Tudo o Que Sempre Quis || Cap.15 || Pt.2

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A visita de Martim e Helena foi uma visita relâmpago com o pretexto de visitarem tanto Salvador como a avó do rapaz, a Dª Rosário que ficou satisfeitíssima por ver o seu neto que mais dores de cabeça lhe dera, finalmente no bom caminho com aquela rapariga que só lhe fazia bem. Dada a sua idade e a sua experiência de vida, não precisou mais que um par de segundos para notar a grande cumplicidade que os unia. Gostavam tanto um do outro. Graças a Deus que Martim tinha ganho juízo.
Mas mesmo numa visita relâmpago, Sara e Salvador fizeram questão que ambos jantassem com eles no apartamento do surfista.
- Já não te queixas das escadas? – Perguntou Martim a Sara, trocista, enquanto subiam. – A Helena também parou de se queixar depois de me conhecer.
Sara parou a meio de um degrau e olhou para ele com desdém. Por vezes, cansava-se a meio da subida, sobretudo depois de umas horas em cima da prancha a cavalgar por cima das ondas, ou de um dia de trabalho cansativo em que mal se sentara.
- De que me vale queixar? – Sorriu – Não muda de casa nem por nada, não seria por eu me queixar por mais dez anos que iria mudar.
- Talvez não seja bem assim. – Admitiu Martim, num momento de confissão. Não tinha grande lidação com Sara, conheciam-se de vista e de uma conversa ou outra mas não eram propriamente grandes amigos, estavam mais para conhecidos. Agora que ela estava com Salvador talvez se tornassem realmente amigos, tendo em conta que seriam família, de uma forma ou de outra. Parou no patamar e segurou-lhe o braço, retendo-a. – Sei que tens uma filha. Resumindo, tenho dois dedos de testa e juntei algumas peças muito antes de o Salvador saber. – Fez uma pausa. – Sei que sabe, senão, porquê a pressa em ter o Carocha em condições?
Sara olhou para os pés, sem saber o que dizer. Não fazia ideia como Martim descobrira que tinha uma filha e sobretudo, não sabia porque guardou segredo de Salvador, eram rapazes e os melhores amigos. Normalmente, seria suficiente para que um contasse ao outro. Lealdade masculina, certo?
- Não lhe contei porque era uma coisa que te competia a ti contar e sinceramente? Neste momento, prefiro que nem sequer sonhe que eu sabia. Demorei muito a conquistar a confiança dele, sobretudo quando comecei a namorar com a irmã. Acho que imaginas. – Sorriu. – Só quero que saibas que… eu não te censuro, sabes? Deves ter os teus motivos e quem sou eu para julgar? Sei que não somos propriamente amigos mas podes contar comigo. Sempre.
- Se queres que te diga, nem sei o que te dizer, não sei como descobriste sobre a Inês – Sorriu – é o nome dela, da minha filha. Mas agradeço-te imenso por teres guardado isso para ti. Está tudo bem agora, tenciono ir buscá-la dentro de algum tempo, não há mais segredos entre mim e o Salvador. E sim, não lhe direi que sabias, irias acabar com os peixinhos, certo?
Aquilo sim, era uma das frases épicas que marcava a amizade de Martim com Salvador.
Soltou uma gargalhada. – Pois, isso. – Colocou um braço em torno nos ombros de Sara, retomando a subida. – Cunhadinha, é melhor chegarmos depressa lá a cima antes que mandem uma equipa de resgate à nossa procura.
Ao chegarem ao apartamento de Salvador, Martim reteve-se por um breve segundo. Encarou Sara com aqueles olhos azuis dele e sussurrou: - Ele fará a coisa certa. Faz sempre. – Declarou, permitindo-a pôr a chave na fechadura.
O que ele acabara de dizer ficou no ar a pairar sobre Sara que não disse nada em resposta, limitando-se a abrir e a fechar a boca sem emitir uma única palavra. Mas Martim estava certo, de uma maneira ou de outra, Salvador fazia sempre a coisa certa, restava saber ao que ele se estava a referir.
- Finalmente! – Exclamou Salvador, retirando o saco com o jantar que foram buscar. – Pensámos que ainda tinham ido depenar o frango. – Ao passar por trás da namorada estranhou a sua expressão pensativa – Está tudo bem?
- Hmm… Sim. – Forçou um sorriso. – Tudo ótimo. – Beijou-lhe os lábios ao de leve. Não queria mais segredos com o namorado mas contar-lhe que Martim sabia sobre Inês estava fora de questão. Não queria mais problemas e sobretudo, não queria colocar os outros em problemas. Talvez devesse escolher, mas que problema teria? Não fora ela que contara ao rapaz, fora ele quem descobrira. Talvez o melhor fosse mesmo deixar as coisas como estavam.
- Trouxe umas cervejas. – Informou Martim colocando a embalagem sobre a bancada da cozinha. – Espero que haja gelo nesta casa, por amor de Deus.
- Há sim. – Respondeu Helena enquanto brincava com Rocky. Na verdade, o cachorro tinha crescido desde a última vez que estivera em casa do irmão mas ela não tinha medo dele. Pelo menos, já não.
Enquanto Salvador e Sara colocavam a comida em cima da mesa, Martim encarregou-se do gelo e das bebidas. Iria testar o amigo e confirmar a sua suspeita desde a tarde daquele mesmo dia em que o amigo nem bebera um único gole da cerveja que tinha na mão.
- Puto, quantas pedras de gelo? – Perguntou, de costas voltadas para que não visse a sua expressão matreira.
- Nenhuma. Não bebo. – Respondeu, encarando três pares de olhos que o interrogavam. – O que foi? Não me apetece.
- Não te apetece. Hmm. Ok. – Aceitou ele. Na verdade, quando é que lhe apetecia uma cerveja ou uma gota de álcool que fosse? Pois, nunca! Nunca o vira beber e só agora juntou todas as peças.  
- Bem mano, acabaste de desfazer o meu sonho. Eu que te julgava o rei das festas aqui em casa desde que para cá vieste. Imaginava-te ali no terraço com uns amigos, um prato de amendoins, umas cartas em cima da mesa e uma cerveja gelada na mão. Que triste. – Declarou, dramatizando a questão.
Sara não era fã de cerveja mas naquela noite estava a ponderar abrir uma exceção.
- Só uma amor. – Desafiou ela. – Não vamos conduzir, não vamos a lado nenhum. – Rematou, dobrando os guardanapos.
Antes que o rapaz pudesse responder em sua defesa Martim encaminhou um copo com a cerveja e uma pedra de gelo na sua direção, murmurando: - Não foi tua culpa. Acabou. É passado. A tua irmã está bem, OK? Não vai acontecer nada esta noite.
- Só uma. – Aceitou, contrafeito. O amigo estava certo, aquela história tinha terminado. Mas antes de beber o primeiro gole, pelo canto do olho observou Helena e imaginou como seria a sua vida se naquela noite ele não tivesse desejo de uma bebida fresca, sentiu um aperto no peito e afastou o pensamento de como estaria ela agora se ele chegasse tarde demais. Mas não aconteceu. Chegou a tempo e salvou a sua irmãzinha de um mal maior e agora ela estava segura. Estava a tornar-se numa belíssima mulher e Deus ajudasse quem se atrevesse a magoá-la sequer. Observou Sara que se servia de uma perna de frango assado e não se esqueceu da promessa que lhe fizera; sem mais sarilhos. Sem mais justiça pelas próprias mãos.  Carregou num botão do telemóvel dela que estava sobre a bancada da cozinha apenas para ver o rosto de Inês mais uma vez. Amava a mãe daquela menina e se tivesse de mover montanhas para a trazer para junto deles, assim o faria. Estava disposto a fazer a coisa certa, mesmo que isso significasse mudar a sua vida radicalmente. Estaria pronto? Talvez não, mas quando a segurasse pela primeira vez, saberia que tinha tomado a decisão certa.
O jantar decorreu alegremente e depois de Martim e Helena saírem, Salvador ligou para o irmão. Tinha os seus dias tão preenchidos mas fazia questão que Lucas soubesse que ele estava ali. Como sempre.
- Puto, então como está a minha cunhada linda e barriguda? – Gracejou.
Do outro lado Lucas soltou uma gargalhada - Mano, se ela te ouve faz-te em picadinho. Está tudo bem, tirando os resmungos e o mau feitio de quem está prestes a explodir a qualquer momento.
- Escuta, sei que prometi ir visitar-vos mas tem acontecido umas coisas por aqui… Nada de preocupante, é uma longa história que envolve a Sara mas dentro de dois dias terei o Carocha em condições e um fim-de-semana, se não houver problema com a Mafalda, aparecemos por aí. – De repente lembrou-se que Lucas ainda não sabia a boa nova. – Puto, nem te disse mas a lata velha andar já anda. – Gritou. – Agora é pintura nova, limpeza e fica como novo.
- Tenho de ver isso. – Gracejou Lucas. – Apareçam quando quiserem, são sempre bem-vindos. – Ao longe ouviu-se um resmungo. – Mano, tenho de ir, a mulher está com desejos de cerejas a esta hora.
Salvador riu-se. : - Boa sorte com isso!
Mal desligou a chamada o seu coração rebolou dentro do peito. Pensar no seu sobrinho ou sobrinha que estava para nascer clareou-lhe ainda mais as ideias e quando Sara saiu para o terraço e se juntou a ele, teve a certeza que procurava.
- Vamos buscá-la. – Murmurou ele, colocando um braço em redor do pescoço dela. – Vamos trazê-la para perto de nós.
A rapariga agradeceu-lhe com um sorriso sincero e um brilho no olhar. Beijou-lhe os lábios suavemente deixando-se envolver nos braços dele.

Martim estava certo. Salvador fazia sempre a coisa certa.
                                   

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