo toda a frustração que tão bem estava enterrada dentro de si. – Mais do que uma vez cheguei a perguntar-me a mim mesmo, se ele gostava de mim. É absurdo. Mas senti-me tão ignorado por ele, e pior, comecei a desenvolver aquele sentimento entre raiva e mágoa por todo o mal que fez á minha mãe, por todo o sofrimento que lhe causou, por todas as lágrimas que a fez chorar. A última vez que ele tentou agredir a minha mãe, a minha irmã pôs-se entre eles e mandou-o embora. Uma pirralha não com mais de dez anos evitou mais uma briga.
- A sério? – Sara arregalou muito os olhos. – E ele não se virou contra ela?
- Por sorte, não. O tipo era daqueles de fazer tudo pela calada, podia bater á minha mãe e cinco minutos depois, se estivesse alguém por perto, já eram como o casal perfeito. Ele vivia de aparências, por isso ninguém acreditava que ele pudesse fazer o que fez.
- Eles ainda estão juntos? – Perguntou.
- Já não. Acho que ele desaparecer do mapa com outra qualquer foi o melhor que fez. Pelo menos deixou a minha mãe em paz.
- Imagino que não tenha sido uma vida fácil.
- Não foi, pelo menos para ela. Mas quero acreditar que um dia terá alguém na sua vida que a faça realmente feliz e a ame como ela merece. A minha mãe é daquelas pessoas que dá tudo sem pedir nada em troca por isso, pedir amor em troca não é muito. – Esfregou os olhos com a ponta dos dedos na tentativa de afastar as lágrimas que ameaçavam cair. – Sara, a minha mãe merece um mundo. Fez tanto por mim e não só.
Sara sabia quando ele precisava de um minuto e quando precisava que o abraçasse, por isso, apertou-o nos seus braços com o cuidado de não lhe magoar as costelas ainda doridas.
- Eu sei, querido. Estou aqui. – Murmurou, afagando-lhe o rosto.
- Prometi que quando tivesse filhos nunca seria como o meu pai. Nunca daria sequer margem para pensarem que não são amados.
- Serás um ótimo pai. – Assegurou a rapariga, limpando-lhe as lágrimas que acabaram por escapar.
Por breves minutos, ficaram abraçados em silêncio, como se aquele abraço cheio de amor e compreensão dessem forças a Salvador para contar-lhe o resto da sua história.
Algum tempo depois, retomou.
- Ficámos sozinhos com a minha mãe e nem sequer sentíamos falta dele. Mas uma noite fomos à festa da terra e as coisas deram para o torto. Fui buscar uma cerveja e perdi a minha irmã de vista. – Não se preocupou em disfarçar novamente os olhos chorosos – Fui tão, mas tão, estúpido. Virei costas dois minutos e ela desapareceu-me de vista. Fiquei… em pânico. Sei que atirei a cerveja para o chão e corri todos os cantos, todas as bancas e todas as tascas que ela pudesse estar mas não a encontrava em lado nenhum até que dei com ela numa rua escura e quando me apercebi bem do que estava a passar, acho que fiquei de todas as cores. – Estavam agora de novo sentados na cadeira de baloiço e Sara fez questão de lhe apertar a mão em gesto de “Estou aqui. Já passou” – Atirei-me ao gajo com todas as forças que tinha e nem sabia que existiam. Lutámos durante um bocado, deu-me alguns murros, retribui ainda com mais brutidade e se queres que te diga, era capaz de o desfazer naquele momento.
- Mas ele caiu, não foi? Quando lhe deste um murro, desequilibrou-se e bateu com a cabeça. – Sara recordava-se do dia do julgamento.
- Tecnicamente, sim. – Salvador desviou o olhar do de Sara. Não lhe queria mentir, e não estava, mas para ele, omitir e mentir andavam de mãos dadas. – O que eu vi foi ele cair para trás e bater com a cabeça quando lhe dei um murro com mais força, o que aconteceu realmente, e na altura não tinha percebido, foi que a Helena pegou num pedaço de madeira e bateu-lhe na cabeça. Não lhe faria mal nenhum se não tivesse um prego. – Disse-o em voz baixa.
- Então a tua irmã…
- Possivelmente. Mas nunca iremos saber ao certo. No meu ponto de vista, quando ele bateu com a cabeça na pedra já tinha a sentença lida, mas dizem que a causa da morte foi a batida. – Fez uma pausa. – Nunca soube se ele caiu com o meu soco ou com a pancada da Helena, foi tudo ao mesmo tempo e tão rápido.
- Mas… - Sara tentava encaixar todas as peças.
- Eu sei. – Interveio ele. – Estás correta. Não podia deixar a minha irmã levar com a culpa só por se ter defendido daquele animal. Se eu tiver de carregar a culpa dela e a minha o resto da vida, carregarei. Farei qualquer coisa para a manter longe desta história.
Sara estava atónica e confusa mas não seria uma surpresa, pelo menos, agora todas as peças se encaixavam. Ele confiara nela e levaria aquele segredo para a cova se fosse preciso. Gostava de Helena e no seu lugar, não sabia se teria a sua coragem.
- Isso acabou de vez, certo? – Murmurou. – Toda essa história, a perseguição doentia do irmão do tipo que tentou magoar a tua irmã…
Salvador assentiu. Deslizou a mão pelo pescoço dela e beijou-lhe os lábios suavemente.
- Acabou tudo. Não tenho mais segredos. Nunca mais irei ter.
- Fico feliz por isso. – Admitiu ela, com um sorriso rasgado. – Só falto eu resolver a minha vida agora.
- Podemos fazer isso, Sara. – Sorriu. – Podemos mesmo.
Pela primeira vez, ambos estavam em sintonia, aliviados por partilharem os seus segredos e tormentos um com o outro.
Amavam-se tanto mesmo sem terem noção disso mas teriam o resto das suas vidas para descobrirem.
- Amo-te. – Sussurrou Sara, roçando o nariz do dele.
- Amo-te muito mais. – Respondeu, com um sorriso tímido. – Desde aquela manhã que me deste uma coça no surf. E para que conste, a Mónica saiu da minha vida à muito tempo. É a ti quem eu quero. – Esmagou os lábios contra os dela, num longo beijo.
Sara não respondeu, limitou-se a olhá-lo nos olhos, naqueles faróis verdes brilhantes e a sorrir. Tinha tudo o que precisava, ou quase tudo.
Por muito difícil que fosse de acreditar, a vida de Salvador estava a entrar finalmente nos eixos. Decidira dedicar-se a terminar o arranjo do Carocha, tinha a mente a transbordar de ideias e planos.Nada traria o avô de volta, mas ele podia trazer Inês para casa. Podia trazê-la para junto de Sara.
Foi com esse pensamento que naquele início de manhã deixou o apartamento da namorada e caminhava em direção à garagem onde tinha o velho Carocha guardado. Desde que ambos abriram o seu coração, Sara e Salvador dividam os dias e as noites entre a casa de um e do outro, tinham perdido demasiado tempo com assuntos mal resolvidos, segredos e fantasmas do passado. Era altura de bonança, de coisas boas e de serem felizes, juntos.
Ao virar a esquina perto da garagem, por um segundo foi invadido pela recordação de Mónica à sua espera meses atrás.
Ela pedira-lhe que lhe enviasse uma fotografia do carro quando o terminasse mas ele não o iria fazer. Poderia ser águas passadas mas Mónica era parte de um passado que não queria reviver de todo. Estavam melhores um sem o outro, sem qualquer contacto. Amava Sara e era tudo. Já não importava Mónica nem o pai de Inês. Não importava mais nada se agora podia ser realmente feliz com a rapariga que amava. Enquanto Mónica fora um erro desde o início, Sara era a certeza mais certa, o seu destino. Todo o Universo tinha conspirado para os levar um ao outro e ali estavam eles, tanto tempo depois de se terem conhecido. Fora uma longa e dura batalha, tinham lutado contra tudo e contra todos e por fim, finalmente o amor prevalecera.
Não pôde evitar sorrir para si próprio, e foi com esse sorriso genuíno e sincero que abriu o portão da garagem, dando liberdade aos raios solares de fazerem o Carocha brilhar por uma última vez com aquela tinta velha esbatida e ferrugenta.
- Desgraçado de uma figa! – Ouviu atrás de si. Era Martim, especado entre portas com as mãos na cintura.
- Meu puto! – Abraçou o amigo, reprimindo as picadas que as costelas ainda lhe davam de vez em quando. Sabia que estavam no caminho certo após a consulta com o tio de Sara. – Que estás aqui a fazer? Não devias estar com a minha irmã?
- Devia, mas eu estou aqui! – Gritou Helena, entrando de rompante.
- Mas o que é que isto? Que estão aqui a fazer os dois? – Quis saber, enquanto apertava a irmã.
- Achei que ainda precisavas disto. – Martim entregou um saco a Salvador.

O surfista soltou uma gargalhada sonora ao ver o que se tratava.
-Onde arranjaste isto? – Quis saber, retirando a peça que precisava para pôr o Carocha a andar e que tanto procurara sem sucesso.
- Isso agora. Não querias mais nada que era conhecer os meus trunfos. – Inchou de orgulho, cruzando os braços sobre o peito.
Salvador ergueu o sobrolho desconfiado mas antes que tivesse tempo de protestar ou de agradecer já Martim abrira o capô e punha mãos à obra.
- Não foi nada de mais. Comprou a peça a um sucateiro. Mas não lhe digas nada, deixa-o gabar-se. – Murmurou Helena, piscando-lhe o olho. – Bem, divirtam-se lá nessa lata velha que eu vou fazer uma visita à minha amiga Sara. Até já! – Acenou para os dois rapazes que já a ignoravam, tão embrenhados estavam a tentar colocar a peça no sítio a que pertencia.

Não foi preciso mais que vinte minutos para ouvirem o Carocha roncar pela primeira vez quando Salvador deu à chave.
- Eu bem disse que nunca ias pôr isto a trabalhar sem mim. – Gracejou Martim, vaidoso.
- Não, o que disseste foi que eu jamais poria esta lata velha a andar. – Contrapôs, abraçando o amigo. – Vamos dar uma volta? – Desafiou.
Poderiam ser multados se fossem apanhados sem inspeção e seguro, até poderiam multá-los só pela pintura velha que caía aos bocados mas e daí? Ambos queriam arriscar e mal podiam esperar por dar uma volta nele.
- O meu irmão é capaz de te pintar o carro por um preço mais em conta, só para saberes. – Informou Martim, sentando-se no banco poeirento. – Mas primeiro, por amor de Deus, dá uma limpeza nesta coisa com rodas.
- És mesmo menina, sempre a resmungar. – Espicaçou-o . – Mas aceito a pintura com desconto. Achas que tem tempo para mo arranjar nos próximos dias?
- É uma questão de falar com ele. Mas porquê a pressa? Vais fugir com a miúda? O carro trabalha mas duvido que fossem muito longe.
- Nada disso, mas é uma longa história, e ainda tenho uma longa história para te contar, lembras-te?
- Das jolas com uns amendoins como prometido? Não me iria esquecer puto! – Disse.
O Carocha lá saiu da garagem um tanto aos safanões por já não trabalhar há tempo demais possivelmente, mas por onde passassem viraram cabeças. Todos olhavam para aquela peça de museu com rodas, com a tinta a cair aos bocados e cheio de ferrugem.
Mas foi Sara e Helena que mais importância deram quando ouviram buzinar frente à loja onde Sara trabalhava. Quando viram a figura dos namorados dentro do carro soltaram-se às gargalhadas até lhes doer as bochechas. Martim debruçou-se sobre Salvador para ver as raparigas através do janela: - Querem dar uma volta? – Perguntou. Elas mal podiam respirar de tanto rir e ao imaginarem bem a quantidade de bichos que provavelmente, andariam pelo assento do carro recusaram prometendo que iriam com eles quando limpassem toda a sujidade.
- Vocês é que perdem. – Gracejou Salvador com uma gargalhada.
Com alguma fumaceira o Carocha subiu a rua e desapareceu de vista.
- Imaginavas isto? – Perguntou Helena. – Só mesmo estes dois para se meterem nisto.
- Merecem. O Martim foi um grande apoio para o teu irmão quando ele cá chegou e o Salvador ajudou-o de outra forma. – Agora sim, poderiam conversar abertamente uma com a outra, visto que Sara estava a par de toda a história, desde o começo.
Helena percebeu que o irmão finalmente tinha conversado com Sara.
- Merecem, sim. Todos nós merecemos. – Colocou um braço em redor da amiga. – Sabes que o Lucas vai ser pai no mês que vem?
- Como poderia não saber? O teu irmão está doido para ser tio. Temos andado para os ir visitar mas tem surgido algumas coisas.
Combinaram encontrar-se mais tarde para um jantar a quatro.
Enquanto Sara se desdobrava pela loja a atender os clientes que de repente não paravam de chegar, e Helena esperava pelo irmão e pelo namorado junto à garagem, os dois rapazes divertiam-se à grande por entre o Porto de Abrigo. Uma zona deserta e aberta onde podiam conduzir sem o risco de a Polícia os apanhar e acabar com o sonho do velho Carocha.
- Não puxes mais pá. Ainda me partes o carro ao meio antes de eu levar a minha namorada a dar uma volta. – Resmungou Salvador, com o braço fora da janela, enquanto Martim conduzia.
- Não me digas que isto não aguanta. Não é uma máquina de guerra? – Espicaçou-o.
- Encosta ali à frente, vá. – Resmungou o surfista. – Eii! Não era preciso essa força toda. – Reforçou, quando Martim travou bruscamente na estrada de terra batida.
- Ao menos ficas a saber que trava bem. E a menina sou eu.

Salvador olhou-o pelo canto do olho e saiu para respirar o ar salgado que pairava por cima deles. Ali era diferente. As ondas eram mais calmas naquela praia deserta com meia dúzia de casinhas viradas para a água. Era um local pacato que ele adorava.
Sentou-se no capô, abriu um pacote de amendoins e passou uma cerveja ao amigo. Contar a Martim depois de Sara saber toda a história era mais fácil. O mais difícil foi falar sobre isso em voz alta pela primeira vez e Sara fizera o seu papel ao abraçá-lo e limpar-lhe as lágrimas. Com Martim seria mais fácil e rápido, colocaria tudo em cima da mesa e esperaria pelas perguntas. O facto de ele saber já algumas pontas soltas era uma ajuda.
Sem perguntas, Martim aceitou a cerveja e os amendoins, tinha sido prometido que o fariam assim, por isso sabia o que viria a seguir. Estava pronto e era todo ouvidos, mas será que Salvador lhe contaria a verdade sobre Helena? A mesma verdade que ela própria lhe contara assim que chegaram ao apartamento dela perto da faculdade quando ele decidira deixar a pizzaria e correr atrás dela? Como ela dissera, ele estava ali, e se a relação deles era para ser séria ele teria de saber. O mais importante, é que depois de saber que Helena provavelmente, tivera uma grande culpa no destino do fulano que a atacara, apaixonou-se ainda mais por ela. Aquela era a sua miúda.
Quando Salvador terminara, já os amendoins tinham desaparecido e das quatro cervejas que comprara, apenas a sua que permanecia intacta. Desde aquela noite em que Helena quase fora violada por causa de ele ir buscar uma cerveja, nunca mais bebera uma gota de álcool que fosse.
- Queres? – Perguntou Salvador, vendo que Martim precisava de mais uma para processar tudo o que acabara de ouvir.
- Não a vais beber? – Quis saber. Salvador abanou a cabeça negativamente e Martim estendeu logo a mão desejoso por mais umas gotas de álcool no sangue. Sabia grande parte pelo que aquela família tinha passado mas não esperava tantos pormenores. – Bolas. Está quente! – Resmungou, cuspindo a cerveja.

- És mesmo menina!

                                ⚓

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