Tudo o Que Sempre Quis || Cap.16 || Pt.2

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Já a tarde ia a meio quando Sara se despediu dos pais com Inês nos braços. Não podiam deixar de se sentirem receosos que alguma coisa acontecesse à única neta que tinham, Sara sabia defender-se mas Inês não passava ainda de uma bebé que estava prestes a completar dois anos naquele Verão que chegaria dentro de um mês e algumas semanas. Salvador prometera cuidar de ambas, e mesmo sabendo que os futuros sogros não eram pessoas que visitariam vilas à beira-mar, abriu a porta da sua casa, convidando-os para uma visita quando quisessem.
Ao apertar a mão do pai de Sara notou que era um homem frio, tal como a rapariga dissera, mas desfazia-se em mimos com Inês, talvez para compensar a infância infeliz, rígida e distante que dera a Sara. Também a mulher era uma senhora distante e exigente, não seria de admirar que a rapariga tivesse recorrido a outros caminhos para escapar à edução apertada dos pais. Notava-se que não seriam daquelas pessoas que dariam calorosos braços ou que tivessem sempre alguma palavra amiga para a confortar nos momentos mais difíceis. Talvez por isso Nelson, o ex-namorado de Sara e pai de Inês, estivesse entrado na história. Ela aprendera a gostar de desafios, de sentir o perigo, e o fulano era o perigo em pessoa, sempre a viver no limite de tudo.
- Daremos notícias. – Disse Sara, acenando aos pais.
Sentaram Inês na cadeirinha dela e colocaram os sacos com as roupas e alguns objetos dentro do Carocha. Em casa dos avós ficara a mobília que não era necessária. No dia anterior, junto com Salvador, Sara comprara um berço e um pequeno armário para Inês. Demoraram mais de uma hora na loja apenas para escolher aquelas duas peças, era tudo tão giro que davam por si a gostar cada uma mais que outra até percorrerem a loja de uma ponta à outra por várias vezes, comparando cores, feitios e preços. E no final do dia estava o berço montado no quarto deles até Inês crescer para ter a sua própria cama ou mudarem de casa como haviam planeado.

Quando o Carocha fez a curva, saindo da estrada de terra batida já Inês adormecera enroscada no seu peluche. Salvador procurou a mão de Sara e refizeram o caminho de regresso a casa praticamente todo em silêncio. Não era preciso palavras para darem a conhecer o turbilhão de sentimentos que os invadiam. Estava feito. Agora era seguir sempre em frente e deixar o passado no lugar dele.
Naquele momento, Nelson não fazia parte dos pensamentos de Sara. Talvez nunca mais fizesse, tinha Salvador e sabia que não o deixaria aproximar-se dela ou da filha, nem uma vez que fosse. Sara já não sentia medo do ex-namorado, nem sequer raiva. Simplesmente, já não sentia nada, por mais ínfimo que fosse, por ele.
Salvador estava certo, estava na altura de seguirem realmente em frente e deixarem o passado no lugar dele. 
- Sara… - Murmurou Salvador, chamando a atenção da surfista perdida algures nos seus pensamentos. – Quero saber a tua opinião sobre uma coisa. – Apertou o volante com as duas mãos até os nós dos dedos ficarem brancos, olhou pelo espelho retrovisor verificando que Inês continuava adormecida. – Tenho pensado nisto já a algum tempo mas não sei se irias concordar, e primeiro de tudo quero que saibas que seja qual for a tua decisão, irei aceitá-la, OK?
Sara começava a ficar nervosa com o que iria sair dali mas acedeu.
- Tudo bem. – Respondeu, semicerrando os olhos.
- Que achas de eu adotar a Inês? – Perguntou, a medo, sem saber bem como abordar aquele assunto. – Digo, perfilhá-la ou o que seja. Dar-lhe o meu nome e essas coisas.
Aquela era uma verdadeira surpresa que Sara não esperava por parte do namorado, pelo menos não tão cedo mas que poderia dizer em resposta? Como poderia sequer pensar sobre o assunto? Não era mais do que evidente? Se Salvador estava disposto a isso que mais importava?
- Bem…Admito que não estava à espera disto.- Balbuciou, penteando o cabelo que esvoaçava ao sabor do vento que entrava pela janela do carro. – Adoraria! – Declarou, apertando a mão dele entre as suas. – Se tu queres, eu também quero. Claro que sim!
O surfista irradiava felicidade.
- Ótimo. Trataremos do que for preciso então. – No seu rosto bailava um enorme sorriso revelando os seus dentes brancos e perfeitamente alinhados.
Inês acabara por despertar do sono a alguns quilómetros daquela que agora seria a sua Vila, a sua casa. E enquanto olhava distraidamente pela janela ainda entorpecida pela sesta durante grande parte da viagem, Inês não sabia que teria um pai que iria cuidar dela todos os dias, que a amaria de todas as formas possíveis e se tornaria o seu melhor amigo, o seu companheiro de travessuras e malandrices. Juntos fariam a cabeça de Sara em picadinho. Na sua inocência infantil, Inês não sabia o que o futuro lhe reservava mas já estava a adorar ver o mar no horizonte e se ela gostava de praia, certamente teria uma infância feliz naquela pequena Vila junto ao mar que acolhera e protegera a sua mãe quando ela mais precisou. Sobretudo, iria ter uma infância feliz por estar rodeada de pessoas que a amavam, teria uma família nova, tios novos e um primo prestes a nascer. Inês não sabia nem poderia saber, mas o seu destino estava traçado e coisas boas estavam por vir.
- Paia, paia! – Praia. Gritou a menina, remexendo-se na sua cadeirinha, inquieta e totalmente desperta agora que via o mar ali tão perto. – Mamã, paia!


Sara e Salvador trocaram olhares de ternura e ambos sorriram. O dia estava a terminar mas não poderia ser um momento melhor para levarem a filha a pisar a areia por uns instantes enquanto o Sol começava a esconder-se.
- Queres ir à praia Inês? – Perguntou ele, vendo-a pelo espelho retrovisor.
- Siiiiim. – Respondeu ela satisfeita.
- Sara, não me lembrei do Rocky. Não é alérgica, pois não? – Rocky, o cachorro que adotara meses antes, tinha sido esquecido tal era a ansiedade por terem Inês com eles que nem se lembrou que a menina poderia ser alérgica ao pelo dos cães.
A rapariga soltou uma gargalhada vendo a expressão aflita estampada na cara do namorado:
- Não, não é alérgica ao pelo dos cães. Que achas de o levarmos? Coitado, depois de um dia em casa o cão deve estar a precisar de correr para esticar as pernas e seria bom adaptarem-se um ao outro.
Salvador acedeu enquanto estacionava à porta de casa. Naquele momento, esperava que a Dª Rosário não aparecesse, seria justo dar-lhe uma explicação depois de tudo o que fizera por ele mas não naquele instante. Sabia Deus o quanto também ele estava a precisar de molhar os pés na água salgada, se aquilo era o mais próximo do Surf que iria estar por mais uma semana ou duas.
Tal como era o seu desejo, a avó de Martim não os interpelou, permitindo-os levar a bagagem para o apartamento e descerem até à marginal. Inês saltitava entre o colo de Sara e de Salvador enquanto Rocky caminhava ao lado deles pela trela, totalmente contrafeito por ir preso mas quando na areia Salvador o soltara, tornou-se no cão mais feliz à face da terra, correndo pela praia de um lado para o outro, totalmente doido e feliz à sua maneira.
Também Inês correu  pelo areal enterrando os seus pezinhos gordos e pequeninos enquanto soltava gargalhadas genuínas, fazendo Sara e Salvador correrem atrás dela no seu jeito protetor.
O surfista descalçou os ténis atirando-os para a areia, arregaçou as calças bege até ao joelho e quando teve oportunidade, pegou em Inês levando-a até à beira-mar sobre o olhar enternecido da namorada. Nem com o fingir ser atirada à água, a menina deixou de gracejar, pedindo sempre por mais.
- Vai molhar a mamã. – Sussurrou ele, quando Inês mergulhou as mãos na água salgada.
Com um sorriso traquina, assim ela fez. Correu para Sara, que se sentara na areia a ver a cena que se denrolava à sua frente, e colocou as mãos molhadas na cara dela. A surfista fingiu-se aterrorizada e Inês fugiu no seu passo trôpego para a beira-mar em direção a Salvador que lhe abriu os braços para que ela saltasse. Inês saltou sem qualquer receio e ele atirou-a ao ar, apanhando-a firmemente de seguida
- Queo mai. – Quero mais, pedia ela entusiasmada.
Salvador fez-lhe a vontade e quando a segurou firme novamente, beijou-lhe os cabelos loiros e sussurrou:
- Sempre cuidarei de ti. Prometo.

Sara não cabia em si de tantas emoções e sentimentos que estava a transbordar ao ver a cena de brincadeira entre a filha e Salvador, e quando ele olhou para ela com aqueles olhos verdes tão brilhantes e um sorriso que transmitia todas as coisas boas, com o cabelo escuro mais curto, a barba de três dias e a tez mais morena, só lhe apetecia também saltar para os braços dele. Com o sol atrás de si, aos olhos dela, o surfista era perfeito. Não só fisicamente mas também como pessoa. E naquele instante ela soube que Salvador seria sempre o único homem da sua vida.

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