Tudo o Que Sempre Quis || Cap.16 || Pt.3

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A semana seguinte avançara rapidamente sem que dessem pelo tempo passar. Salvador e Sara dividam o tempo entre Inês, o emprego e os afazeres domésticos. Estavam ambos ainda a descobrir uma vida a dois – melhor, a três – e tudo o que isso pudesse incluir. Salvador trazia na bagagem o mau exemplo do casamento dos pais, uma relação que desde sempre fora pontuada por violência psicológica e por vezes até física. Tinha um ódio de estimação pelo pai que ninguém imaginava, e por vezes, durante a noite após as discussões deles ou quando via a mãe chorar, desejava esmurrar o pai até ao limite. Como isso lhe daria prazer. Magoá-lo como magoara a sua mãe, fazê-lo sofrer e por fim, desprezá-lo tal como ele fizera. Mas ele não era o reflexo do pai, nem tão pouco seria capaz de magoar Sara ou Inês, fosse de que forma fosse. E naquela manhã quando se despedira da namorada com um beijo doce e apaixonado, soube que passasse meses ou anos, seriam sempre as mesmas pessoas, unidos e eternamente apaixonados mesmo quando já nada fosse novidade na vida a dois. Era parte da essência deles.
- Inês – Chamou, enquanto colocava a menina no chão, ajeitando-lhe o vestido de seguida. – A mamã vem buscar-te à tarde. – Não sabia se Inês teria noção do tempo, ou do que significaria «tarde», na verdade, não fazia a menor ideia do que se passaria na cabeça de uma criança mas estava a adorar o que descobria todos os dias com aquele palmo e meio de personalidade. Beijou-lhe os caracóis loiros e viu-a afastar-se pela mão da educadora de infância enquanto lhe acenava com a sua mãozinha rechonchuda e pequenina.


Enfiou as mãos nos bolsos das calças de ganga e enquanto caminhava rua acima em direção à loja de desporto onde ainda trabalhava foi invadido por uma enorme onda de saudades da mãe e dos irmãos, talvez estivesse na altura de fazer realmente algo para reunir a família de novo, ou o que restava dela e por um momento desejou poder levar a mãe para perto de si. Lucas tinha Mafalda e o bebé prestes a chegar, Helena tinha Martim e um curso para terminar, quanto à mãe, estava bem, sabia disso mas queria tê-la por perto, dar-lhe tudo o que ela merecia.
Pegou no telemóvel e marcou o número que sabia de cor. Do outro lado atenderam ao terceiro toque.
- Sim?! Mãe. Oh, olá. Não, não, está tudo bem. Acho que… só queria ouvir a tua voz. – Margarida estava a par dos últimos acontecimentos, da relação do filho com Sara, de Inês… Mas naquele momento, Salvador não precisava de nada mais, apenas escutar a mãe, atenuar alguma ponta daquela saudade avassaladora. De repente, teve noção de quão pouco tempo passara com ela nos últimos meses, sentiu-se culpado. – Mãe, que dizes a um fim-de-semana aqui? – Pela sua vontade, queria a mãe por perto mais do que dois dias mas sabia que naquele momento seria impossível ela fechar a loja, ou deixá-la entregue a sua avó ainda de luto. Alzira recusava-se a deixar o conforto da sua casa por isso nem sequer passara pela cabeça de Salvador convidar a avó.
- Que diz a Sara disso? – Quis saber.
- Não se importará, tenho a certeza.
- Sexta ao final da tarde apareço por aí, então.
- Boa! – Salvador quase deu um pulo de alegria no meio da rua. – Mãe, tenho de ir trabalhar. Sim, mais tarde falamos melhor. Beijinhos. – Estava prestes a desligar a chamada quando um impulso o impediu. – Mãe! É só para te dizer que te amo. Muito. Sinto a tua falta. – Com as lágrimas nos olhos, desligou quando do outro lado a mãe lhe respondeu que também o amava.

Aquela seria para sempre a mulher mais importante da sua vida.  Amara os seus filhos a dobrar, fazendo o papel de mãe e pai, sempre tentando preencher o vazio que ele lhes deixava no coração, sem uma palavra de conforto ou um gesto de carinho. E era esse exemplo que Salvador estava a seguir quando tencionava adotar Inês, dar-lhe todo o amor que tinha para dar e tentar compensar o facto de o seu pai biológico a rejeitar, ignorar.
Enquanto isso, a uma centena de quilómetros, Lucas e Mafalda entravam em stress ao ver o dia do nascimento do filho cada vez mais próximo. O parto fora agendado para dali a duas semanas mas Mafalda sentia a agitação do bebé dentro de si e Lucas ateimava que não levaria tanto tempo até o terem nos braços. O rapaz era obrigado a levantar-se a meio da noite para satisfazer os desejos alimentares dela. Era absurdo o que lhe apetecia durante a madrugada, pior ainda era encontrar frutas que estavam fora de época, e quando isso acontecia preferia levar mais tempo a chegar a casa de mãos a abanar. Pontualmente, nessas situações, Mafalda contentava-se com um pote de gelado se o sabor fosse idêntico. Se lhe apetecia morangos e Lucas não os encontrava, um pote de gelado de morango apaziguava as coisas.  Na verdade, talvez o rapaz estivesse ainda mais desejoso do que Mafalda, de ver o filho fora do ventre da mãe, pelo menos acabariam os desejos madrugadores. Ainda assim, desfazia-se em mimos e nunca dissera não aos desejos dela.
- Amor, relaxa. Tenho tudo pronto dentro da mala. – A ansiedade de Lucas começava a ter efeitos desvastores em Mafalda que por si já estava nervosa. Esperava seriamente que quando chegasse a hora de ir para o hospital, o namorado não entrasse em pânico. Era bom em situações de stress e pressão mas falando em parto a situação era outra.
- E se faltar alguma coisa?
- Lucas! Não vai faltar nada. – Segurou-lhe os braços, mantendo-o quieto, vê-lo às voltas pelo quarto já a estava a deixar tonta. – Por amor de Deus, vai trabalhar, sim?

Mafalda estava literalmente a mandá-lo embora, procurando um pouco de sossego. Os dias quentes começavam a chegar e um final de gravidez com pés inchados e sem posição para estar era a gota de água. Por isso, logo que Lucas saíra de casa, Mafalda estendera-se ao comprido em cima da cama mas rapidamente fora impelida em ir ao armário, tirar a mala que levaria para o hospital e verificar se realmente estaria lá tudo o que era necessário tanto para ela como para o bebé.

A ansiedade do rapaz estava a dar com ela em doida. É claro que estava tudo a postos para o grande dia. Voltou a colocar as malas dentro do armário e regressou à cama mas uma sensação de apunhalada no ventre fez com que soltasse um grito animalesco.

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Que acham que irá acontecer a seguir? :o

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4 comentários :

  1. Adoro a forma como escreves, fico a aguardar o desfecho!

    Beijinhos ♥
    http://lovingmypinkbubble.blogspot.pt/

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  2. Tudo se vai resolver :) mas olha que sair de casa pode não ser a solução que esperas. Eu sei que há dias em que parece que não vamos aguentar mais, que já aguentámos tudo quanto é humanamente possível. Mas é nessas alturas que nos surpreendemos a nós mesmas :) tu és a pessoa fantástica que és e todas essas circunstâncias, boas ou más, contribuiram para isso. Respira, deita cá para fora. E mais uma vez, levanta-te :)

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