Tudo o Que Sempre Quis || Cap.16 || Pt.4

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Enquanto conduzia no caminho ao escritório onde atualmente trabalhava como designer, Lucas fora invadido por um mau pressentimento, uma sensação esquisita que o deixou com um nó na garganta. Nunca acreditara em sextos sentidos, premonições e muito menos, em pressentimentos, contudo, sem pensar duas vezes e sem colocar qualquer outra hipótese, deu meia volta logo que lhe foi possível e regressou a casa.
Mafalda podia ser enfermeira e conhecer o seu corpo e a medicina melhor do que ele, mas também era teimosa ao supor que o filho não nasceria mais cedo que o prazo previsto. Quanto muito, tinha a certeza que poderia nascer com um ou dois dias de antecedência da data marcada, mas para Lucas, que era mais teimoso do que a noiva, há muito tempo que esperava por um telefonema a uma hora qualquer a informá-lo que já era pai. Sabia que no que tocava a nascimentos, os miúdos muitas vezes não esperavam pelo dia tal e hora tal só porque assim tinha sido decidido. E se aquele era filho de quem era, certamente não lhes iria fazer a vontade, o mais provável era pregar-lhes um susto a meio da noite.
Lucas estava certo, em quase todos os aspetos. Mal teve tempo de entrar em casa quando ouviu um grito vindo da cozinha. Não precisou de mais nada para saber que se tratava de Mafalda. Mil cenários lhe passaram pela cabeça no espaço de tempo de meia dúzia de segundos antes de reagir e correr em seu socorro, já esperava qualquer coisa menos o que estava prestes a presenciar.
- Mafalda…. O que…O que aconteceu? – Gaguejou ao ver pingos de sangue no chão que traçavam o caminho do quarto até ali.

A rapariga levou ambas as mãos ao ventre e arquejou com dores. – Tentei chegar ao telemóvel para te ligar mas não consegui. – Disse, ofegante.
Lucas era bom em situações de pânico, tivera de aprender a sê-lo, mas naquele momento não conseguia dar um passo que fosse quanto mais fazer alguma coisa de útil.
-Ok. – Levou as mãos à cabeça como se isso o ajudasse a pensar. – Tudo bem. Vou chamar uma ambulância. – Reagiu, como se despertasse de um sono pesado. Pela primeira vez teve medo do que ser pai podia significar. – Quinze minutos e estão aqui – Informou, quando desligou a chamada.          
- Não vai dar tempo! – Gritou ela, atingida por uma outra onda de contrações. – Tens de o fazer. Agora!
- O quê? Fazer o quê? – Lucas arregalou os olhos, atónico. Assistir ao parto do seu primeiro filho era uma coisa, mas fazê-lo era outra totalmente diferente. Que percebia ele disso? Que percebia ele de medicina que não fosse as coisas mais básicas e primitivas? – Estás doida?

Quando Mafalda não conseguiu silenciar um grito animalesco de dor e desespero, tudo se tornou mais claro para ele. Estava nas suas mãos. Sabia de alguns casos de partos que correram mal por a ajuda não chegar na altura certa, estava apavorado com o que tinha de fazer mas mais apavorado iria ficar se perdesse a mulher que amava ou o bebé.
- Merda! Eu digo-te o que fazer mas acaba com isto. – Um rio de lágrimas correram pelo rosto da rapariga. Poderiam ser lágrimas de felicidade por o momento de conhecer o filho estar a um curto passo de distância, mas também eram lágrimas de dor, de sofrimento. Quem diria que ter um filho custava tanto? Ainda mais fora de um hospital com tudo o que era preciso para manter as mães confortáveis. Amaldiçoou-se por não escutar Lucas quando ele dizia que aquele momento estava mais perto do que ela esperava. Amaldiçoou-se por ter engravidado e no final amaldiçoou-se por estar a culpar o filho que já tanto amava mesmo sem o conhecer.

Lucas segurou-lhe o rosto, obrigando-a a olhá-lo nos olhos.
- Querida, está tudo bem. Eu estou aqui, não faço ideia do que estou a fazer mas vamos a isso.
Mafalda assentiu.
-Toalhas. Precisas de toalhas limpas e da caixa de primeiros socorros. Tudo o que for preciso está lá dentro. – Guinchou, cerrando os dentes.

O que raio estava ele a fazer? O irmão é que era perito a devorar séries de medicina como a clássica Anatomia de Grey entre outras, era ele quem enfiava o nariz em livros que relatava tudo sobre medicina, desde as coisas básicas às mais absurdas e nojentas. Era Salvador quem aspirava a ser médico e deixara esse sonho de parte a partir do momento em que salvara Helena das unhas daquele monstro. Aqueles minutos tinham sido o ponto de viragem para todos eles, naquela noite o destino dos três irmãos fora traçado.
Salvador era a pessoa certa para fazer o que ele estava prestes a fazer, mas o irmão não estava por perto. Restava apenas ele e Mafalda, durante dez minutos até a ambulância chegar. Seriam os dez minutos mais longos das suas vidas em que tudo poderia acontecer, mas por outro lado, estava tão perto de ter o filho, ou filha, nos braços que afastou todos os seus receios acerca da loucura que estava prestes a fazer. Lavou as mãos e os braços até aos cotovelos, esfregou, esfregou, e voltou a esfregar, enquanto, entre dentes pedia ao avô que o ajudasse, que o guiasse.

- Sei que estás por aí, a rir-te disto. Mas por favor, não me deixes fazer nenhuma asneira. – Pediu. Aproximou-se de Mafalda, beijou-lhe suavemente os cabelos encharcados e murmurou: - Vamos a isso.
Em resposta, Mafalda voltou a gritar desta vez mais alto e fez força para expulsar o filho do ventre. Se ele queria sair, que fosse o mais rápido possível. Já poucas forças lhe restavam para continuar com aquilo muito mais tempo.
- Não te atrevas a deixar-me, estás a ouvir? – Resmungou Lucas, incentivando-a, ao vê-la quase a desfalecer.
- Não consigo, não aguento mais!- Explodiu a rapariga, cerrando os dentes na tentativa de conter mais um grito de dor. Se os vizinhos estivessem em casa certamente pensariam algo indecente sobre eles, mas se ao menos fizessem a mais pequena ideia do que estava a acontecer dentro daquelas paredes…
            -Claro que consegues. Está quase, tenho a certeza. – Afirmou, espreitando para o meio das pernas dela. – Faz força, estou a ver a cabeça do bebé! – Gritou. –Vá lá querida. Força, está quase!

Mafalda quis desistir, sentia-se exausta e sem forças para continuar mas ao olhar Lucas nos olhos, a sorrir para ela com aquele sorriso lindo, perfeito e orgulhoso, soube o quanto ele queria aquele filho, mais do que tudo no mundo.
- Prometes-te casar comigo, lembras-te? – Perguntou ele. – Quero que cumpras a tua promessa, se não o fizeres ficarei muito chateado contigo. – Tentou parecer chateado mas seria impossível esconder toda aquela emoção que lhe transparecia nos olhos azuis que brilhavam como dois faróis enquanto suava por todos os poros.
Mafalda nada disse, ficou-se por um olhar intenso. Durante apenas alguns segundos recordou como conhecera Lucas na escola e como se apaixonara por ele mesmo antes de saber o que era o amor, como fora feliz com ele durante dois anos e como fora estúpida ao trocá-lo por outro colega de turma por Lucas ter mudado de escola. Era uma miúda, não sabia como lidar com algumas coisas, mas quando o reencontrou no hospital em que trabalhava, coberto de sangue e em muito mau estado, bastou olhar bem fundo naqueles olhos para saber que era ele. Poderia ser qualquer pessoa mas ela reconheceria aquele olhar em qualquer parte do mundo.
Não saiu de perto dele desde então, estivera ao seu lado todos os dias e todas as noites após o turno como enfermeira. Mesmo quando Lucas lhe implorara para acabar com aquele Inferno, ela não vacilara. Isso, nunca.
Era egoísta por preferir vê-lo naquele estado, a implorar-lhe por tudo para acabar com o seu sofrimento, do que perdê-lo para sempre.
Sabia que por alguma razão o destino tratara de os juntar uma vez mais e não iria desperdiçar essa oportunidade por nada. Mesmo que isso significasse sofrer por ele, com ele.
  - Sim, prometi. – Respondeu, entregando-se à loucura daquele momento. Depositou toda a força que lhe restava no ventre, sentindo-se a rasgar ao meio.

Lucas deixara-se cair para trás, ignorando os joelhos que lhe latejavam e o resto do mundo. Envolveu o filho numa das toalhas limpas e segurou-o com tamanho cuidado enquanto o bebé protestava em plenos pulmões.
- É tão lindo. – Murmurou ele, afagando aqueles pezinhos tão pequeninos.
Aproximou-se de Mafalda, entregando-lhe o filho nos braços. Um par de lágrimas deslizou pelo rosto de ambos, desta vez de alegria, de alívio, de amor. Os olhos dela iluminavam uma cidade inteira.
            - O nosso Diogo. – Murmurou.
Tal como prometido, quinze minutos depois do telefonema de Lucas para a emergência, o INEM entrou pela porta a dentro.
- Desculpa não te ter escutado. – Pediu, enquanto era levada para dentro da ambulância e transportada para o hospital. – Não era suposto ser assim.
Lucas segurou-lhe a mão depois de entregar o bebé para que o examinassem. - Tendo em conta a nossa história, de que outra forma poderia ter sido? Nem fazia sentido se fosse de outra maneira.
- Parece que sim. - Mafalda deu-lhe um sorriso cansado mas feliz enquanto as portas da ambulância se fechavam.
- Irei ter contigo dentro de minutos. – Prometeu.

Regressou ao interior do apartamento, pegou numa esfregona, limpou o sangue do chão e enfiou as toalhas dentro da máquina de lavar. Quando a adrenalina se esgotara e caíra em si deixou-se abater, encostado aos móveis da cozinha. Com a cabeça entre os joelhos chorou livremente, sem reter fosse o que fosse. Chorou de pânico, de alegria, de medo. Chorou pelo filho que concebeu e trouxe ao mundo, chorou pela mulher que amava e acabara de sofrer com tamanhas contrações. Chorou pela vida que quisera terminar e chorou por ter vencido. E por fim, chorou pelo avô que não estava ali para conhecer o bisneto, mas de outra forma qualquer, se existia realmente vida para além da morte, certamente que o conheceria.
Talvez quando tivesse idade para isso, Diogo lhes falasse de um amigo imaginário e esse amigo fosse o seu avô. Não acreditava em sextos sentidos mas acreditara, quando vira um documentário, que os amigos imaginários dos miúdos não são assim tão imaginários. Todas as crianças têm esse “dom”, mas, tal como deixam de acreditar no Pai Natal, a partir de uma certa idade também deixam de ter a mente aberta, acabando assim a fase dos amigos que ninguém vê.
Ainda a recompor-se, pegou no telemóvel e ligou para o irmão que atendeu quase ao primeiro toque.
- Acabo de fazer a coisa mais louca da minha vida. Nem tu a surfar uma onda do tipo McNamara irias sentir a adrenalina que senti.

Do outro lado, o coração de Salvador deu um salto no peito, não sabia bem o que esperar daquela conversa por isso nada disse, deixando o doido do irmão falar.
- Tens um sobrinho lindo. Um rapagão chamado Diogo.
Mesmo com uma ou duas centenas de quilómetros a separá-los, Lucas e Salvador foram levados pela mesma onda de emoção. O irmão mais velho ficou atónico ao saber o que Lucas acabara de fazer, mas não tão surpreso assim. Conhecia o irmão que tinha e sabia que num momento de pânico faria qualquer coisa por quem amava.
 Se Lucas estava radiante por ser pai, Salvador não cabia em si por ser tio pela primeira vez, logo de um rapaz. Os pais que se cuidassem porque iria estragar Diogo de todas as formas, tanto com mimos como com asneiras saudáveis, tal como já andara a fazer com Inês. Juntos iriam fazer cabelos brancos a Lucas e Mafalda.
Na loja de desporto onde trabalhava, a meia dúzia de clientes que por ali andavam, ficaram embasbacados quando ele deu um salto e gritou com os olhos brilhantes:

- Já sou tio! Yeeeeeeees!

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