Tudo o Que Sempre Quis || Cap.16 || Pt.1


«Está na hora de seguir em frente
E deixar o passado no lugar dele»

Estava uma belíssima noite de luar, Sara e Salvador estavam na praia deserta onde ele dias antes tinha estado com Martim, deitados sobre o capô do Carocha acabadinho de sair da oficina com a pintura nova e brilhante.  Tal como desenhara, o irmão de Martim pintou-o de vermelho com duas faixas brancas de um lado ao outro passando pelo tejadilho. Aos olhos de Salvador estava mais que perfeito, estava lindo. Era um dos seus desejos realizados e o próximo da lista era Inês. Durante algum tempo não disseram nada, perdidos nos seus pensamentos de como seria as suas vidas dali para a frente.
- Tens mesmo a certeza? – Perguntou Sara pela milésima  vez desde a noite em que ele lhe dissera que queria ir buscar a filha dela. – A tua vida irá mudar radicalmente.
Sem tirar os olhos do céu Salvador respondeu: - Irá mudar para melhor.
- Sabes o que quis dizer . – Declarou ela.
- Sei e pela milésima vez; sim, tenho a certeza. Quero que a tua filha esteja contigo, quero fazer parte da vida dela. – Fez uma pausa. – Sara, não é só ela que precisa de uma figura paterna, não és só tu que precisas de alguém que cuide de ti, sou eu, percebes? Preciso disto. Preciso de ti, dela. – Esticou os braços por cima da cabeça, espreguiçando-se. Levantou-se e ficou em frente a Sara. – Até a algumas semanas, pensei que não tivesse nada a perder, mas agora vejo que tenho tudo. Eu amo-te. Quero ficar contigo, com a Inês.

Sara levou algum tempo a responder. – E se um dia mais tarde tivermos um filho….
- Tratarei ambos de forma igual. – Assegurou-lhe. – A Inês pode não ser a minha filha de sangue mas será de coração e cuidarei dela da melhor forma possível. – Colocou-lhe uma madeixa de cabelo atrás da orelha. – Confia em mim Sara, podemos fazer isto. Sei que podemos.
- Eu confio amor. Sabes que sim. – Sorriu.
- Iremos arranjar uma casa para nós os três. – Confessou.
Sara ergueu o sobrolho, desconfiada.
- Achas que iríamos ficar no meu apartamento? Quanto muito podemos ficar no teu que tem menos escadas.

Pela primeira vez, Salvador admitira que o maior problema de onde morava era mesmo a falta de um elevador tendo em conta que residia no último andar.
- Pensei que tivesses uma história com a tua casa. – Murmurou Sara, recordando tudo o que ele lhe contara sobre Simão, o papel misterioso que encontrara na primeira vez que entrara por aquela porta e tudo o resto. Sabia o que aquele apartamento significava para o namorado e ele estava disposto a abdicar de tudo isso pela filha dela.
- E tenho. Mas não vou ficar preso a uma casa só pela história que tenho com ela. – Pegou na mão de Sara e beijou-lhe os nós dos dedos. - Podemos fazer história noutro lado, noutra casa… O nosso lar, a nossa história.
Sara quase se sentia culpada por o levar a mudar a sua vida daquela forma, ainda que o rapaz lhe assegurasse que era o que queria, ela tinha receio que um dia mais tarde ele se arrependesse de ter largado tudo por elas. Ele amava-a, ela sabia-o, contudo, continuava a ser invadida por aquele temor. Salvador percebeu isso através do seu olhar distante.

- Sara… Eu quero isto. Quero mesmo. Não tenhas dúvidas, por amor de Deus. – Apertou-a nos seus braços, na tentativa de lhe transmitir através do carinho e do amor que sentia por ela, a sua convicção. – A minha vida não irá acabar por causa da menina, irá mudar em alguns aspetos, sim é verdade. Terei mais alguém com que me preocupar, alguém para cuidar e para amar. Terei uma tremenda dor de cabeça quando ela crescer e os gajos não nos saírem da porta, irá partir-me o coração quando se tornar uma mulher e sair debaixo do nosso teto mas… Irá valer a pena. Tudo. – Fez um pausa, apertando-a mais contra si – Estou pronto, Sara. Não tenho dúvidas se serei capaz ou não. Se estou nervoso? Sim. Ansioso? Bolas, sim! Se estou assustado? Nem um pouco. 
Sara não sabia o que havia de lhe dizer, pelo que optou por deixar o seu coração falar por si, e tudo o que disse foi: - Amo-te tanto, mas tanto Salvador. Desde que te conheci naquela manhã na praia. Sempre foste o melhor de mim. – Ergueu o rosto para ver aqueles olhos verdes que cintilavam como duas estrelas na escuridão – Eu menti quando disse que regressei por saber que o Nelson era estúpido para me vir procurar aqui novamente. Voltei por ti. Eras…és… o meu refúgio. O meu porto de abrigo. – Sorriu, ao ver o sorriso dele, tímido. – Lembras-te disto? – Retirou o fio com o pendente de uma prancha com um S gravado que o rapaz lhe dera à tanto tempo atrás e que ela nunca tirara desde então. – Tinhas razão, trouxe-me de regresso a casa.
Salvador não reprimiu as lágrimas que lhe assomavam aos olhos, deixando-as livres para percorrer o seu rosto se quisessem. Sorriu.
- Podes ficar com isso na mesma. – Emoldurou o rosto de Sara com ambas as mãos – Estou em casa. Finalmente estou em casa.
Era verdade. Sentia-se realmente em casa. Não pensava nem por um minuto sair daquela vila à beira-mar. Fora ali que encontrara um rumo a seguir. Encontrara novos amigos, encontrara Sara. Fora junto ao mar que encontrara uma vida, uma segunda oportunidade para recomeçar.
Entraram para o Carocha agora com o aspeto de um carro novo acabado de sair do stand, sem um único vestígio de ferrugem ou de poeira à vista, e regressaram a casa dele.
Nessa noite, enquanto esperavam que o sono chegasse, Sara confessou não querer levar Inês para o apartamento dela, justificando que o ambiente descontraído da casa dele seria um lar melhor para a filha. Existia o senão das escadas mas seria melhor que um apartamento de primeiro andar numa vizinhança silenciosa e isolada demais. Sabia que o perigo estava onde estivessem mas se pudessem prevenir, melhor.
Salvador acabou por concordar, ainda que se Sara lhe pedisse – embora ela nunca o fosse pedir – ele abriria mão da sua zona de conforto, mudando-se de malas e bagagens para casa dela.
Entre planos para o futuro a noite passou sem o sono chegar realmente, deixando-os descansar apenas por um par de horas antes dos primeiros raios de sol penetrarem pela janela do quarto. Iriam buscar Inês naquele dia. Como bom presságio, o sol brilhava intensamente, avizinhando-se mais um dia quente de fins de Abril. Talvez no dia seguinte, Domingo, pudessem levar Inês à praia visto que na semana seguinte a menina ingressaria no infantário, permitindo-os regressar firmemente ao trabalho depois de uns dias de férias forçadas após o incidente de Salvador no mar. Para sorte de ambos, o patrão compreendera a situação e dera-lhes uma segunda oportunidade que não poderiam desperdiçar, tendo em conta as despesas que iriam ter.
- Está tudo bem? – Perguntou Sara, vendo o namoradoinquieto e a respirar fundo várias vezes seguidas enquanto abotoava a camisa azul cor do Céu.
O rapaz respirou fundo novamente, desistindo dos botões que não entravam no sítio certo por mais voltas que lhes desse. Não era a primeira vez que usava uma camisa mas naquela manhã, era uma tarefa difícil.

- Estou um bocado nervoso. – Confessou, enquanto Sara lhe abotoava a camisa. – Mais nervoso por conhecer os teus pais do que a Inês.
Salvador já não se referia a Inês como «a tua filha» , não queria precipitar-se ao conversar com Sara sobre o que pensara desde que soubera que ela era mãe, mas tencionava tornar Inês também sua. Filha de ambos, legalmente. Seria um processo demoroso, talvez sim, talvez não, ele não percebia muito do assunto mas desejava poder dar o seu nome à menina. De uma forma ou de outra,  sempre fazia a coisa certa, mas fazia-o por querer e não por pena ou simplesmente porque sim. Fazia-o com o coração e sem esperar nada em troca.
- Não te preocupes. Vão adorar-te. E mesmo que não te adorem, não interessa. Não são eles que têm de gostar de ti, sou eu. – Sorriu, aliviando a atmosfera pesada que os rodeava.
Mesmo assim, Salvador não deixou de se sentir nervoso até se sentar ao volante e rumar ao Alentejo. Conduzir relaxava-o, mas naquele momento, o que ele mais precisava para descomprimir e ainda não se atrevera a fazer, era surfar. Como ele ansiava sentir a água salgada e a prancha debaixo dos pés. Teve de se contentar com o carinho que Sara lhe transmitia quando colocava a mão sobre a dele. Aquela rapariga, sem dúvida era a sua tranquilidade, ainda estava para saber como ela poderia mostrar-se tão calma perante toda a situação que estavam prestes a encarar. Contudo, também ela estava nervosa, desejosa por ter a filha nos braços desta vez para sempre, apenas não demonstrava de forma que ele percebesse.
A viagem durou apenas três horas mas para ambos, pareceu um dia inteiro. Quando percorreram a estrada de terra batida ladeada por árvores de um lado e do outro, Salvador respirou fundo uma última vez. Ao fazer a curva deu de caras com uma pequena casa de férias que de pequena não tinha nada.
Um homem com idade para ser seu pai estava sentado numa cadeira de baloiço no alpendre a ler o jornal, espreitando por cima dos óculos de vez em quando, observando uma menina loira dentro de um vestido cor-de-rosa e branco que corria desajeitadamente pela relva fora. O coração do surfista já nem estava no sítio. Aquela deveria ser Inês. Mesmo de longe era evidente as semelhanças. Olhou Sara pelo canto do olho e foi a sua vez de lhe segurar a mão. Ela sorriu-lhe. Era o momento da verdade.
Salvador estacionou o carocha à sombra de um grande e velho carvalho que pendia para um lado, deformado pelas décadas que sobrevivera. O pai de Sara pousou o jornal em cima de uma pequena mesa de verga ao seu lado e retirou os óculos, pasmado ao ver a filha ali tão perto. Uma senhora saiu de rompante para o alpendre, mesmo estando em casa, estava apresentável. Demasiado, notou Salvador. Aquela deveria ser a mãe de Sara.
Inês, com as suas pernas pequeninas e rechonchudas, correu em direcção aos braços abertos da surfista. Não sabia como, mas a menina reconhecia que Sara era a sua mãe. Talvez os avós nunca a deixassem esquecer. Mesmo sendo pessoas de pose altiva, era uma boa atitude da parte deles.
- Minha pequenina. – Murmurou a rapariga, enchendo a filha de beijos repenicados, segurando-a firmemente nos braços, como se temesse que e tirassem a qualquer momento. – Nunca mais te vou deixar.
Inês brindou-os com um sorriso infantil e quando olhou envergonhadamente por cima do ombro da mãe para Salvador, este sentiu um nó no estômago. Um nó bem apertado. Inês e Sara eram tão parecidas que ele nem notara qualquer traço evidente que não fosse comum com a namorada.

- Posso segurá-la? – Pediu ele a Sara, esticando os braços na direção da menina. A rapariga acedeu, passando a filha ao namorado. – É tão linda. – Sussurrou. – Tem os teus olhos. As tuas bochechas. – Sorriu. – É mesmo tua filha.
Segurar Inês nos braços fez com que ele compreendesse o quão perto estivera de perder tudo aquilo por ser cobarde e deixar-se ir de mão dada com o desespero. Agora tinha Sara e Inês na sua vida, tinha mais do que muitas razões para sorrir, ser feliz e aproveitar cada dia. Nunca iria deixar de sentir a falta do seu avô, mas sabia que ser feliz era a melhor forma de o homenagear. Era o que ele iria desejar aos seus netos, à sua esposa e filha. Ao pensar nisso Salvador colocou-se no lugar do avô; criara Margarida como uma filha, amou-a como amaria qualquer outro filho que tivesse mas não teve, e agora era a sua vez de dar amor a uma criança rejeitada pelo pai biológico. Isso dera-lhe mais certezas no plano de perfilhar Inês, dar-lhe o seu nome.
Os pais de Sara continuavam no alpendre especados. Não esperavam o regresso da filha naquele momento, muito menos a presença de um intruso na vida da neta. Era bom que as intenções do rapaz não passasse nem perto de magoar as suas meninas, caso contrário, seria corrido a chumbo. Este era o pensamento do pai de Sara.
- É impressão minha ou os teus pais ficaram mais brancos que um fantasma? – Sussurrou Salvador ao ouvido da rapariga, sem largar Inês que acabara por pousar a cabeça no seu ombro.
- Não esperavam por isto. Pelo menos tão cedo.  – Confessou.
O surfista procurou a mão dela. - Estou feliz Sara. – Admitiu. –Estou realmente feliz.

Pela primeira vez, depois de perder o avô para o cancro, o rapaz sentiu-se feliz. Uma felicidade que o invadia sem explicação possível a não ser por estar rodeado pela rapariga que amava há tanto tempo e pela menina que começara a amar. Duas formas distintas de amor que preenchiam o seu coração. 

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